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Zerkalo Sem uma linha narrativa clara, contado de modo não cronológico, e misturando épocas, memórias, sonhos, leitura de poemas e imagens de arquivo de serviços noticiosos, “O Espelho” é uma viagem pelas memórias e sentimentos de Alexei, o qual vemos em criança antes da guerra (Filipp Yankovskiy), durante a guerra (Ignat Daniltsev), e como adulto. Sempre acompanhado da figura forte da sua mãe Maroussia (Margarita Terekhova), Alexei recorda os tempos idílicos no campo, o emprego da mãe, a ausência do pai, a instrução militar, vendo-se adulto a separar-se da esposa Natalya (também Margarita Terekhova), e a lutar pela custódia do filho Ignat (também Ignat Daniltsev).

Análise:

Três anos depois de ver a estreia do seu filme anterior “Solaris” (Solyaris/Солярис), o filme que fez dele uma referência internacional, Andrei Tarkovsky, até então já famoso por se afastas de estruturas convencionais, para fazer dos seus filmes retratos de sentimentos, sonhos e poesia, libertava-se de vez da convenção narrativa, dando-nos em “O Espelho” um filme onde esta praticamente não existe. Trabalhado desde 1964 com Aleksandr Misharin, e inspirado no próprio pai de Tarkovsky, o projecto passou por vários guiões, repetidamente rejeitados pela Goskino (Comité Nacional para a Cinematografia da URSS), até finalmente receber luz verde, após 33 montagens, mas apenas para uma distribuição muito reduzida no seu país de origem.

Depois de vermos o jovem Ignat (Ignat Daniltsev), filho de Alexei a ver na televisão um rapaz com problemas de fala, curado através de hipnose, saltamos para a década de 1930, numa cena campestre, onde a mãe do pequeno Alexei (Filipp Yankovskiy), Maroussia (Margarita Terekhova), é abordada por um médico em viagem (Anatoli Solonitsyn), que lhe questiona a ausência de marido, para depois, nessa casa de campo, a família testemunhar um incêndio do celeiro. Na cama, o pequeno Alexei imagina o pai (Oleg Yankovskiy) que lava os cabelos à mãe. Ao acordar, o já adulto Alexei conta o sonho à mãe ao telefone, a qual lhe fala da morte da antiga colega Lisa (Alla Demidova). Tal leva-nos a ver a jovem Maroussia a trabalhar como tipógrafa. De volta aos anos 60, Alexei e Natalya (também Margarita Terekhova) decidem a separação e custódia do filho Ignat. Após uma discussão entre espanhóis sobre tourada, e imagens de notícias da guerra civil espanhola, Ignat folheia um livro de arte, lendo a história de Pushkin à estranha senhora (Tamara Ogorodnikova) que está em sua casa a tomar chá. Toca o telefone, e é Alexei, que em conversa com o filho, lhe conta de como foi instruído militarmente em criança, após o que vemos imagens de guerra. Segue-se o regresso do pai que encontra o pequeno Alexei e a irmã nos campos. Depois de mais uma briga com Natalya, Alexei sonha com a velha casa dos avós, onde se vê feliz em criança, relembrando uma visita a casa de uma vizinha (Tamara Ogorodnikova), e imaginando, como num sonho, a mãe a flutuar. No tempo presente, Alexei está moribundo no leito, com a velha mãe (Larisa Tarkovskaya) ao lado. O filme termina com idílicas imagens de Maroussia grávida, com marido no campo.

Trabalhado durante mais de dez anos, “O Espelho” é, acima de tudo, a afirmação de Tarkovsky de que o seu cinema não tinha de obedecer a uma rígida forma narrativa. Tal como se percebera antes, e agora se mostrava a 100%, o cinema do realizador soviético era um campo para explanar sonhos, fantasias, memórias, sentimentos pessoais, e poesia. Afinal, sendo o cinema uma arte predominantemente onírica e fantasiosa, Tarkovsky mostrava claramente como esta não tinha de ficar prisioneira de artes como a literatura ou o teatro, elevando-se a algo único e exclusivamente seu.

Assim, e depois de um algo perturbante prólogo, no qual um jovem com problemas de fala, é drasticamente curado através de hipnose, ficamos com a ideia de que uma espécie de janela é aberta para soltar aquilo que estava preso, como serão as memórias do protagonista, que vão preencher a totalidade filme, e descobriremos no final moribundo num leito. Estas prendem-se com o personagem de Alexei, passam por vários tempos (período pré-guerra; guerra; anos 60-70 com Alexei adulto, e um epílogo em que vemos Alexei no leito de morte), e vão-se sucedendo sem ordem aparente, como um discorrer fluido de associação livre de memórias e pensamentos.

Tendo partido da ideia de contar as suas memórias da Segunda Guerra Mundial – os três primeiros episódios foram pensados para um filme que se intitularia “Um Dia Branco” –, Tarkovsky decidiu transformar o projecto num conjunto de memórias dispersas. Não espanta, por isso, que essas memórias mais antigas se liguem ao período da guerra, na solidão da sua mãe (Margarita Terekhova), no emprego que assume, e nos assédios de estranhos, ou relações com os vizinhos, nas brincadeiras de infância de Alexei (Filipp Yankovskiy) com a irmã, e na instrução militar em tenra idade. Muito disto surge com narração do Alexei adulto, ou sob citações poéticas, e é intercalado com imagens de arquivo da guerra.

Temos também a fase adulta de Alexei (cuja voz ouvimos, mas nunca vemos), com uma amarga história de separação – ecoando a solidão da sua mãe – onde a esposa Natalya é interpretada também por Margarita Terekhova (com a confissão de Alexei de que quando imagina a mãe jovem lembra-se sempre de Natalya), e com um filho, Ignat (Ignat Daniltsev, o mesmo actor que interpreta Alexei com 12 anos). Completa-se assim um ciclo onde a história de Alexei parece um conjunto de imagens recorrentes, dos campos idílicos da sua infância às casas urbanas, de cheiro a chá e pó de livros.

Depois há toda a envolvente meta-artística. Com o uso da música barroca, como os solenes recitativos da Paixão Segundo São Mateus de Bach; poemas de (e lidos por) Arseniy Tarkovskiy – o pai do realizador; e as composições cénicas a evocar pinturas (mais uma vez o uso do imaginário de Pieter Bruegel). O filme, que passou por diversos títulos (“Confissão”; “Redenção”; “Martirologia”; “Porque Estás Tão Longe? “; “A Corrente Furiosa”; “Um Dia Branco, Branco”) foi mesmo descrito como “uma odisseia espacial ao interior da psique” pelo crítico Antti Alanen. O uso de imagens de arquivo (a preto e branco), que se imiscui nas sequências a cores e em sépia, reforça a ideia de que realidade contemporânea, memória e sonho caminham em paralelo, numa completa associação livre.

Feito de longos e vagarosos planos-sequência, “O Espelho” é uma experiência contemplativa, onde temos uma visão diferente da Rússia rural, não feita de guerra e drama, mas de dores escondidas, e penas discretas, como são a saudade, a incerteza no futuro, o ardor de uma dia a dia sofrido, mas tudo vivido com alguma distância, como o conseguem os olhos de uma criança capazes de encontrar sempre beleza e magia em cada paisagem e momento, mesmo que elas sejam fruto de um olhar longínquo, quando o tempo tudo romantiza.

Destaque ainda para a interpretação de Margarita Terekhova (num papel para o qual terão sido consideradas Alla Demidova e a sueca – diva de Bergman – Bibi Andersson). A sua beleza serena – sem maquilhagem por imposição do realizador – os seus olhares cândidos, mas fortes, a sua temporização e modo nostálgico, são em grande parte o diapasão que marca o ritmo do filme.

Se, hoje, a maioria elogia “O Espelho” pela fuga arriscada à narrativa e às convenções, esse foi também o motivo das principais críticas negativas da altura da sua estreia, alheando público, dividindo críticos, e fazendo com que o Estado soviético achasse que não compensava gastar dinheiro com um autor cuja obra era desprovida de conteúdos que interessassem o público e o regime.

Margarita Terekhova em "O Espelho" (Zerkalo/Зеркало, 1975), de Andrei Tarkovsky

Produção:

Título original: Zerkalo/Зеркало [Título inglês: Mirror]; Produção: Mosfilm; País: URSS; Ano: 1975; Duração: 102 minutos; Estreia: 7 de Março de 1975 (URSS).

Equipa técnica:

Realização: Andrei Tarkovsky; Produção: Erik Waisberg; Argumento: Aleksandr Misharin, Andrei Tarkovsky [a partir]; Poemas: Arseniy Tarkovskiy [não creditado] Música: Eduard Artemev; Música Adicional: Johan Sebastian Bach, Giovanni Battista Pergolesi, Henry Purcell; Fotografia: Georgi Rerberg [cor e preto e branco]; Montagem: Lyudmila Feyginova; Design de Produção: Nikolay Dvigubskiy; Cenários: A. Merkulov; Figurinos: Nelli Fomina; Caracterização: Vera Rudina; Efeitos Especiais: Yuri Potapov.

Elenco:

Margarita Terekhova (Natalya / Maroussia, A Mãe), Ignat Daniltsev (Ignat / Alexei com 12 Anos), Larisa Tarkovskaya (Nadezha – Mãe do Alexei de 12 Anos), Alla Demidova (Lisa), Anatoliy Solonitsyn (Médico Legista), Nikolay Grinko (Director da Tipografia), Tamara Ogorodnikova (Ama / Vizinha / Mulher Estranha à Mesa de Chá), Yuriy Nazarov (Instrutor Militar), Oleg Yankovskiy (O Pai), Filipp Yankovskiy (Aleksei com 5 Anos), Yuri Sventisov (Yuri Zhary), Tamara Reshetnikova, Innokentiy Smoktunovskiy (Voz de Aleksei), Arseniy Tarkovskiy (Poemas na Voz do Pai), E. Del Bosque (Um Espanhol), L. Correcer (Um Espanhol), Ángel Gutiérrez (Um Espanhol), Diego García (Um Espanhol), Teresa Del Bosque (Uma Espanhola), Tatiana Del Bosque (Uma Espanhola), Teresa Rames (Uma Espanhola), Olga Kizilova (Ruiva) [não creditada], Aleksandr Misharin (Médico Barbudo) [não creditado].