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Offret Alexander (Erland Josephson), um homem de meia-idade, antigo actor, agora retirado, vive refugiado no sossego de uma casa campestre longe de tudo, onde trabalha como crítico, jornalista e ensaísta. No dia do seu aniversário, Alexander planta uma árvore com o seu pequeno filho (Tommy Kjellqvist), enquanto disserta sobre a sua vida, e espera o desenrolar do dia que trará os convidados à sua festa, como a esposa, e ex-actriz inglesa, Adelaide (Susan Fleetwood), a filha desta, Marta (Filippa Franzén), o amigo carteiro Otto (Allan Edwall), e o médico Victor (Sven Wollter), mas durante a reunião é anunciada uma guerra que poderá levar ao fim do mundo, e vai fazer Alexander rever a sua relação com o transcendente.

Análise:

Depois de “Nostalgia” (Nostalghia, 1983), e do documentário “Tempo de Viagem” (Tempo di viaggio, 1983), “O Sacrifício” era a terceira produção de Andrei Tarkovsky fora da União Soviética, país com o qual tinha ficado desagradado pelo tratamento dado aos seus filmes. Desta vez, na Suécia, terra natal de um dos seus ídolos – Ingmar Bergman –, e filmando pela segunda vez com Erland Josephson – um dos mais conhecidos actores de Bergman –, Tarkovsky deixa que uma certa atmosfera bergmaniana invada o seu filme, para contar uma história de relação com a sua vida e o modo de se relacionar com o que está para além dela.

Com planos-sequência ainda mais longos que o já habitual no cinema de Tarkovsky (o inicial excede os nove minutos), com enquadramentos que colocam muitas vezes os personagens quase diluídos na paisagem – seja esta a exterior em Gotland, na Suécia, ou os interiores filmados em estúdio –, “O Sacrifício” funciona como uma série de monólogos, onde mesmo os diálogos e momentos de interacção de várias personagens desembocam no lento discorrer pessoal de uma só. Geralmente, esta é o protagonista, Alexander (Erland Josephson), um homem de meia-idade, que abandonou a carreira de actor, para se refugiar no recato da sua casa de campo, onde exerce a profissão de crítico, jornalista e ensaísta em estética e história do teatro. Com ele vive a esposa, a ex-actriz inglesa Adelaide (Susan Fleetwood), a filha desta, Marta (Filippa Franzén), e o filho do casal, o pequeno que nunca é nomeado por mais que “rapaz” (Tommy Kjellqvist), temporariamente sem voz, devido a uma operação recente, e que, com Alexander, planta uma árvore junto ao mar. É com o rapaz que Alexander vagueia, e conversa, no dia do seu aniversário, como o descobre Otto (Allan Edwall), um carteiro diletante, que será também convidado para a festa. Para a festa chega ainda Victor (Sven Wollter), o médico que operou o rapaz, e se oferece para os levar no carro. Mas Alexander prefere ficar a dissertar com o rapaz.

A festa começa, com Maria (Guðrún Gísladóttir), a criada islandesa, a sair, deixando os preparativos a cargo da enfermeira Julia (Sven Wollter). Conversa-se sobre tudo um pouco, das características estranhas de Maria à actividade de Alexander, o qual discute quadros de Leonardo Da Vinci, e a sua inexistente relação com Deus. Mas é Otto o centro da conversa, quando revela coleccionar estranhos fenómenos, que estuda, documenta e arquiva. A atmosfera de paz termina quando é anunciado algo nas notícias, a que os presentes reagem como se o mundo fosse acabar (aparentemente trata-se de uma guerra mundial e uma iminente catástrofe nuclear), gerando um clima tenso de discussões e nervosismo. Em desespero, Alexander fala a Deus, prometendo sacrificar tudo o que tem, incluindo casa e relação com a família, se Deus fizer o perigo desaparecer. Já Otto, incita Alexander a ir dormir com Maria, de quem ele está convencido ser uma bruxa. Alexander vai e, se esta o recebe com surpresa e desconfiança, acaba por o acolher quando ele lhe suplica.

Na manhã seguinte, Alexander acorda em sua casa, e vê que tudo está normal, e a ameaça da guerra desapareceu. Fiel à sua palavra a Deus, Alexander consegue convencer todos a irem passear, e pega fogo à casa. Quando os outros acorrem, é demasiado tarde, e Alexander diz-lhes que foi obra sua, acorrendo a Maria que se aproxima para ver o sucedido. Os seus seguram-no, enquanto chega uma ambulância, e os enfermeiros prendem Alexander e levam-no consigo. O filme termina com o rapaz a regar a árvore recém-plantada, repetindo uma das frases iniciais de Alexander “No princípio era o verbo”.

Sendo “O Sacrifício” o último filme de Tarkovsky, fica sempre a pergunta de quanto do filme é já uma espécie de testamento, num momento em que o autor se encontrava no fim da vida, pois, a sofrer de cancro do pulmão, foi já no hospital que viu a montagem final da obra. Senão vejamos, na pessoa de Alexander, temos um questionamento do valor da conversação e troca de ideias (cada vez mais ocas, como se diz a dada altura – numa pessoa que vivia delas), das decisões de carreira, do papel da família, e da relação com o transcendente. Esta, que vai ocupar o papel mais importante do filme (veja-se o título), ilustra-se na pessoa de um ateu, que desvaloriza a relação com Deus, para, num momento de aflição, tudo lhe dar, no nominal sacrifício.

Assim, num momento de penosa análise, Tarkovsky parece falar-nos do sacrifício como uma relação do homem perante o que o rodeia. No quanto significa o seu discurso, que valor tem a sua mensagem, e como esta se relaciona com a sua acção. Nas acções de Alexander – um homem que duvida do valor de tudo aquilo que sempre teve como sagrado (e que nada de religioso significa) – vemos que essa abertura nasce do despojo completo. É quando se liberta de tudo – casa, possessões, passado, e família – que Alexander se lhes dá. Sacrifica-se por eles, perdendo tudo, para que eles não se percam. É, ao abdicar de tudo que Alexander pode finalmente amar, mesmo que isso signifique que esse amor nunca mais lhe dará nada. No final, despojada uma vida, e perdidos todos os egoísmos, ficam apenas os rituais, como Alexander explica no início, e vemos concretizar quando o rapaz vai regar a árvore por eles plantada, como na história contada na primeira sequência do filme. Mais que o seu significado, é o ritual que conta. «No princípio era o verbo… porquê papá?». E o filme deixa-nos com o plano de uma árvore, fechando o ciclo com o plano de abertura do primeiro filme de Tarkovsky, “A Infância de Ivan” (Ivanovo detstvo/Ива́ново де́тство, 1962).

Segundo o próprio autor, “O Sacrifício”, destacava-se dos filmes anteriores, os quais Tarkovsky descrevia como estruturas impressionistas, enquanto este era uma parábola poética, de episódios perfeitamente ligados, numa narrativa linear, e com um realismo e lógica bastante fáceis de compreender. Claro que este realismo está sempre imbuído de uma componente poética e contemplativa, como é habitual no autor. Assim temos as longas dissertações – geralmente monólogos – em planos-sequência que podem ter muitos minutos, onde a paisagem (exterior ou interior) domina, e os rostos raramente são procurados pela câmara. De ritmo lento, travellings e panorâmicas vagarosos – novamente na câmara de Sven Nykvist, e na paleta dessaturada de Tarkovsky –, é sempre esse escoar do tempo, que denuncia uma auto-análise, numa encruzilhada da vida onde muito é posto em questão pelo protagonista.

“O Sacrifício” deu a Tarkovsky, em Cannes, o seu segundo Grande Prémio – depois de “Solaris” (Solyaris/Солярис, 1972) – e quarto Prémio FIPRESCI, tendo ainda sido a sua terceira nomeação à Palma de Ouro, e o vencedor do Prémio do Juri Ecuménico. O filme venceu ainda dois Prémios Guldbagge na Suécia (Melhor Filme e Melhor Actor) e o BAFTA para Melhor Filme de Língua Estrangeira. Além disso, o último filme de Tarkovsky foi ainda reconhecido pelo Vaticano, que em 1995 o juntou a uma lista de 45 filmes de alto valor religioso, onde se integra também “Andrei Rublev” (Andrey Rublev/Андрей Рублёв, 1966). “O Sacrifício” foi o primeiro filme sueco a ser escolhido para digitalização pelo Swedish Film Institute.

Imagem de "O Sacrifício" (Offret, 1986), de Andrei Tarkovsky

Produção:

Título original: Offret [Título inglês: The Sacrifice]; Produção: Svenska Filminstitutet (SFI) / Argos Films / Film Four International / Josephson & Nykvist HB / Sveriges Television (SVT) / Sandrews Film & Teater AB; País: Suécia / França / Reino Unido; Ano: 1986; Duração: 146 minutos; Distribuição: Sandrew Film & Teater (Suécia), Argos Films (França), Artificial Eye (Reino Unido); Estreia: 9 de Maio de 1986 (Suécia), 9 de Outubro de 1987 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Andrei Tarkovsky; Produção: Anna-Lena Wibom (Svenska Filminstitutet); Argumento: Andrei Tarkovsky; Fotografia: Sven Nykvist [cor por Eastmancolor]; Montagem: Andrei Tarkovsky, Michal Leszczylowski; Design de Produção: Anna Asp; Figurinos: Inger Pehrsson; Caracterização: Kjell Gustavsson; Efeitos Especiais: Lars Höglund, Lars Palmqvist; Direcção de Produção: Katinka Faragó.

Elenco:

Erland Josephson (Alexander), Susan Fleetwood (Adelaide), Allan Edwall (Otto), Guðrún Gísladóttir (Maria), Sven Wollter (Victor), Valérie Mairesse (Julia), Filippa Franzén (Marta), Tommy Kjellqvist (Rapaz), Per Källman (Paramédico), Tommy Nordahl (Paramédico).