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Les Anges Exterminateurs François (Frédéric van den Driessche) é um realizador parisiense que tem um novo e controverso projecto: filmar a verdade sobre o prazer sexual feminino no seu verdadeiro acto. Para tal precisa de encontrar actrizes o suficientemente desinibidas para tentarem atingir o orgasmo perante as câmaras. Depois de uma série de entrevistas falhadas, François vai encontrar três mulheres interessadas no projecto: Charlotte (Maroussia Dubreuil), Julie (Lise Bellynck), e Stéphanie (Marie Allan), capazes de se deixarem filmar a tocar-se ou em actos sexuais umas com as outras. Só que as dinâmicas e sentimentos entretanto gerados vão trazer mal-entendidos e a ruína do projecto.

Análise:

Se Jean-Claude Brisseau era já um realizador conhecido pelos tabus que tencionava quebrar e o olhar voyeurístico para a nudez e o sexo que se tornam tema de vários dos seus filmes, em “Os Anjos Exterminadores” o realizador francês vai ainda mais além, num filme que está entre o estudo psicológico e a pornografia, onde o tema do prazer sexual feminino e as cenas explícitas de masturbação e de sexo entre mulheres fizeram dele um filme controverso.

Sob o olhar de dois anjos de intenções elusivas (Raphaële Godin e Margaret Zenou), François (Frédéric van den Driessche) é um realizador que tem uma ideia radical para um projecto de cinema. No seu próximo filme ele quer descobrir os meandos do prazer sexual feminino, indo ao âmago do que traz prazer à mulher e ao modo como isso pode ser filmado. Para tal, e apesar de saber que está a navegar águas tumultuosas, como lho recorda amiúde a esposa (Sophie Bonnet), François começa a entrevistar actrizes às quais propõe screen tests nos quais elas se devem despir e tocar, procurando atingir o orgasmo em frente da câmara e do olhar do realizador. Após um conjunto de entrevistas falhadas, François conhece duas mulheres, Charlotte (Maroussia Dubreuil), e Julie (Lise Bellynck), as quais não só se dão sem pudor à câmara de François, como se envolvem numa relação física uma com a outra. A estas, junta-se depois Stéphanie (Marie Allan), que se vai apaixonar por Charlotte. Seja pela fraqueza psicológica de Charlotte, que vê em François uma figura paternal, seja para constante frieza do realizador, que se mantém sempre à margem da relação carnal das actrizes, seja pela paixão de Stéphanie que se torna protectora da amada que não lhe reciproca, os problemas instalam-se. Quando François tenta finalmente fazer o filme, o grupo já se está a separar, e das tensões e incompreensões daí resultantes, resultam acusações públicas que vêm trazer processos que arruínam a carreira e o casamento de François.

Curiosamente acusado e condenado em 2002 de coerção sobre actrizes para que desempenhassem actos sexuais perante a câmara, Jean-Claude Brisseau tem, quatro anos depois, como protagonista deste seu “Os Anjos Exterminadores”, uma espécie de em>alter ego cujo objectivo é captar em filme a realidade do prazer sexual feminino. Para tal, e porque precisa de estar certo de ter as actrizes certas, sem inibições para se explorarem sexualmente perante as câmaras, este realizador – François – conduz uma série de screen tests que consistem em fechar-se com uma, duas ou três dessas mulheres num quarto de hotel, onde as conduz por desafios cada vez mais arrojados, e nos quais ele nunca participa, senão como observador. Essas cenas, o seu preparar e evoluir, constituem o cerne do filme, que, se para uns é uma espécie de pornografia com invólucro de filme artístico, é também uma construção sobre os limites e consequências psicológicas sobre um grupo fechado de pessoas, de objectivos e expectativas diferentes na forma de lidar com uma situação a todos os níveis revolucionária.

É, de facto, essa a premissa de onde partem as mulheres envolvidas, que – repetindo uma certa temática de Brisseau – confessam querer testar-se e descobrir-se, expondo-se a situações que fazem mais parte de inconfessadas fantasias sexuais, que do mundo real e rotineiro onde sempre viveram. Talvez todas mostrem estar no projecto por razões diferentes e todas acabam por sair dele marcadas diferentemente, mas uma coisa é clara: ninguém – realizador incluído – consegue prever as consequências que as inesperadas dinâmicas do grupo trazem sobre cada um.

Com as cenas de sexo a constituírem uma parte importante do filme, este é criticado por se tornar, a dada altura, apenas um satisfazer de fantasias pessoais (de Brisseau, do seu público?), perdendo-se no objectivo de criar um erotismo latente e uma tensão apenas implícita. Afinal, como fizera, por exemplo em “Coisas Secretas” (Choses secrètes, 2002), sob o pretexto de estar a filmar a desinibição feminina e a libertação sexual das mulheres que não se coíbem de usar o sexo sem pudor, não está Brisseau apenas a dar forma às mais banais fantasias sexuais masculinas? Essa discussão acaba por ser o centro da discussão de parte da sua obra, de que “Os Anjos Exterminadores” é pedra central.

Com um título que remete para Buñuel, o filme de Brisseau, fotografado com cuidado e bom gosto, é certo, para além da tentativa de racionalização em torno da sexualidade, traz ainda uma aura de misticismo, como é evidente na presença dos anjos nominais (mulheres também), que vão comentando o que vêem, e não deixam de interferir, uma delas confessando-se enamorada do realizador, e interessada em aprender com ele.

E, se no final, tudo corre mal a François (espelhando os infortúnios de Brisseau), e nem por isso melhor às suas actrizes, o filme funciona ainda como uma espécie de exorcismo de Brisseau sobre a sua história recente, ou talvez como uma teimosia de um realizador que dizia ao mundo que, julgassem-no como quisessem, que mesmo que condicionado (ou motivado) por forças místicas, não o demoviam de filmar o que queria.

Frédéric van den Driessche e Maroussia Dubreuil em "Os Anjos Exterminadores" (Les anges exterminateurs, 2006), de Jean-Claude Brisseau

Produção:

Título original: Les anges exterminateurs [Título inglês: The Exterminating Angels]; Produção: La Sorcière Rouge / TS Productions / Centre National de la Cinématographie (CNC) / CinéCinéma / Soficinéma 2; País: França; Ano: 2006; Duração: 99 minutos; Distribuição: Rézo Films (França), IFC First Take (EUA), Axiom Films (Reino Unido); Estreia: 26 de Maio de 2006 (Festival de Cannes, França), 13 de Setembro de 2006 (França, Bélgica), 15 de Março de 2007 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jean-Claude Brisseau; Produção: Miléna Poylo, Gilles Sacuto; Produtora Associada: Lise Bellynck; Argumento: Jean-Claude Brisseau; Música: Jean Musy; Fotografia: Wilfrid Sempé [filmado em Panavision]; Montagem: María Luisa García; Design de Produção: María Luisa García; Figurinos: María Luisa García; Caracterização: Stéphanie Selva; Direcção de Produção: Christophe Desenclos.

Elenco:

Frédéric van den Driessche (François), Maroussia Dubreuil (Charlotte), Lise Bellynck (Julie), Marie Allan (Stéphanie), Raphaële Godin (Aparição 1 / Rebecca), Margaret Zenou (Aparição 2), Sophie Bonnet (Mulher de François), Jeanne Cellard (Avó de François), Virginie Legeay (Virginie), Estelle Galarme (Olivia), Marine Danaux (Agnès), Apolline Louis (Céline), François Négret (Amigo de Stéphane), Christophe Maillard (O Produtor), Françoise Bonnet (Vizinha), Olivier Perrot (Polícia).