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Renoir Em 1915, no sul de França, onde vive numa mansão campestre, rodeado de campos idílicos, família e criadagem, pintando numa cadeira de rodas, o pintor Pierre-Auguste Renoir (Michel Bouquet), recebe a visita da jovem Andrée Heuschling (Christa Théret) que diz ter sido chamada pela esposa daquele, entretanto já falecida. Curioso pela alegria e irreverência da jovem modelo, Renoir pinta-a, combatendo a doença, e aguardando notícias dos filhos Pierre (Laurent Poitrenaux) e Jean (Vincent Rottiers), a lutar na Primeira Guerra Mundial.

Análise:

Escrito a partir do romance “Le tableau amoureux” de Jacques Renoir – nem mais que sobrinho-neto do realizador Jean Renoir e bisneto do pintor Pierre-Auguste Renoir – “Renoir”, o filme de Gilles Bourdos, produzido parcialmente com dinheiros estatais, dada a relevância cultural do visado, competiu na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes, e fala-nos dos últimos da vida daquele pintor francês, um dos expoentes do impressionismo, e que viveu entre 1841 e 1919.

A acção de “Renoir” inicia-se em 1915, em plena Primeira Guerra Mundial, quando a jovem Andrée Heuschling (Christa Théret) chega à propriedade de Renoir (Michel Bouquet), alegadamente a pedido da esposa do pintor (já falecida), para posar. Grandemente debilitado fisicamente, entristecido pela recente morte da mulher, e por ter os dois filhos mais velhos, Pierre (Laurent Poitrenaux) e Jean (Vincent Rottiers), a lutar na guerra, Renoir continua a pintar, e vê na chegada de Andrée – uma jovem curiosa, espírito livre e divertida – um incentivo para pintar mais alegremente. Irreverente, Andrée vai questionar e imiscuir-se na vida da família, sendo olhada com desconfiança, quer pelas criadas, quer por Claude (Thomas Doret), o mais jovem dos Renoir. Com a chegada de Jean, em convalescença da guerra, Andrée vai tornar-se motivo de interesse romântico, acendendo nele o desejo de ingressar no cinema, o que provocará alguma tensão entre ele e o pai, numa altura em que a presença da rapariga é já indispensável a todos.

Filmado no sul de França, fazendo forte uso de paisagens naturais, nomeadamente jardins e campos floridos que serviam de motivo à pintura impressionista de Renoir, o filme de Gilles Bourdos começa, desde o título, por nos induzir em erro. Mais propositadamente poderia ser chamado “Andreé”, já que, mais que ser uma biopic do pintor – ou até uma história da família, uma vez que são vários os Renoir em destaque no filme –, ele dedica-se à figura de Andrée Heuschling, última modelo de Auguste Renoir, e que viria a casar com o seu filho Jean Renoir, incentivando a sua carreira no cinema onde seria a sua primeira diva na tela, sob o nome de Catherine Hessling.

É através do olhar de Andrée – logo a partir o momento inicial, quando esta chega a casa dos Renoir – que nos é dada a conhecer a realidade da casa do pintor, a sua rotina de trabalho, a sua debilidade física, o quotidiano doméstico, a educação de Claude (dito Coco), os espaços em que se movimentam, a relação com os filhos ausentes, o regresso destes, e até o papel de uma ex-modelo, que teria provocado problemas entre o pintor e a sua esposa.

Filmado em movimentos leves, deleitando-se nos planos que cria, e brincando com as suas cores, como quem faz um estudo para um quadro impressionista, “Renoir” mostra-nos como o pintor luta contra a doença, se esforça para manter a sua pintura viva (Gilles Bourdos usou os serviços de um falsário condenado, Guy Ribes, para criar no ecrã a pintura de Renoir), e como dialoga com Jean, o arauto do futuro com o seu interesse pela imagem em movimento. Decorrendo lentamente, sem que haja propriamente um enredo – se descontarmos um momento de ciúme de Jean, que leva Andrée a deixar temporariamente a mansão, para desgosto desgosto de toda a família – “Renoir” mostra-se pela composição de enquadramentos retratando na imagem em movimento aquilo que Renoir pintava.

Contemplativo, numa forma que tende a deixar-nos perdidos na imagem, “Renoir”, que foi nomeado para quatro prémios César, vencendo o de Guarda-roupa, evita comentar os momentos ou ser demasiado intrusivo nas atitudes e motivações dos visados, preferindo pintar de longe, aceitando os momentos como eles o são: motivos de pintura.

Christa Théret e Vincent Rottiers em "Renoir" (2012), de Gilles Bourdos

Produção:

Título original: Renoir; Produção:
Fidélité Films / Wild Bunch / Mars Films / France 2 Cinéma / Orange Cinéma Séries / France Télévision / Centre National du Cinéma et de l’Image Animée; Produtora Executiva: Christine De Jekel; País: França; Ano: 2012; Duração: 112 minutos; Distribuição: Mars Distribution (França), Samuel Goldwyn Films (EUA); Estreia: 25 de Maio de 2012 (Festival de Cannes, França), 2 de Julho de 2012 (França).

Equipa técnica:

Realização: Gilles Bourdos; Produção: Olivier Delbosc, Marc Missonnier; Argumento: Jérôme Tonnerre, Gilles Bourdos [a partir de “Le tableau amoureux” de Jacques Renoir]; Música: Alexandre Desplat; Orquestração: Alexandre Desplat, Jean Pascal Beintus, Sylvain Morizer, Nicolas Charron; Fotografia: Ping Bin Lee; Montagem: Yannick Kergoat; Design de Produção: Benoît Barouh; Cenários: Benoît Barouh; Figurinos: Pascaline Chavanne; Caracterização: Michèle Constantinides; Efeitos Especiais de Maquilhagem: Cyril Hipaux; Efeitos Visuais: Christophe Lucotte; Direcção de Produção: Samuel Amar.

Elenco:

Michel Bouquet (Pierre-Auguste Renoir), Christa Théret (Andrée Heuschling), Vincent Rottiers (Jean Renoir), Thomas Doret (Coco Renoir), Romane Bohringer (Gabrielle), Michèle Gleizer (Aline Renoir), Laurent Poitrenaux (Pierre Renoir), Anne-Lise Heimburger (A Padeira), Sylviane Goudal (La Grand’Louise), Solène Rigot (Madeleine), Emmanuelle Lepoutre (A Enfermeira), Carlo Brandt (Doutor Pratt), Thierry Hancisse (O Revendedor ), Alice Barnole Barnole (Rapariga no Cabaré), Jean-Adrien Espiasse (Aviador no Cabaré), Jean-Marc Bellu (Aviador no Cabaré), Antoine Champème (Aviador em Collettes), Cécile Rittweger (Criada em Collettes), Joséphine Chillari (Cozinheira em Collettes), Marion Lecrivain (Véra).