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Les Savates du Bon Dieu Fred é um jovem impulsivo, e irresponsável, mecânico e pretendente a piloto de competição, casado com a bela Elodie (Coralie Revel), e pai de uma filha bebé. Ao dar todo o dinheiro a uma amiga, ser despedido, e reagir às críticas de Elodie violentamente, vai fazer com que esta o abandone. Numa busca infrutífera para a reencontrar, Fred vai assaltar um posto de correios, fugindo com a empregada local, e sua amiga Sandrine (Raphaële Godin). Procurados pela polícia, o par vai ser ajudado pelo estranho Maguette (Emile Abossolo M’bo) que diz ser um príncipe africano, e os conduz entre filosofia e misticismo por uma vida de crime e fuga.

Análise:

Filmando já desde os anos 70 do século XX, e tendo granjeado alguma fama nos anos 90, nomeadamente com o Urso de Ouro do Festival de Berlim para “Céline” (1992), Jean-Claude Brisseau estreava-se no novo século com um mais um filme em que, fiel a si próprio, explorava os limites do razoável, fazendo dele – como em tanto da sua biografia – uma espécie de ensaio de possibilidades e comportamentos de risco, nunca descurando uma pitada de alegoria ou fantástico.

Tal receita surge-nos em “Les Savates du bon Dieu” (que tem sido traduzido como “Os Ajudantes do Bom Deus”), no qual nos conta a história de Fred (Stanislas Merhar), um jovem que vemos desde o primeiro momento não dever muito à sensatez. Irascível, de comportamentos impensados e dado à violência, começamos por vê-lo provocar o desagrado da namorada e mãe da sua filha, Elodie (Coralie Revel), ao dar os seus depósitos a uma amiga. Quando a reacção dele às críticas é violenta, esta decide deixá-lo. Descobrindo isso já depois de ter sido despedido do emprego de mecânico, a resposta de Fred é procurar culpados no prédio, chegando a vias de facto com vizinhos, até ser aplacado pela avó (Paulette Dubost). A procura da amiga Sandrine (Raphaële Godin), que trabalha num posto de correios, leva-o a assaltá-lo, fugindo com Sandrine, visivelmente apaixonada por ele. Ao passarem a noite escondidos numa escola, conhecem o africano Maguette (Emile Abossolo M’bo), que se diz um rico príncipe. Disfarçado de inspector escolar, Maguette ajuda o casal a fugir às autoridades no dia seguinte, e segue com eles numa vida de roubos e fugas, que inclui alguns assassinatos entre os delinquentes no bairro de Fred, e uma fuga miraculosa à polícia quando estavam cercados. O pior surge quando, sempre em busca de Elodie, Fred a reencontra, já com outro homem – por sinal um milionário que deve a fortuna a fraudes financeiras. Na perseguição, Fred acaba ferido, e é preso, com Sandrine. O par cumpre cinco anos na cadeia ao fim dos quais é libertado, graças aos esforços dos advogados, entre os quais está, mais uma vez, o misterioso Maguette. O período serviu a Fred para crescer e perceber que é Sandrine que ele ama. Libertados, Fred assenta, vivendo com Sandrine e a avó, numa casa luxuosa, que ele pensa ser fruto do seu trabalho, mas é na verdade uma oferta de Maguette, que era mesmo um milionário príncipe africano.

Numa temática que já nos deu muitos clássicos na história do cinema – de “Filhos da Noite” (They Live by Night, 1948), de Nicholas Ray a “Bonnie e Clyde” (Bonnie and Clyde, 1967) de Arthur Penn, e de “Os Noivos Sangrentos” (Badlands, 1973), de Terrence Malick, ou, no cinema francês “O Acossado” (À bout de souffle, 1960) e “Pedro, o Louco” (Pierrot Le Fou, 1965), ambos de Jean Luc Godard, para citarmos apenas alguns títulos –, isto é, o tema do par condenado que, contra tudo e contra todos, vai vivendo numa fuga para a frente, à margem da sociedade, e em risco das próprias vidas, “Les Savates du bon Dieu” conta-nos a história de Fred e das suas decisões de risco, com o objectivo tão obsessivo quanto condenado à partida, de reconquistar Elodie. Filmado com ecos da Nouvelle Vague, onde há uma nítida simpatia pelos falhados, onde os episódios surgem desligados e as ligações não procuram a lógica narrativa, “Les Savates du bon Dieu” não renega um certo carácter fantástico – qual é de facto o papel de Maguette que vê em Fred e Sandrine ajudantes de Deus a fazer a sua obra? –, como é exemplo a cena em que o trio escapa do cerco policial porque começam a chover electrodomésticos das varandas.

Todo o tom leve, quase infantil, como as situações se sucedem, traz um certo surrealismo, que pode também ser visto como espelho do modo como Fred (não) pensa a sua vida e futuro. Afinal, como se diz várias vezes, Fred é uma criança que ainda não cresceu, ganhou responsabilidade ou aceitou compreender o mundo que o rodeia. Por isso não se coíbe de roubar, mesmo que para dar tudo a quem mais precisa, e por isso acredita que Elodie vai querer voltar para ele. Tal não impede, em Brisseau, algumas farpas à sociedade, seja no modo como satiriza o ensino (Brisseau foi professor) – na cómica cena em que Maguette se faz passar por inspector escolar, para incitar os estudantes a rebelar-se – ou no mostrar como jovens delinquentes como Fred e Sandrine vão sempre pagar mais que os ladrões de colarinho branco que roubam mil vezes mais que eles, isto já para não falar na sátira aos tribunais na sequência final.

Aparentemente despretensioso, marcado por uma grande beleza de exteriores filmados em cenários naturais, o filme de Brisseau aceita todos os exageros como recursos estilísticos, e entrega-se de corpo e alma a uma atmosfera romântica inocente, onde os infortúnios são vistos com um sorriso. De fora não fica o habitual olhar de Brisseau sobre a nudez feminina, aqui nos planos que – como cartazes publicitários – nos vão mostrando Elodie na cama, sempre que Fred pensa nela, para numa última cena o seu corpo surgir trocado pelo de Sandrine. Mas mais que tudo, “Les Savates du bon Dieu” é mais uma forma de Brisseau nos dizer que o cinema é algo que se serve da realidade, mas não se encerra nela.

Raphaële Godin e Stanislas Merhar Em "Les Savates du bon Dieu" (2000), de Jean-Claude Brisseau

Produção:

Título original: Les Savates du bon Dieu [Título inglês: God’s Little Footlings]; Produção: La Sorcière Rouge / Euripide Productions / Arte France Cinéma / Rhône-Alpes Cinéma; < País: França; Ano: 2000; Duração: 106 minutos; Distribuição: Rézo Films (França); Estreia: 8 de Março (França), (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jean-Claude Brisseau; Produção: Corinne Bertelot, Nicole Cavillon; Produtores Delegados: Jean-Claude Brisseau, Frédéric Sichler, Daniel Toscan du Plantier; Argumento: Jean-Claude Brisseau; Música: Jean Musy, Philippe Sarde (tema “Elévation”); Fotografia: Romain Winding, Laurent Fleutot [filmado em Panavision]; Montagem: María Luisa García; Design de Produção: María Luisa García; Cenários: ; Figurinos: María Luisa García; Caracterização: Jose-Luis Martin Romero; Efeitos Especiais: Lionel Mathis; Direcção de Produção: Olivier Sarfati.

Elenco:

Stanislas Merhar (Fred), Raphaële Godin (Sandrine), Emile Abossolo M’bo (Maguette), Coralie Revel (Elodie), Paulette Dubost (A Avó), Philippe Caroit (Jacques), Christian Pernet (Mecânico), Romain R’Bibo (Miguel), Samir Fouzari (Marouf), Abder-Kader Dahou (Kamel), Albert Montias (Mangin), Fabienne Poncet (Gerente nos Correios), Aurélie Sterling (Nina), Hassan Bellah (Irmão Zaoui #1), Anouard El Omari (Irmão Zaoui #2), Rachid Nemmiche (Irmão Zaoui #3), Gérard Baume (Chefe da Polícia), Marie-Thérèse Eychard (Directora do Liceu), Laure Josnin (Conselheira), Noémie Kocher (Professora no Liceu), Snejana Djokic (Estelle), Mélanie Alessi (Amiga de Estelle), Fabrice Deville (Di Frasso), Michèle Ernou (Juiz de Instrução), Pierre André Jay (Advogado), Luc Ponette (Juiz)