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The Woman In Black Arthur Kipps (Daniel Radcliffe) é um solicitador, recentemente viúvo, com um filho pequeno. A sua apatia geral, após a morte da mulher, leva o patrão a fazer-lhe um ultimato: viajar para a remota aldeia de Crythin Gifford para tratar dos papéis da mansão Eel Marsh House, cuja proprietária recentemente faleceu. Só que, ao chegar, Arthur encontra antipatia, e a lenda macabra de que as crianças que vêem uma misteriosa mulher de negro suicidam-se de seguida. Trabalhando, isolado, na fantasmagórica mansão ababdonada, Arthur cedo começa a sentir presenças, duvidando estar sozinho, já que vai vendo uma misteriosa mulher de negro.

Análise:

Quando a Hammer anunciou um filme de época – a acção decorre no início do século XX – como o seu próximo projecto, ninguém deixou de pensar que era finalmente o regresso ao tipo de terror que cunhara a sua imagem décadas antes. A base de trabalho foi o romance gótico de Susan Hill “The Woman in Black”, anteriormente adaptado num telefilme de Herbert Wise, e que agora era renovado pelas mãos da argumentista Jane Goldman e do realizador James Watkins.

O filme conta-nos a história de Arthur Kipps (Daniel Radcliffe), um solicitador ainda a sofrer pela morte recente da esposa (Sophie Stuckey), e a braços com um filho pequeno (Misha Handley, afilhado de Radcliffe). O seu pouco entusiasmo pela vida leva o seu patrão a dar-lhe um ultimato. Arthur tem de ir à remota aldeia de Crythin Gifford examinar os papéis de uma mansão de Eel Marsh House propriedade da recentemente falecida Mrs. Drablow. Recebido com frieza pelos locais, à excepção do rico proprietário Sam Daily (Ciarán Hinds), de quem se torna amigo, Arthur vai começando a sentir presenças na mansão. Em simultâneo, na aldeia começam a morrer crianças, alimentando o mito de que a senhora de negro que assombra a mansão reclama vidas de crianças, sempre que é avistada. Por esse motivo Arthur começa a ser tratado com rancor, enquanto, com a ajuda de Sam (cujo filho também morreu misteriosamente anos antes), decide que o mistério de Eel Marsh House se prende com um acidente antigo, no qual o jovem filho dos proprietários – na verdade adoptado – morreu jazendo para sempre nas lamas circundantes, o que levou à loucura a sua mãe biológica, irmã de Mrs. Drablow. Cabe a Arthur tentar recuperar o corpo do rapaz e levá-lo para a mansão para que a mulher de negro, espírito da sua mãe, há muito enforcada, o possa ver, e para que, ao dar-lhe uma campa, os intentos de vingança dela terminem. Só que, cumprido o objectivo, mesmo a tempo de o seu próprio filho o vir visitar, Arthur volta a ver a assombração na estação de comboios, a qual impele o pequeno a atirar-se à linha. Tentando salvá-lo, Arthur vê-se com o filho noutro plano, no qual reencontra a sua esposa.

A primeira nota a salientar é que “A Mulher de Negro” não desilude quem está a pensar no velho gótico sombrio e romântico do qual a imagem da Hammer se construiu. Agora já desprovido daquela inocência típica dos anos 60, com uma maior pretensão de seriedade na abordagem dos temas (o filme não tem uma pinga de humor), o filme de James Watkins relembra as atmosferas sombrias, as paisagens nevoeirentas, as vilas remotas de população pouco hospitaleira e, claro, a mansão como personagem. Há, como é característica identificadora do gótico, uma sombra de passado a marcar toda a história e personagens (o passado da velha mansão onde ocorreram as tragédias, e o passado do protagonista, ainda a sofrer pela morte da esposa), e há também o peso da localização como espelho de características humanas, com a decrepitude e ruína a espelharem sofrimento, culpa e resignação gerais. Nem sequer falta um cemitério em ruínas, e um isolamento de facto, na subida da maré que transforma ciclicamente o promontório onde está a mansão numa ilha, onde o protagonista fica preso por longos períodos.

E é nessa casa – uma verdadeira protagonista, com estados de espírito e comportamentos próprios – e nessa aldeia – a qual não é nunca uma salvação, mas mais um reforçar de culpas e penas (note-se como Arthur Kipps escolhe passar mais tempo na casa que crê assombrada, que no conforto de casas da aldeia) – que as ameaças se vão revelando. E é com elas que a narrativa vai avançando, na forma de uma tarefa ou mistério que será necessário ultrapassar. Mais uma vez ver-se-á o tradicional conflito entre racionalidade (traduzida pela teimosia de Sam Daily – o tal que até já tem um automóvel: um Rolls Royce Silver Ghost), e a superstição popular. E, bem ao estilo gótico da Hammer, é ao passar de um lado ao outro que Arthur vai poder compreender o que defronta, e assim resolver a situação.

Com todo o ambiente da chegada do personagem de Daniel Radcliffe a fazer-nos sentir que muito de inquietante o (e nos) espera, o filme ganha uma outra dimensão no interior da casa assombrada. James Watkins tem a capacidade de filmar a casa como se estivesse viva, de que nos mostra, com incrível paciência, palmo a palmo, como se até a câmara tivesse medo de a explorar. Desde chãos que rangem a bonecos mecânicos que se activam quando menos se espera, de velas que se apagam a portas que surgem abertas ou fechadas sem explicação (destaque para a riquíssima cenografia e impecável guarda-roupa), a atmosfera adensa-se ao ponto de nos sufocar. Seriam talvez dispensáveis alguns momentos de susto fácil (os irritantes e gratuitos jump scares), mas felizmente a atmosfera do filme vive de muito mais que isso.

Daniel Radcliffe, no seu primeiro filme fora da franchise Harry Potter, tem uma interpretação sóbria, em que quase sem palavras consegue fazer-nos segui-lo lealmente, e desejar com ele o final feliz que ele tentará conseguir. A atenção pelo detalhe é admirável (dentro e fora da casa), e tudo no filme resulta visualmente, com miríades de caixas música e bonecos mecânicos que parecem ganhar vida nos momentos mais arrepiantes, transportando-nos para momentos de feérica bizarria, como visitas de outros tempos.

O sucesso comercial – foi a estreia mais rentável da história da Hammer – mostrou à produtora que era possível voltar aos seus dias de glória, no género pelo qual sempre será lembrada. Também por essa razão, o filme conheceria uma sequela – a primeira da nova Hammer – no filme “The Woman in Black 2: Angel of Death” (2015), de Tom Harper.

Daniel Radcliffe em "A Mulher de Negro" (The Woman in Black, 2012), de James Watkins

Produção:

Título original: The Woman in Black; Produção: Cross Creek Pictures, Hammer Films, Alliance Films, Talisman Productions, Exclusive Media Group, UK Film Council; Produtores Executivos: Guy East, Nigel Sinclair, Tobin Armbrust, Marc Schipper, Neil Dunn, Xavier Marchand, Tyler Thompson, Roy Lee; País: Reino Unido / Canadá / Suécia; Ano: 2012; Duração: 95 minutos; Distribuição: Momentum Pictures (Reino Unido), Alliance (Canadá), CBS Films (EUA); Estreia: 3 de Fevereiro de 2012 (EUA / Canadá), 8 de Março de 2012 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: James Watkins; Produção: Richard Jackson, Simon Oakes, Brian Oliver; Co-Produção: Paul Ritchie, Ben Holden, Todd Thompson; Argumento: Jane Goldman [a partir do romance homónimo de Susan Hill]; Música: Marco Beltrami; Fotografia: Tim Maurice-Jones [fotografia digital, cor por DeLuxe]; Montagem: Jon Harris; Design de Produção: Kave Quinn; Direcção Artística: Paul Ghirardani; Cenários: Niamh Coulter; Figurinos: Keith Madden; Caracterização: Jeremy Woodhead; Efeitos Especiais: Bob Hollow; Efeitos Visuais: Sean Wheelan; Direcção de Produção: Jennifer Wynne.

Elenco:

Daniel Radcliffe (Arthur Kipps), Ciarán Hinds (Sam Daily), Janet McTeer (Mrs. Daily), Liz White (Jennet), Roger Allam (Mr. Bentley), Tim McMullan (Mr. Jerome), Jessica Raine (Ama), Daniel Cerqueira (Keckwick), Shaun Dooley (Fisher), Mary Stockley (Mrs. Fisher), David Burke (PC Collins), Sophie Stuckey (Stella Kipps), Emma Shorey (Filha do Casal Fisher), Molly Harmon (Filha do Casal Fisher), Ellisa Walker-Reid (Filha do Casal Fisher), Misha Handley (Joseph Kipps), Lucy May Barker (Ama), Indira Ainger (Menina no Comboio), Andy Robb (Médico), Alexia Osborne (Victoria Hardy), Alfie Field (Tom Hardy), William Tobin (Charlie Hardy), Victor McGuire (Gerald Hardy), Cathy Sara (Mrs. Jerome), Alisa Khazanova (Mrs. Drablow), Ashley Foster (Nathaniel Drablow), Aoife Doherty (Lucy Jerome), Sidney Johnston (Nicholas Daily).