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À l'aventure Sandrine (Carole Brana), é uma jovem mulher de negócios, de promissora carreira e relação estável, que um dia decide que a sua vida é demasiado confortável, e pouco aberta a que possa testar os seus limites e com isso evoluir. Depois de deliberadamente humilhar sexualmente o namorado Fred (Jocelyn Quivrin), deixa-o e resolve abrir-se a novas relações. Tal leva-a ao psicólogo Gregory (Arnaud Binard), que lhe mostra o poder da hipnose na descoberta sexual, e à amiga Sophie (Lise Bellynck), que a leva ao mundo do sado-masoquismo.

Análise:

Depois de “Coisas Secretas” (Choses secrètes, 2002) e de “Os Anjos Exterminadores” (Les anges exterminateurs, 2006), “À Aventura” forma um tríptico em que Jean-Claude Brisseau se lança – com muita controvérsia de permeio – em busca de temas como o desejo feminino e o prazer sexual como objecto cinematográfico, onde cinema constitua um documento e ferramenta de ensaio e estudo sobre este tema.

Desta vez, em contornos mais místicos, onde êxtase religioso e prazer físico se confundem, Brisseau conta-nos a história de Sandrine (Carole Brana), uma jovem de promissora carreira profissional. Sem que nada o preveja, Sandrine começa a sentir insatisfação com tudo na sua vida, e, num impulso, termina com o namorado e despede-se da sua empresa, pois quer embarcar numa viagem de descoberta pessoal, que passa pela descoberta sexual de si mesma. Um encontro casual com o jovem estudante de psiquiatria Gregory (Arnaud Binard) faz dele seu amante, e numa conversa com a amiga deste, Sophie (Lise Bellynck), esta conta-lhes das suas explorações de sado-masoquismo em casa de um casal requintado, Jérome (Frédéric Aspisi) e Mina (Nadia Chibani). Convidados a assistir a uma dessas sessões, Gregory e Sandrine mostram-se interessados por Mina, a qual parece ser altamente sensível e sugestionável. Quando a conversa passa por hipnose freudiana, primeiro Mina, e depois tanto Sandrine como Sophie, pedem que Gregory as hipnotize para que busquem estados de êxtase orgásmico só possível através de experiências místicas. As experiências assumem proporções inimagináveis com Mina, a qual regride para encarnações onde se vê como freira num convento, onde êxtase religioso se confunde com sexual. Tais experiências afastam Sandrine do grupo, vendo-se de regresso ao ponto de partida, sem saber o que procurar de seguida.

Mais uma vez num filme de Brisseau, o motor é o tema da busca deliberada do sexo como objecto de estudo, na exploração de limites, abertura de caminhos, que parecem quase iniciáticos nessa descoberta que é a de uma verdade transcendente que tem contornos sexuais. Se no caso de “Os Anjos Exterminadores” tal envolve o cinema, agora é a vez da psicanálise – e note-se o quanto as referências a Freud vão surgindo na carreira de Brisseau.

Sombrio, reclusivo dentro da ideia única que é a tal justificação quase mística para a auto-descoberta sexual, “À Aventura” destaca-se de novo pela forma como é filmado, quer pelos dècors quentes, pela iluminação escura e pelo ambiente tenso. Justificando o seu título, o filme transforma a história de descoberta num caminho perigoso (as talvez irreversíveis consequências psicológicas de que querer mergulhar tão fundo nos desejos e consumações carnais que estão no passado de uma alma humana). Essa nominal aventura, a qual a protagonista primeiro procura, e depois renega – mais uma vez espelhando as protagonistas de “Os Anjos Exterminadores” – passa por libertação de inibições e condicionamentos, como abertura de janela para outro mundo, o qual se torna depois místico, quando Mina se coloca em contacto com vidas passadas. A descoberta de êxtases religiosos como prazeres orgásmicos é mais uma provocação de Brisseau, que ao mesmo tempo denuncia hagiografias de santas e chama ao filme uma aura mística, a qual está sempre presente na sua obra.

Com dificuldade em atrair actores da qualidade pretendida (depois do julgamento a que foi sujeito), Brisseau consegue um filme que, se tenso e bem filmado, parece ficar sempre aquém do que pretende quando necessitávamos de acreditar nas suas personagens. Voltando a dar-nos cenas de sexo explícito entre mulheres, no final a questão é sempre a mesma. Estamos a ver um sincero ensaio sobre liberdade feminina e o quebrar de convenções, ou apenas a dar forma a gastas fantasias masculinas?

Arnaud Binard e Carole Brana em "À Aventura" (À l'aventure, 2008), de Jean-Claude Brisseau

Produção:

Título original: À l’aventure; Produção: Moby Dick Films / La Sorcière Rouge / Soficinéma 3 / Films Distribution / Shellac; País: França; Ano: 2008; Duração: 104 minutos; Distribuição: Shellac (França); Estreia: 29 de Agosto de 2008 (Festival de Montreal, Canadá), 1 de Abril de 2009 (França), (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jean-Claude Brisseau; Produção: Nicolas Brigaud-Robert, Frédéric Niedermayer; Argumento: Jean-Claude Brisseau; Música: Jean Musy; Fotografia: Wilfrid Sempé; Montagem: María Luisa García; Design de Produção: María Luisa García; Figurinos: María Luisa García; Caracterização: Betty Beauchamp; Direcção de Produção: Gaëtane Josse.

Elenco:

Carole Brana (Sandrine), Arnaud Binard (Greg), Nadia Chibani (Mina), Jocelyn Quivrin (Fred), Etienne Chicot (Taxista no Banco de Jardim), Lise Bellynck (Sophie), Estelle Galarme (Françoise), Frédéric Aspisi (Jérôme, O Arquitecto), Michèle Larue (Mãe de Sandrine).