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The Quiet Ones Em 1974, na Universidade de Oxford, o professor Joseph Coupland (Jared Harris) tenta provar que aquilo que outros chamam fantasmas ou possessões demoníacas não passam de manifestações ainda por compreender da mente humana quando sujeita a muito stress. Para tal, com a ajuda dos seus alunos e assistentes Krissi Dalton (Erin Richards) e Harry Abrams (Rory Fleck Byrne), Coupland conduz uma experiência, para a qual é chamado o operador de câmara Brian McNeil (Sam Claflin), o qual vai descobrir que a cobaia é Jane Harper (Olivia Cooke), uma rapariga aprisionada e torturada por Coupland, para que produza as manifestações aparentemente paranormais, pelas quais ela é temida.

Análise:

Depois do relativo sucesso de “A Mulher de Negro” (The Woman in Black, 2012), de James Watkins, a Hammer apostava no regresso a um terror mais clássico, novamente filmado no Reino Unido, abordando o muito explorado mundo das possessões sobrenaturais, numa realização de John Pogue, a partir de uma guião de que foi co-autor.

Na Universidade de Oxford, depois de assistir a uma aula do Professor Joseph Coupland (Jared Harris), na qual este mostra o estranho caso de David Q como exemplo de algo confundido com o paranormal, mas que ele crê ser manifestação de lados desconhecidos da mente humana, Brian McNeil (Sam Claflin) é chamado pelo professor para se juntar ao seu grupo científico – composto ainda de Krissi Dalton (Erin Richards) e Harry Abrams (Rory Fleck Byrne) com a missão de documentar as experiências em vídeo. Estas consistem, perceberá então Brian para seu desconforto, no provocar de stress na paciente Jane Harper (Olivia Cooke), a qual está encarcerada, e sujeita a tortura de privação de sono. Primeiro pensando que Coupland enlouqueceu e Jane é uma vítima, Brian começa a não ter tantas certezas quando estranhas manifestações começam a ocorrer fazendo crer estar-se na presença de um poltergeist, que Jane chama Evey e que aribui a uma boneca de pano que adopta como sua. Com as dissensões a ocorrerem no grupo, o medo vai-se instalando, com Jane cada vez a mostrar um comportamento mais violento, no qual consegue mover objectos à distância, fazer aparecer fogo e símbolos marcados na carne do seu corpo. Tudo é negado por Coupland, que continua a crer que nada mais está em jogo que poderes da mente humana, exacerbados quando em stress, só Brian investiga a história de Evey até descobrir uma criança desse nome, que viveu num culto satânico do qual foi a única sobrevivente quando todos morreram queimados. Com a subida da violência, torna-se claro que Jane é Evey, enquanto Harry e Krissy são mortos por uma força invisível, e Coupland tenta provocar a quase-morte de Jane como processo de cura. Posto fora de acção por Brian, que quer salvar Jane, Coupland fica preso com ela num quarto que Jane/Evey incendeia espontaneamente. Brian, o único sobrevivente, é encarcerado posteriormente por, alegadamente, ter enlouquecido, e ser considerado o autor das mortes dos outros quatro.

Com a proliferação de filmes sobre possessões demoníacas e manifestações sobrenaturais que vem dominando o cinema de terror nas primeiras décadas do século XX, a Hammer Films tentou também a sua entrada neste sub-género, com um pequena nuance: o facto de que aquele que lidera a investigação não acreditar no mal sobrenatural, e procurar apenas provar que a psique humana, quando sujeita a tensões fora do vulgar consegue manifestar-se de modo tão incompreensível quanto extraordinário.

É esse o papel do professor Joseph Coupland, que começa por experimentar com as suas ideias em laboratórios da sua faculdade, sendo posteriormente “desterrado” para fora do campus, dada a natureza pouco convencional dos seus estudos. No centro está a sua cobaia, a jovem Jane, protagonizada por uma Olivia Cooke que parece dar sempre uma no cravo outra na ferradura. Isto é, tanto a vemos como vítima da cegueira científica de Coupland e assistentes (que a aprisionam, mantêm em condições sub-humanas e a torturam), como, logo de seguida, quando quase simpatizávamos com ela, a vemos ter traços psicóticos, e de nítida manipulação e sadismo.

Os nossos olhos, são os olhos (e a câmara) de Brian McNeil, a mais nova adição ao projecto, encarregue de tudo documentar em vídeo. É o que ele vê (e filma – aqui e ali com momentos que lembram o estilo found footage), que nós descobrimos do que se trata a experiência – vagamente inspirada nas chamada “Philip Experiment”, realizada em Toronto, em 1972 (a própria história se passa em 1974, dando um aspecto vintage aos acontecimentos, para reforçar uma componente gótica) – e que vamos formando opinião sobre quem é Jane, e o que se passa com ela. Chegando sem preconceitos, nem um particular interesse nos resultados – ao contrário do manipulador e praticamente dogmático Coupland – Brian é o humanitário do grupo, que facilmente recebe a nossa simpatia, e com cujas acções nos solidarizamos.

Por entre estas abordagens diferentes, evolui o caso de Jane, ora pedindo auxílio, ora aceitando o seu destino de “maldade”, ora dada a episódios de difícil explicação, os quais, por entre um evoluir de tensão que é o evoluir da situação da rapariga, vão subindo a fasquia do que está em jogo, fazendo-nos cada vez mais acreditar de algo sobrenatural se passa, tantas são as vezes em que as explicações racionais de Coupland falham.

Pelo meio temos uma série de sub-enredos que mostram, por exemplo, a assistente Krissi, tanto como amante de Coupland, como do colega Rory, e sugestões de que talvez Coupland use a componente sexual para estimular Jane. Mais relevante ainda é o passado de satanismo associado ao nome Evey que se relaciona de modo misterioso a Jane, e ainda a revelação de que David Q, o caso mostrado em imagens de arquivo como algo que despoletou estes estudos, era nem mais que o filho de Coupland. Tudo isto vem trazer mistério, a confusão de tensões eróticas, e o factor da culpa que lança Coupland numa senda de quase vingança pessoal, que ajuda a explicar o motivo porque se torna tão pouco razoável na busca da “sua” verdade.

Nervoso, tenso, agitado, claustrofóbico, “The Quiet Ones – Experiência Sobrenatural” sabe usar os vários elementos em jogo, partindo de interpretações sólidas – Jared Harris, Olivia Cooke e Sam Claflin – para contar uma história inquietante, e que não escamoteia a pergunta mais importante que é: quanto daquilo a que chamamos psicoses ou manifestações inexplicáveis não é baseado em tensões externas.

Olivia Cooke em "The Quiet Ones - Experiência Sobrenatural" (The Quiet Ones, 2014), de John Pogue

Produção:

Título original: The Quiet Ones; Produção: Hammer Films / Exclusive Media Group / Traveling Picture Show Company (TPSC) / Midfield Films; Produtores Executivos: Nigel Sinclair, Guy East , Marc Schipper, Jillian Longnecker, Alexander Yves Brunner, Kevin Matusow, Kate Bacon, Carissa Buffel; País: Reino Unido; Ano: 2014; Duração: 98 minutos; Distribuição: Lionsgate; Estreia: 1 de April de 2014 (EUA), 5 de Junho de 2014 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: John Pogue; Produção: James Gay-Rees, Simon Oakes, Tobin Armbrust, Steven Chester Prince, Ben Holden; Produtores Associados: Geno Tazioli, Bill Wohlken; Produtora em Linha: Tina Pawlik; Argumento: Craig Rosenberg, Oren Moverman, John Pogue [a partir de um argumento original de Tom de Ville]; Música: Lucas Vidal; Fotografia: Mátyás Erdély; Montagem: Glenn Garland; Design de Produção: Matt Gant; Direcção Artística: Caroline Barclay; Cenários: Anita Gupta; Figurinos: Camille Benda; Caracterização: Paul Boyce; Efeitos Especiais: Scott MacIntyre; Efeitos Visuais: Gavin J. Whelan; Direcção de Produção: Livia Rao.

Elenco:

Jared Harris (Professor Joseph Coupland), Sam Claflin (Brian McNeil), Erin Richards (Krissi Dalton), Rory Fleck Byrne (Harry Abrams), Olivia Cooke (Jane Harper), Laurie Calvert (Phillip), Aldo Maland (David Q), Max Pirkis (David Q Mais Velho), Tracy Ray (Mãe de David Q), Richard Cunningham (Provost), Eileen Nicholas (Vizinho Zangado), Rebecca Scott (Estudante), Aretha Ayeh (Estudante), Max Macintosh (Estudante), Harman Singh (Estudante), Ben Holden (Voz do Médico), Caoimhe Judd (Evey).