Etiquetas

, , , , , , , , ,

Universos Paralelos

Está a chegar o o vigésimo nono episódio de Universos Paralelos, da autoria do António Araújo (Segundo Take), do José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e do Tomás Agostinho (Imaginauta).

Preparem-se para convidar para casa o mais famoso dos vampiros, Drácula:
podcast

 

Drácula, o príncipe dos vampiros de Bram Stoker

Bram Stoker

Em 1897, o irlandês Abraham ‘Bram’ Stoker publicou aquele que viria a ser o seu mais famoso livro. “Drácula”, de seu nome, era um romance na veia gótica do século XIX, que explorava o mito do vampirismo, numa história epistolar de suspense, horror e aventura, passada, em parte, na Inglaterra vitoriana.

Capa da primeira edição do livro "Drácula" de Bram Stoker, publicado em 1897

Stoker, um funcionário público, na cinzenta Dublin, que escrevia críticas de teatro por hobby, veio a conhecer o famoso actor inglês Henry Irving, o qual o contratou como agente. Desse modo, Stoker mudou-se para Londres, e viajou pela Europa, tomando contacto com o folclore que lhe inspiraria a história de vampiros. Estas faziam já parte da literatura britânica, desde a célebre noite de tempestade de 1816 nas margens de um lago suíço – da qual saiu “Um fragmento” de Lord Byron e o conto de John Polidori, “The Vampyre: A Tale” (1819) –, até ao popular “Varney, The Vampire” de James Malcolm Rymer (publicado entre 1845 e 1847) e à novela “Carmila” de J. Sheridan Le Fanu (1872).

Durante cerca de sete anos, Bram Stoker estudou as origens de crenças populares e mitos de vampirismo, descobrindo que este culto do sangue e das suas propriedades mágicas pode ir do antigo Médio Oriente (Lilith) à Índia (Khali), do México azteca ao extremo oriente. Mas foi principalmente o Leste europeu que o inspirou, com registos de histórias de cemitérios profanados, por pessoas que – quando males inexplicáveis assolavam uma aldeia – procuravam nas campas sinais de que algum corpo não descansava devidamente, e voltava à noite para trazer a doença e a morte.

Lendo sobre esses relatos, e compilando as características atribuídas e estes seres fantásticos, Stoker criou um compêndio que se tornou a pedra basilar para todas as obras futuras sobre vampiros. Mas ao invés de criar uma história sobre mitos antigos, Stoker, renovou-a, e trouxe o seu personagem titular – um conde ancestral, culto, e de boas maneiras – da longínqua Transilvânia para a moderna e industrial Inglaterra do seu tempo, confrontando antiguidade e modernidade, mito e ciência, Oriente e Ocidente.

Imagem do filme "Nosferatu, O Vampiro" (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922), de F. W. Murnau

Numa Inglaterra, ainda puritana, que vivia o sensacionalismo de Jack o Estripador, lia avidamente “Sherlock Holmes”, e se espantava com todos os avanços científicos recentes, Drácula foi recebido com entusiasmo, tornando-se um clássico imediato. Tal sucesso passou fronteiras, e a prova é a adaptação ao cinema, em 1922, por F. W. Murnau, no filme “Nosferatu, O Vampiro”, um clássico do expressionismo alemão, que acabou proibido pelos herdeiros de Stoker.

Poster promocional do filme "Drácula" (Dracula, 1931), de Tod Browning

Mais sorte teve Hamilton Deane, que adaptou a obra ao teatro, nos Estados Unidos, onde teve carreira brilhante na Broadway. Tal fez com que Hollywood cobiçasse o tema, e a Universal – então a lançar-se no cinema de terror – adaptou a peça ao cinema, em 1931, lançando a figura do mesmo actor que vestira a capa de Drácula em palco, o húngaro Bela Lugosi. Nada mais seria como dantes, Drácula passava a aristocrata sofisticado, de capa preta e olhar hipnótico, figura que a Universal exploraria em mais cinco filmes (seis, se contarmos a versão espanhola do filme de 1932), com Lon Chaney Jr. e John Carradine também a vestirem a capa, mas a qualidade a decrescer, numa tendência de repetir clichés e de lançar monstros como atracções de feira.

Christopher Lee, o Drácula dos filmes da Hammer

Com os filmes de vampiros, e de Drácula (nem sempre nomeado como tal por razões legais), a proliferarem, é em 1958 que o personagem ganha novo ímpeto, quando a inglesa Hammer estreia “O Horror de Drácula”, protagonizado por Christopher Lee. Toda uma nova geração via agora sangue vermelho, dentes pontiagudos, e olhos raiados de sangue, na figura imponente e ameaçadora de Lee, que entraria em várias sequelas até 1973.

Desde então o príncipe dos vampiros nunca mais nos deixou, continuando a ser readaptado, seja no vampiro negro de William Marshall em “O Vampiro Negro” (1972), no romântico sedutor de Frank Langella em “Drácula” (1979), ou na bizarra figura quase inumana de Klaus Kinsky no remake “Nosferatu, O Fantasma da Noite” (1979). Talvez hoje a sua forma mais conhecida seja a trazida por Francis Ford Coppola no luxuoso e muito barroco filme “Drácula de Bram Stoker” (1992), que assumiu o papel de contar pela primeira vez a história tal como vem no livro.

Gary Oldman como Drácula no filme "Drácula de Bram Stoker (Bram Stoker's Dracula, 1992), de Francis Ford Coppola

Desde o final do século XX assistiu-se a uma grande popularidade do género no cinema e na televisão, com vampiros de todas as formas e feitios (que é como quem diz, de todas as intenções e graus de malvadez), em géneros que vão da comédia ao romance, da aventura ao terror. Com tantos vampiros de proveniências e comportamentos tão variados, espanta quase que o “velhinho” Drácula ainda seja recuperado de tempos a tempos. Mas ele aí continua, como marco intemporal, e símbolo da cultura ocidental, nem que seja para leituras revisionistas de que o mais recente exemplo é a minissérie de 2020 “Drácula”, criada por Mark Gatiss e Steven Moffat.

José Carlos Maltez, Maio de 2020.

 

Fontes primárias

Bibliografia

  • Stoker, Bram (1897) Dracula. London: Archibald Constable and Company
  • Stoker, Bram (1914) Dracula’s Guest in Dracula’s Guest and Other Weird Stories. Abingdon-on-Thames: George Routledge and Sons

Cinema (filmografia seleccionada)

  • Nosferatu, O Vampiro (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, F. W. Murnau, 1922)
  • Drácula (Dracula, Tod Browning, 1931)
  • Drácula (Dracula, George Melford, 1932) – [versão espanhola]
  • Vampiro Humano (Dracula’s Daughter Lambert Hillyer, 1936)
  • O Filho de Drácula (Son of Dracula, Robert Siodmak, 1943)
  • O Regresso do Vampiro (The Return of the Vampire, Lew Landers, 1944)
  • A Casa de Frankenstein (House of Frankenstein, Erle C. Kenton, 1944)
  • O Castelo de Drácula (House of Dracula, Erle C. Kenton, 1945)
  • Abbott e Costello e os Monstros (Abbott and Costello Meet Frankenstein, Charles T. Barton, 1948)
  • O Horror de Drácula (Dracula, Terence Fisher, 1958)
  • As Noivas de Drácula (Brides of Dracula, Terence Fisher, 1960)
  • Drácula, Príncipe das Trevas (Dracula: Prince of Darkness, Terence Fisher, 1966)
  • O Sinal de Drácula (Dracula Has Risen from the Grave, Freddie Francis, 1968)
  • Provem o Sangue de Drácula Taste the Blood of Dracula, Peter Sasdy, 1970)
  • As Cicatrizes de Drácula (Scars of Dracula, Roy Ward Baker, 1970)
  • Drácula, O Príncipe das Trevas (Count Dracula, Jesús Franco, 1970)
  • Drácula 72 (Dracula A.D. 1972, Alan Gibson, 1972)
  • O Vampiro Negro (Blacula, William Crain, 1972)
  • Drácula tem Sede de Sangue (The Satanic Rites of Dracula, Alan Gibson, 1973)
  • Sangue Virgem para Drácula (Blood For Dracula Paul Morrissey, 1974)
  • Drácula (Dracula John Badham, 1979)
  • Nosferatu, o Fantasma da Noite (Nosferatu: Phantom der Nacht, Werner Herzog, 1979)
  • Drácula de Bram Stoker (Bram Stoker’s Dracula, Francis Ford Coppola, 1992)
  • Dracula: Pages From a Virgin’s Diary (Guy Maddin, 2002)
  • Dracula 3D (Dario Argento, 2012)
  • Drácula: A História Desconhecida: (Dracula Untold, Gary Shore, 2014)

Televisão

  • Dracula (Dan Curtis, 1974) [telefilme]
  • Count Dracula (Philip Saville, 1977) [telefilme]
  • Dracula (Universal Television, Cole Haddon, 2013–2014) [10 eps.]
  • Dracula (BBC, Mark Gatiss, Steven Moffat, 2020) [3 eps.]

Teatro (selecção)

  • Dracula (Hamilton Deane, 1924)
  • Dracula (1977)
  • Dracula (John Godber & Jane Thornton, 1995)

Outras referências

Literatura pré-Drácula

  • Lord Byron (1813) The Giaour (poema)
  • Lord Byron (1918) Fragment of a Novel (fragmento)
  • Polidori, John (1819) The Vampyre: A Tale (conto)
  • Nodier, Charles (1820) Lord Ruthwen ou les Vampires
  • Tolstoi, Alexis (1941) The Family of the Vourdalak
  • Tolstoi, Alexis (1941) The Vampire
  • Rymer, James Malcolm (1845–1847) Varney, The Vampire
  • Féval, Paul (1860) Le Chevalier Ténèbre
  • Féval, Paul (1865) La Ville Vampire
  • De Maupassant, Guy (1886) The Horla (conto)
  • Le Fanu, J. Sheridan (1872) Carmila
  • Wachenhusen, Hans (1878) Der Vampyr – Novelle aus Bulgarien
  • Nizet, Marie (1879) Le Capitaine Vampire
  • Braddon, Mary Elizabeth (1896) Good Lady Ducayne (conto)

Televisão (selecção)

  • Dark Shadows (ABC, Dan Curtis, 1966-1971)
  • True Blood (HBO, Alan Ball, 2008-2014)
  • Being Human (BBC Three, Toby Whithouse, 2008-2013)
  • The Vampire Diaries (The CW, Kevin Williamson, Julie Plec, 2009-2017)
  • The Strain (FX, Guillermo del Toro, Chuck Hogan, 2014-2017)

Cinema

  • Contam-se mais de duas centenas de filmes sobre vampiros.