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Universos Paralelos

Na segunda-feira teremos o vigésimo terceiro episódio de Universos Paralelos, da autoria do António Araújo (Segundo Take), do José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e do Tomás Agostinho (Imaginauta).

Desta vez vamos dissecar o subgénero slasher a partir de dentro com a série “Scream”, de Wes Craven:
podcast

 

Os meta-gritos de Wes Craven

Wes Craven

John Carpenter deu início de forma involuntária, com “O Regresso do Mal” (Halloween, 1978), ao crescimento do subgénero do terror que viria a ficar conhecido como slasher. As grandes produtoras de Hollywood foram imediatamente atrás dos cifrões do sucesso sem precedentes da brilhante produção de baixos custos e altíssimos rendimentos que viu nascer Michael Myers. “Sexta-Feira 13” (Friday the 13th, Sean S. Cunningham, 1980) foi o primeiro sucedâneo confeccionado para as grandes massas que deu origem a um infindável número de sequelas que viram nascer Jason Vorhees, um de três assassinos em série popularizados(!) nos anos oitenta, transformados em autênticos heróis e ícones da cultura popular. O terceiro vértice deste triângulo de figuras que marcaram o zeitgeist desta década, Freddy Krueger, foi, também ele, uma criação “acidental”: Wes Craven não tinha previsto o sucesso de “O Pesadelo em Elm Street” (A Nightmare in Elm Street, 1984), um filme muito pessoal, transformado em franchise pela New Line Cinema na peugada da popularidade crescente do género. É legítimo dizer-se que o realismo visceral da década de setenta deu lugar a fantasias de estética MTV em que o terror mainstream capitalizou com a exploração de (aparentemente) imortais assassinos psicopatas e pedófilos que assombravam os sonhos e as esperanças dos adolescentes incautos, deleitando-se com o vislumbre dos seus interiores e com o carmesim do sangue que jorrou abundantemente dos seus corpos mutilados.

Apesar de Michael, Jason e Freddy arrastarem as suas carcaças (mais ou menos) putrefactas pela década de noventa adentro, quando Wes Craven finalmente regressou a Elm Street, aproveitou a oportunidade para comentar sobre o estado da indústria cinematográfica, nomeadamente do género que nunca conseguiu sacudir com sucesso, e da sua relação com os mitos que criara. “O Novo Pesadelo de Freddy Krueger” (Wes Craven’s New Nightmare, 1994) foi um brilhante e incompreendido exercício de reflexão metafísica que levantou o espelho não só aos criadores dos filmes de terror (na sequência do sucesso do slasher), como aos fãs que idolatraram estes monstros assustadores, retirando-lhes ameaça e, mais importante que tudo, relevância narrativa. Esta, no entanto, não foi a última palavra de Craven sobre o assunto. Numa tempestade perfeita de intenções, juntou-se em 1996 ao argumentista Kevin Williamson e à recém-criada Dimension Films, uma subsidiária dos irmãos Weinstein para cinema de terror fora da alçada da prestigiada Miramax, para a criação de “Gritos” (Scream). Sob a aparência de um típico filme slasher dos anos oitenta, com elenco jovem alinhado para a carnificina, Williamson ofereceu finalmente um filme de terror auto-consciente, ou seja, um filme de terror num universo onde filmes de terror existem e onde os adolescentes comentavam a sua própria representação no grande-ecrã.

Ao reconhecer o legado da cultura popular em que o próprio se inseria, “Gritos” pôde ter o bolo e comê-lo ao mesmo tempo. Ou seja, pôde comentar sobre os lugares-comuns do género ao mesmo tempo que os usava eficazmente. Na sequência do sucesso inesperado, a mesma equipa voltou imediatamente no ano seguinte para uma sequela. Além de estender as suas reflexões espirituosas à mecânica das sequelas, “Gritos 2” (Scream 2) sublinha a sátira à indústria cinematográfica, às suas muletas narrativas e à forma como se relaciona com – e (des)responsabiliza dos – conteúdos temáticos que produzem para entretenimento. Este capítulo vem também marcar o início de uma nova tendência, fruto das tecnologias emergentes: a disponibilização e instantânea disseminação do guião na internet, obrigando a alterações narrativas em plena produção para despistar os fãs mais ansiosos. Entretanto, com Kevin Williamson ocupado com outros projectos, Ehren Kruger tomou as responsabilidades de escrita para o fecho da trilogia em 2000: “Gritos 3” (Scream 3). Com segurança redobrada e finais alternativos filmados para baralhar os mais curiosos, este é um fechar de ciclo – inaugurado, na verdade, com “O Novo Pesadelo de Freddy Krueger”. O subtexto torna-se agora texto e o alvo são os abusos de poder em Hollywood e a capacidade da máquina dos sonhos para corromper vítimas inocentes. Apesar de menos bem recebido, será este um título visionário?

Nos anos que se seguiram a “Gritos 3”, o sucedâneo “Destino Final” (Final Destination, James Wong, 2000) deu origem a incontáveis sequelas, “Hostel” (Eli Roth, 2005) e “Saw – Enigma Mortal” (Saw, James Wan, 2004) deram o pontapé de saída ao torture porn – e este último deu origem a incontáveis sequelas –, “Actividade Paranormal” (Paranormal Activity, Oren Peli, 2007) roubou a coroa do found footage a “O Projecto Blair Witch” (The Blair Witch Project, Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, 1999) e deu origem a incontáveis sequelas. Além disso, nenhuma das três figuras de proa do slasher entretanto mortas e enterradas no virar do milénio pôde dormir o seu sono eterno descansado: todos eles foram reanimados para realidades mais violentas e anacrónicas em remakes pouco memoráveis: “Halloween” (Rob Zombie, 2007), “Sexta-Feira 13” (Friday the 13th, Marcus Nispel, 2009) e “Pesadelo em Elm Street” (A Nightmare on Elm Street, Samuel Bayer, 2010). Em resposta, Craven e Williamson voltaram a reunir-se para, estragando a redonda trilogia original, voltar a comentar com “Gritos 4” (Scream 4) sobre o seu próprio legado, a evolução do género de terror na década que o antecedeu – com intermináveis sequelas e remakes –, e a relação dos fãs com este tipo de filmes violentos. Tudo isto sem descurar a crescente importância dos telemóveis, da internet e da quimera pela popularidade instantânea online, entretanto temáticas centrais da ignorada série televisiva “Scream: The TV Series”, estreada em 2015 na MTV.

António Araújo, Junho 2019.

 

Fontes primárias

Cinema

  • O Novo Pesadelo de Freddy Krueger (Wes Craven’s New Nightmare, Wes Craven, 1994)
  • Gritos (Scream, Wes Craven, 1996)
  • Gritos 2 (Scream 2, Wes Craven, 1997)
  • Gritos 3 (Scream 3, Wes Craven, 2000)
  • Gritos 4 (Scream 4, Wes Craven, 2011)

Televisão

  • Scream: The TV Series (2015-2016, MTV; 2019- , VH1)

 

Fontes secundárias

Literatura

  • Bronsnan, J. (2000) Scream:Unofficial Guide Trilogy: The Unofficial Guide to the “Scream” Trilogy. London: Boxtree.
  • Robb, B. (2000) Screams and Nightmares: The Films of Wes Craven. New York: Harry N. Abrams.

Documentários