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L'uccello dalle piume di cristallo Sam Dalmas (Tony Musante) é um escritor norte-americano que vive em Roma com a namorada, a modelo inglesa Julia (Suzy Kendall), numa fase de bloqueio criativo. Uma noite, ao regressar a casa, Sam testemunha, de fora de uma galeria de arte, uma luta entre uma mulher e um homem envolto numa gabardina e usando luvas pretas. A mulher acaba ferida, e o homem foge, enquanto Sam se vê impotente, preso do outro lado da vitrina. Salva a mulher, Monica Ranieri (Eva Renzi), dona da galeria, Sam é advertido pelo inspector Morosini (Enrico Maria Salerno) que deve permanecer em Roma, pois o seu testemunho pode lançar luz sobre a identidade de um assassino em série que vai matando mulheres em Roma. Mas Sam acredita que algo na sua própria percepção não está correcto, e decide investigar por conta própria.

Análise:

Depois de vários anos a trabalhar no cinema, principalmente como argumentista, tendo colaborado em filmes do chamado cinema de género, alguns famosos, como “Aconteceu no Oeste (C’era una volta Il West, 1968), de Sergio Leone, Dario Argento estreava-se como realizador em 1970, numa produção do seu pai – Salvatore Argento –, como se tornaria hábito, e contando logo na estreia com dois nomes importantes do cinema italiano, o compositor Ennio Morricone, e o fotógrafo Vittorio Storaro.

“O Pássaro com Plumas de Cristal” conta-nos a história de Sam Dalmas (Tony Musante), um escritor norte-americano que vive em Roma com a namorada Julia (Suzy Kendall), uma modelo inglesa. Uma noite, Sam testemunha um ataque numa galeria de arte, ficando preso entre portas de vidro automáticas, enquanto um homem ataca a directora da galeria, Monica Ranieri (Eva Renzi), que escapa, mas vai para o hospital. Sam é questionado pelo inspector Morosini (Enrico Maria Salerno), que crê que o ataque foi praticado por um assassino em série que há uns tempos vem matando mulheres em Roma. Atormentado pelas imagens do crime, Sam começa a investigá-lo, nos locais e com as pessoas ligadas às anteriores vítimas. Sobre uma das vítimas, Sam descobre que ela vendeu um quadro de um homem de gabardina a matar uma mulher, e acredita que o pintor saiba quem é o assassino, mas, encontrado o pintor, Sam não consegue mais nenhuma pista. Em sua casa, Julia é atacada pela figura de gabardina e luvas negras, mas Sam chega a tempo de a salvar. Sucedem-se telefonemas a ameaçá-lo, nos quais a polícia isola um som de estalidos, que mais tarde são identificados como de uma ave rara da Sibéria. A pista leva-os ao Zoo e, dali, descobrem estar junto ao apartamento dos Ranieri, onde mais uma vez Monica está a ser atacada, agora pelo marido Alberto (Umberto Raho). Alberto acaba por cair do sexto andar, e morre depois de confessar ser ele o criminoso. Não encontrando Julia nem Monica, Sam vai procurá-las, chegando a um edifício abandonado onde encontra o amigo Carlo (Renato Romano) morto, e Julia amordaçada e ferida. Sam percebe então que na noite em que testemunhou o ataque, era na verdade a mulher que atacava o homem de gabardina, e é Monica Ranieri a verdadeira assassina que o marido tentou proteger. Sam persegue-a de volta à galeria, onde fica preso debaixo de uma escultura, à mercê da assassina. Mas quando esta se preparava para o matar, a polícia chega e prende-a, salvando Sam.

Depois de contribuir para filmes de géneros diferentes, do western ao crime, passando por acção e drama, talvez não fosse óbvio que Argento viesse a criar uma carreira de realizador baseada em histórias sangrentas repletas de violência e sadismo. Mas tal percurso ficaria delineado logo na estreia, no género que se convencionou chamar de giallo – da palavra italiana para amarelo, que por associação a uma antiga colecção de livros policiais da editora Mondadori, de capa amarela, viria a ser confundida com o próprio género policial, e que vinha a ganhar público desde que Mario Bava nos dera “A Rapariga Que Sabia Demais” (La ragazza che sapeva troppo, 1963). Tipicamente, um género de filmes policiais, centrados na acção de um serial killer, que mata com arma branca, de forma muito sangrenta, o giallo ganhou, com Argento, uma componente ainda mais violenta, para a qual o realizador contribuiu com algumas imagens de marca, como a câmara subjectiva, como os olhos do criminoso, as mãos enluvadas (geralmente as suas próprias mãos), os planos-sequência em voos rasantes sobre uma superfície, num lento aproximar de algo que só vemos quando é demasiado tarde, e, claro, formas incrivelmente rebuscadas e sádicas de matar as suas vítimas.

Em “O Pássaro com Plumas de Cristal”, que inaugura aquilo a que se chamaria «trilogia dos animais» – pois os três primeiros filmes de Argento têm no título um animal –, e que seriam mistérios policiais passados num presente realista, onde o modernismo (as ruas da cidade, os edifícios, os interiores como a fria galeria de objectos ameaçadores), os ângulos agudos e uma atmosfera fria, dominam e se tornam quase cúmplices dos assassinatos frios e aparentemente sem qualquer razão.

Usando, como seria habitual, um elenco internacional, Argento centra a sua história num escritor, como que piscando o olho à ideia de que realidade e ficção se entrelaçam, com os papéis de criador e personagem a não serem estanques. Noutro dos seus movimentos habituais, a história leva-nos a desconfiar de um criminoso, quando na verdade é a aparente vítima inicial que é a assassina, num jogo de aparências enganosas e duplicidade de motivos (o marido deixa-se morrer para inocentar a mulher que ama e que ele sabe culpada – numa sequência famosa onde a câmara é deixada cair do alto para filmar a queda, tendo-se, obviamente destruído, mas deixando a fita intacta). Também os traumas psicológicos ligados à motivação da mente criminosa serão uma característica a explorar por Argento, aqui já presentes na insinuação de que Monica teria sofrido um ataque em criança, com o trauma a revelar-se no instante em que viu uma pintura que lhe lembrou aquele evento.

A partir destes ingredientes, temos o habitual jogo detectivesco, jogado pelo detective amador (e por isso mais próximo da nossa percepção), e rapidamente tornado alvo número um. Os crimes sucedem-se e são sempre sangrentos, em longas sequências exasperantes, onde a vítima nos é declarada como tal à partida, num suspense mais visceral e sangrento que o habitual no cinema norte-americano (por exemplo o de Hitchcock, com que Argento foi desde logo comparado), cujo resultado já conhecemos, mas que não deixamos de desejar que possa ser diferente. Exemplo é uma das mortes de uma prostituta na sua cama, com o assassino a despi-la com a faca, e os cortes de planos, a mostrarem-nos os movimentos de corpo e mãos da vítima, que noutro contexto poderiam ser os de prazer sexual, que aqui termina no jorrar de sangue.

Apesar da sua violência extrema e muito estilizada, ambientes com uma certa artificialidade, e simplicidade de argumento e personagens, “O Pássaro com Plumas de Cristal” foi uma pedrada no charco, tornando-se um grande sucesso em Itália, e sendo reconhecido internacionalmente, inclusive nos Estados Unidos, onde o filme passou por alguns problemas no sistema de classificação, mas acabou por ser bem recebido.

O modelo estava lançado, e Dario Argento tinha, à primeira tentativa, encontrado a sua voz criativa, que o guiaria numa carreira ímpar, e a que muitos autores posteriores não se cansam de prestar homenagem.

Tony Musante em "O Pássaro com Plumas de Cristal" (L'uccello dalle piume di cristallo, 1970), de Dario Argento

Produção:

Título original: L’uccello dalle piume di cristallo [Título inglês: The Bird with the Crystal Plumage]; Produção: Seda Spettacoli S.p.A. – Rome / C.C.C. Film G.m.b.h. – Berlin; Produtor Executivo: Artur Brauner (CCC Filmkunst) [não creditado]; País: Itália / República Federal Alemã (RFA); Ano: 1970; Duração: 96 minutos; Distribuição: Titanus (Itália), Constantin Film (RFA), Sánchez Ramade (Espanha), Universal Marion Corporation (EUA); Estreia: 27 de Fevereiro de 1970 (Itália), 12 de Junho de 1970 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Dario Argento; Produção: Salvatore Argento; Argumento: Dario Argento [baseado, embora não creditado, no romance “The Screaming Mimi” de Fredric Brown]; Música: Ennio Morricone; Direcção Musical: Bruno Nicolai; Fotografia: Vittorio Storaro [filmado em Cromoscope, cor por Eastmancolor]; Montagem: Franco Fraticelli; Design de Produção: Dario Micheli; Figurinos: Dario Micheli; Caracterização: Giuseppe Ferranti [como Pino Ferrante]; Direcção de Produção: Camillo Teti, Rudolf Hertzog.

Elenco:

Tony Musante (Sam Dalmas), Suzy Kendall (Julia), Enrico Maria Salerno (Inspector Morosini), Eva Renzi (Monica Ranieri), Umberto Raho (Alberto Ranieri), Renato Romano [como Raf Valenti] (Professor Carlo Dover), Giuseppe Castellano (Monti), Mario Adorf (Berto Consalvi), Pino Patti (Faiena), Gildo Di Marco (Garullo), Rosita Torosh (Quarta Vítima)
Omar Bonaro (Detective), Fulvio Mingozzi (Detective), Werner Peters (Antiquário), Karen Valenti (Tina, Quinta Vítima), Carla Mancini (Rapariga A Ver TV), Bruno Erba (Detective), Dario Argento (Mãos do Assassino) [não creditado], Anna Eugeni (Dobragem de voz de Suzy Kendall) [não creditada], Cristina Grado (Dobragem de voz de Eva Renzi) [não creditada], Adriano Micantoni (Dobragem de voz de Mario Adorf) [não creditado], Gigi Pirarba (Dobragem de voz de Tony Musante) [não creditado], Silvano Tranquilli (Dobragem de voz de Renato Romano) [não creditado].