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Choses Secrètes Nathalie (Coralie Revel) e Sandrine (Sabrina Seyvecou) são duas mulheres que trabalham num clube nocturno, e acabam despedidas na mesma noite. Nathalie, uma stripper vê uma arma no fascínio sexual que causa nos espectadores. Já Sandrine, uma jovem empregada do bar, pouco à vontade com o seu corpo, vê em Nathalie uma professora. As duas decidem usar o seu poder sexual sobre os homens para escalar na empresa para onde vão trabalhar, cientes de que não podem quebrar a regra fundamental: não desenvolver sentimentos pelos seus alvos.

Análise:

Conhecido pelas suas histórias transgressoras, Jean-Claude Brisseau, um realizador muitas vezes associado ao chamado «Novo Cinema Extremista Francês» (uma corrente marcada pelo uso de momentos chocantes seja emocional ou graficamente), atingia um sucesso algo inesperado – elogiado como filme do ano pelo Cahiers du Cinema, e valendo-lhe o prémio de melhor realizador em Cannes – com um filme onde, claramente, o autor faz uma síntese das suas idiossincrasias, mas abrindo novos caminhos, numa história onde sexo (por vezes explícito) é visto como catalisador de relações sociais.

“Coisas Secretas” conta-nos a história de duas mulheres de Paris que se conhecem quando passam por um mau momento. Elas são Nathalie (Coralie Revel), uma stripper segura do poder que sente ter quando se exibe, mas descontente com aquilo que atingiu, e Sandrine (Sabrina Seyvecou), uma jovem empregada do bar do mesmo clube, tímida e inexperiente, e algo fascinada com o poder sexual de Nathalie. Ambas despedidas na mesma noite, Nathalie e Sandrine fazem um pacto, irão usar o seu poder sexual para conquistar sem piedade os homens que as ajudarão a subir socialmente. Para isso empregam-se numa empresa, enquanto Sandrine vai sendo ensinada em como deve agir para atingir o desejo dos seus superiores, primeiro o seu encarregado (Olivier Soler), e depois de conseguir uma promoção, o próprio co-fundador da empresa, o até aí irrepreensível Monsieur Delacroix (Roger Mirmont). Sempre, sob instrução de Nathalie, Sandrine vai manipulando Delacroix, começando a ignorá-lo, para o forçar a contratar Nathalie, a qual chama para uma relação a três. Quando tal é descoberto pelo presidente e herdeiro da empresa, o conhecido predador sexual Christophe (Fabrice Deville), conhecido por usar mulheres que depois deixa, tendo já levado algumas ao suicídio, as amigas decidem subir a parada. Só que este também está disposto a jogar com elas, com Sandrine a descobrir, que Nathalie está há algum tempo enamorada dele, algo que ia contra as regras que ambas juraram cumprir. Precisando de casar para receber a herança do seu pai moribundo, Christophe decide casar com Sandrine, humilhando Nathalie, ao mesmo tempo que mostra viver uma relação incestuosa com a irmã Charlotte (Blandine Bury). Decorrido o casamento, Christophe organiza uma orgia em sua casa, isolando Sandrine longe de si e expulsando-a de casa, já que o pai morreu nessa noite. Nesse momento Nathalie regressa ameaçando suicidar-se, mas perante o desprezo de Christophe, mata-o. Como resultado Nathalie é presa, e Sandrine herda a fortuna. Anos mais tarde, as duas encontram-se casualmente, Nathalie entretanto casada com o seu antigo guarda prisional. As duas cumprimentam-se com emoção, e separam-se como amigas.

Logo na sequência inicial, Brisseau diz-nos ao que vem, na imagem de uma mulher nua que se toca num leito carregado de vermelho, num cenário onde tudo à volta é negro, e onde apenas se distingue, num canto, a figura mascarada da morte, que carrega um falcão (figura essa que veremos em vários momentos do filme, como que marcando pontos de viragem, ou as tais subidas de parada na acção das duas protagonistas). Desse plano inicial passamos a uma dança nua, onde Nathalie avança lenta e seguramente, para nos revelar que está a ser vista num clube, por pessoas que estão quase em transe, observando-a das suas mesas, como nós a vemos do lado de fora do ecrã. Desde então, Brisseau diz-nos que essa atracção pelo sexo – o poder alienante do nosso desejo sexual – que marcará o filme, a acção da protagonistas, e o nosso interesse pela obra.

Tal é explicitado nos diálogos iniciais entre Nathalie e Sandrine. A segunda explicando que nunca conseguiu ter o à vontade da primeira, mas invejando-a por a sentir sensual e livre, e a primeira vendo-a como matéria pura da qual conseguirá moldar alguém como ela, que a compreenda e acompanhe. Sexo, sensualidade, poder de sedução são então definidos como armas femininas, prontas a ser usadas, desde que se saibam observar certas regras: nunca deixar que as emoções dominem, nunca ter sentimentos pelos seus alvos.

O que se gera então é um thriller marcadamente sexual, onde são muitas as situações de sexo quase explícito – a masturbação, as investidas de Nathalie sobre o patrão, a cena lésbica entre Nathalie e Sandrine, várias cenas a três (com Delacroix no escritório, com Christophe na casa de banho do restaurante e no jantar em sua casa), o lado masoquista de Christophe, a orgia final. E se, sabendo-se hoje dos problemas de Brisseau com situações de assédio sexual, é sempre possível olhar para “Coisas Secretas” como um explanar de fantasias do seu autor (mas que obra não o é, seja qual o género?), a verdade é que, através desta exposição, dolorosa (doentia?) e abertamente gráfica, Brisseau mostra mais que corpos nus e desejos sexuais.

Não é difícil ver no filme uma sátira à sociedade contemporânea, plena de desafectação de sentimentos e efémeras buscas materalistas, onde tudo é cinismo e interesse – nesse sentido Christophe é o arquétipo do homem que já não sente, por isso vive obcecado com criar momentos artificiais, os quais nada significam e através dos quais mostra uma sociopatia que o coloca à margem do outro –, e onde o sexo é apenas mais uma moeda de troca. A planeada (e conseguida) subida na empresa – e subida social –, é uma evidência das tais coisas secretas que movem os cordelinhos, tal como as lições de Nathalie sobre manipulação são um atestado de infantilidade emocional passado a todos aqueles capazes de cair nos jogos ali descritos (isto é a todos os homens). Se quisermos, “Coisas Secretas” – narrado em off por uma Sandrine que contempla a história à distância – é como que um distorcido conto de fadas moralizante, cheio de ambiguidades, onde uma exploração da imagem feminina se liga a um poder de emancipação, e onde a tragédia da imbecilidade masculina acaba imitada pelas mulheres que caiem nas armadilhas que elas próprias teceram.

Obviamente, “Coisas Secretas” é um filme de excessos, seja o visual nas cenas de sexo, seja o dos comportamentos, de um Christophe que age como autómato sem sentimentos, a uma Nathalie que, rompendo com a sua própria regra se deixa apaixonar por quem sabe ser um predador sem escrúpulos ao ponto de considerar o suicídio. Por isso, o filme pode ser acusado de ser pouco subtil em vários momentos, apresentando personagens e situações pouco credíveis, mas não deixa de enredar, e fazer pensar muito para além da atracção gráfica que tem e que muito deu que falar.

Imagem do filme "Coisas Secretas" (Choses secrètes, 2002), de Jean-Claude Brisseau

Produção:

Título original: Choses secrètes [Título Inglês: Secret Things]; Produção: Centre National de la Cinématographie (CNC) / La Sorcière Rouge / Les Aventuriers de l’Image; Produtor Executivo: Jean-François Geneix; País: França; Ano: 2002; Duração: 112 minutos; Distribuição: Tartan Films (França), First Run Features (EUA); Estreia: 16 de Outubro de 2002 (França), 15 de Janeiro de 2004 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jean-Claude Brisseau; Produção: Jean-Claude Brisseau, Jean-François Geneix; Argumento: Jean-Claude Brisseau; Música: Johann Sebastian Bach, Antonio Vivaldi, Georg Friedrich Händel, Henry Purcell; Orquestração: ; Fotografia: Wilfrid Sempé; Montagem: María Luisa García; Design de Produção: María Luisa García; Figurinos: María Luisa García, Monique Proville; Caracterização: José Romero; Efeitos Especiais: Patrick Gentils; Efeitos Visuais: ; Direcção de Produção: Olivier Caillard.

Elenco:

Coralie Revel (Nathalie), Sabrina Seyvecou (Sandrine), Roger Miremont (Delacroix), Fabrice Deville (Christophe), Blandine Bury (Charlotte), Olivier Soler (Cadene), Viviane Théophildès (Mme. Mercier), Dorothée Picard (Mãe de Delacroix), Pierre Gabaston (Cliente no Bar), María Luisa García [como Lisa Hérédia] (Mãe de Sandrine), Arnaud Goujon (Assistente Pessoal), Liès Kidji (Jovem Ladrão), Patricia Candido Trinca (Empregada do Escritório), Lydia Chopart (Empregada do Escritório), Michaël Couvreur (Empregado do Escritório), Boris Le Roy (Empregado do Escritório), Aude Breusse (Empregada do Escritório), Aurélien Geneix (Homem na Festa), Alain Couesnon (Bouncer na Festa), Bruno SX (Bouncer na Festa).