Etiquetas

, , , , , , , , , , ,

Solyaris Anos passados desde que a solarística – a ciência da exploração do planeta Solaris – perdeu adeptos, crê-se ser hora de a ele voltar. Tal acontece na pessoa do psicólogo Kris Kelvin (Donatas Banionis), que antes de partir é visitado por Berton (Vladislav Dvorzhetskiy), amigo do seu pai (Nikolay Grinko), e antigo astronauta, cujos relatos enigmáticos levaram à suspensão do projecto. Na estação, Kelvin descobre que um dos três cientistas residentes, o seu amigo Grigorian (Sos Sargsyan ), se suicidou, e detecta frieza e paranóia nos outros dois: Snaut (Jüri Järvet) e Sartorius (Anatoliy Solonitsyn). Mas tudo se complica quando Kelvin é visitado por alguém que parece a sua antiga mulher Hari (Natalya Bondarchuk), que se suicidou anos antes.

Análise:

Com dez anos de distância para a sua primeira longa-metragem, Andrei Tarkovsky trazia-nos “Solaris”, a sua primeira incursão no domínio da ficção científica, um género que o realizador dizia carecer de uma maior profundidade na abordagem dos temas que esta se propunha levantar. Pelo meio, o realizador soviético vira o seu segundo filme “Andrei Rublev” (1966) sofrer de golpes e contra-golpes da censura, com constantes adiamentos do filme, bem como a rejeição do seu trabalho seguinte (A White, White Day), o qual se tornaria mais tarde em “O Espelho” (Zerkalo, 1975). Mas entretanto chegava a sua adaptação – algo livre – da obra do polaco Stanislaw Lem (publicada em 1961, e já com versão televisiva da autoria de Boris Nirenburg), escritor que Tarkovsky admirava, e que se tem estabelecido como um dos clássicos do género, pela forma como aborda questões psicológicas ao invés do sensacionalismo de aventura que tanto grassa pelo género.

Passando-se num momento não mencionado, mas que poderia ser um futuro muito próximo, “Solaris” conta-nos a história do psicólogo Kris Kelvin (Donatas Banionis), quando este é enviado à estação espacial que paira sobre o oceano do planeta Solaris para avaliar estranhas situações aí ocorridas. Antes de partir Kelvin é visitado por Berton (Vladislav Dvorzhetskiy), um amigo do seu pai (Nikolay Grinko), e antigo astronauta, cujos relatos de uma anterior missão em Solaris, fizeram todo o projecto ser suspenso. Agora, anos depois, reatada a missão de investigação, Kelvin chega a Solaris, descobrindo à chegada que um dos três cientistas residentes – o fisiólogo Grigorian (Sos Sargsyan) – se suicidou algum tempo antes. Recebido friamente pelos seus colegas Snaut (Jüri Järvet) e Sartorius (Anatoliy Solonitsyn), Kelvin começa a desconfiar de que nem tudo lhe é dito, principalmente quando começa a sentir que há mais pessoas presentes na estação. Na sua primeira noite, vê surgir-lhe a figura da sua ex-mulher Hari (Natalya Bondarchuk), morta alguns anos antes. O seu primeiro instinto é livrar-se dela, fazendo-a entrar num foguetão que Kelvin dispara para longe, mas logo o esforço se revela infrutífero, quanto, como Snaut o avisa, uma nova Hari lhe surge.

Embora esta, em tudo pareça real, e desde logo, entre ela e Kelvin se estabeleça uma relação emocional, Snaut e Sartorius avisam-no de que ela não é humana, mas sim uma manifestação do oceano de Solaris que se comporta como uma consciência viva, capaz de interagir com os habitantes da estação. É que, quando a estação bombardeou o oceano com raios X para o sondar, este terá respondido, sondando a mente humana e recriando pessoas amadas que com eles comunicassem. Em simultâneo, Hari tenta perceber quem é, descobrindo não ser a original Hari, nem tendo todas as memórias dela. Tal leva-a à depressão e tentativa gorada de suicídio. Cada vez mais perdido, Kelvin, diz aos colegas que tentará apenas que Hari fique bem, e depois irá voltar à Terra, sabendo de antemão que isso significa o fim dela. Quando acorda de mais uma noite, Kelvin descobre por Snaut que Hari já não existe, pois a pedido dela Snaut levou a cabo o seu plano de enviar para o oceano as ondas cerebrais de Kelvin, na esperança de que assim os visitantes parassem de surgir na estação. Kelvin regressa então a casa, onde vai visitar o pai, revelando-se que a propriedade deste fica numa ilha de Solaris.

Optando pelo seu já conhecido ritmo lento e contemplativo, onde longos planos-sequência nos arrastam para imagens de enorme beleza, e onde sonho e realidade se intercalam, às vezes sem nos deixar adivinhar o que estamos a ver, Tarkovsky dava ao lado mais filosófico do livro de Lem preponderância no seu filme. Há em “Solaris” algo que nos recorda imediatamente “2001: Odisseia no Espaço” (2001: A Space Odyssey, 1968), de Stanley Kubrick – filme que Tarkovsky criticou veementemente por considerar falso e pretensioso. Mesmo chamado por alguns um anti-2001, as referências são óbvias, quer pelo lado filosófico, ritmo lento, e alguma da estética – por exemplo os ambientes circulares e por vezes assepticamente brancos da estação espacial –, como também a base da história que envolve um contacto difícil de explicar com uma consciência alienígena que se faz manifestar de formas que lembram a alucinação, e onde não falta mesmo a visão de um bebé gigante que flutua no espaço.

Mas mais que a soma das suas partes, “Solaris” funciona como uma viagem ao interior da alma humana, onde estão presentes os sentimentos de dor e perda, a curiosidade e anseio (tanto científicos como emocionais), e uma busca do que define o que é afinal ser humano. Quer na incredulidade e rápida cedência à carência emocional do protagonista Kelvin – que chega a assumir amar agora mais a falsa Hari do que alguma vez amou a verdadeira –, quer no conflito interior da própria Hari que não sabe quem é, mas aos poucos se vai tornando cada vez mais uma réplica humana, ao ponto de tal assustar os outros dois cientistas, “Solaris” joga com a capacidade de nos auto-definirmos, seja com bases convencionais (os testes de sangue feitos na estação, por exemplo), seja de um modo mais abstracto, procurando definir-nos pelo que nos faz sentir, acreditar, viver, ou sofrer.

Nesse sentido, e levando-nos num rodopio de narrativas circulares – não só pela lenta repetição de eventos, como pela forma como os sonhos de Kelvin parecem influenciar, ou mesmo replicar acontecimentos que está a viver – que põe em causa os limites entre percepção, sonho e fantasia, afinal temas caros a toda a filmografia de Tarkovsky, aqui com o recorrente coral-prelúdio “Caçadores na Neve Ich ruf zu dir Herr Jesu Christ”, BWV 639 de Johann Sebastian Bach a transportar-nos quase hipnoticamente.

Por outro lado, dada a premissa inicial de uma investigação espacial, “Solaris” parece limitar-nos, nunca nos deixando sair de uma exígua estação (excluindo a primeira parte, passada numa idílica propriedade rural, onde a beleza da natureza nos lembra do quanto podemos estar a perder ao ignorarmos a Terra onde vivemos). Nessa estação, espécie de prisão auto-imposta de onde só se sai morrendo (como Grigorian), os ocupantes não parecem sequer comportar-se de modo científico, mais dados a idiossincrasias e frustrações pessoais que a trabalho científico, e onde o final em aberto nos leva a supor que talvez tudo o que vimos possa ser afinal mais uma manifestação do oceano de Solaris na sua forma de interagir com a mente humana, e que por isso nada (por exemplo o início) possa ser garantidamente real. Por tudo isso, o filme de Tarkovsky apresenta um forte sabor de enigma a quem procura uma narrativa acabada. Por outro lado, é clara a sua intenção de nos provocar com temas que vão da consciência humana à própria ética científica, passando pela incapacidade de comunicação e, claro, pela busca da alma humana.

Num contexto onde, como diz Snaut a certa altura, nós talvez não precisemos tanto de explorar o espaço exterior como precisamos de espelhos, a estética de “Solaris” distingue-se ainda na forma como a estação replica tanto dos nossos ambientes conhecidos, seja pela biblioteca romântica, como pelo uso de arte como forma de realçar estados de espírito e memorias de Kelvin – por exemplo a relação com o pai em “O Retorno do Filho Pródigo” de Rembrandt ou as memórias da infância em “Caçadores na Neve” de Pieter Brueghel, o Velho. Uma piscadela de olho ao seu filme anterior surge ainda na forma de ícones de Andrei Rublev, que se vêem na decoração de uma das paredes.

Continuando a traçar um caminho distante dos temas mais queridos ao poder político da União Soviética, Tarkovksy não incomodava porque, não só as suas obras se tornavam demasiado metafísicas para delas se tirarem inferências sobre a realidade contemporânea, como a sucessão de prémios internacionais – e “Solaris” receberia o Grande Prémio Especial de Júri de Cannes e o Prémio FIPRESCI da imprensa, para além da nomeação à Palma de Ouro – traziam um prestígio inegável ao cinema da União Soviética.

Elogiado pela generalidade da crítica, e consagrado por muitos realizadores que o têm como um dos seus filmes preferidos, “Solaris” tornou-se uma referência incontornável da ficção científica, tendo originado, em 2002, um remake do mesmo nome, realizado por Steven Soderbergh, e protagonizado por George Clooney.

Donatas Banionis em "Solaris" (Solyaris/Солярис, 1972), de Andrei Tarkovsky

Produção:

Título original: Solyaris/Солярис; Produção: Mosfilm, Chetvyortoe Tvorcheskoe Obedinenie; Produtores Executivos: ; País: URSS; Ano: 1972; Duração: 167 minutos; Distribuição: Mosfilm; Estreia: 5 de Fevereiro de 1972 (URSS), Abril de 1976 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Andrei Tarkovsky; Argumento: Fridrikh Gorenshteyn, Andrei Tarkovsky [a partir do livro honmónimo de Stanislaw Lem]; Música: Eduard ArtemevFotografia: Vadim Yusov [preto e branco por Eastman Double-X Negative Film / cores por Eastman Color]; Montagem: Lyudmila Feyginova, Nina Marcus [não creditada]; Design de Produção: Mikhail Romadin; Cenários: S. Gavrilov, V. Prokofev; Figurinos: Nelli Fomina; Caracterização: Vera Rudina; Efeitos Especiais: A. Klimenko; Direcção de Produção: Vyacheslav Tarasov.

Elenco:

Natalya Bondarchuk (Hari), Donatas Banionis (Kris Kelvin, Psicólogo), Jüri Järvet (Snaut, Cibernético), Vladislav Dvorzhetskiy (Anri Berton, Piloto), Nikolay Grinko (Nik Kelvin, Pai de Kris Kelvin), Anatoliy Solonitsyn (Sartorius, Astrobiólogo), Olga Barnet (Mãe de Kris Kelvin), Vitalik Kerdimun (Filho de Anri Berton), Olga Kizilova (Hóspede de Grigorian), Tatyana Malykh (Sobrinha de Kris Kelvin), Aleksandr Misharin (Shanahan, presidente da Comissão Anri Berton), Bagrat Oganesyan (Professor Tarkhe), Tamara Ogorodnikova (Anna, Tia de Kris Kelvin), Sos Sargsyan (Grigorian, Fisiólogo), Yulian Semyonov (Presidente da Conferência Científica), V. Statsinskiy (Kris Kelvin Jovem), Valentina Sumenova, Georgiy Teykh (Professor Messendzher).