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Let Me In Owen (Kodi Smit-McPhee), é um miúdo triste e solitário, filho de mãe divorciada, que passa muito do seu tempo sozinho, sem amigos, e vítima silenciosa de bullying na escola. Certa noite, enquanto se distrai consigo mesmo no pátio do seu prédio, Owen é abordado por uma rapariga chamada Abby, que nunca sai de casa, e se mudou recentemente para o seu prédio. Por entre estranheza, os miúdos sentem muita curiosidade um pelo outro, sem que Owen saiba que Abby se alimenta de sangue, que o seu pai (Richard Jekins) obtém, saindo todas as noites para matar pessoas.

Análise:

Em 2008, chegou ao mercado internacional o filme sueco “Deixa-me Entrar” (Låt den rätte komma in), de Tomas Alfredson. Era uma história de vampiros diferente, em jeito de drama de amor infantil, ou conto de fadas pós-moderno, no qual o lado contemplativo, aliado à forma crua e seca de filmar de Alfredson, trazia uma atmosfera original, que cativou o mundo inteiro. Prova desse resultado foi a imediata apropriação anglófona, com a renascida Hammer Films a comprar os direitos para um remake, o qual terá sido inicialmente oferecido ao próprio Tomas Alfredson. Com o cenário alterado da gelada Estocolmo para Los Alamos, no Novo México, os produtores confessaram que a intenção era manter o máximo do filme original, mas tornando-o mais apelativo para uma audiência mais vasta.

Tal como na história original, mas agora com locais e nomes alterados, temos a história de um jovem, Owen (Kodi Smit-McPhee), filho de mãe divorciada, e constantemente atormentado por colegas na escola, o que o leva a imaginar cenários de vingança no muito tempo que passa sozinho. É num desses momentos que conhece a sua nova vizinha Abby (Chloë Grace Moretz), moça de comportamentos estranhos, e que parece viver fechada no seu apartamento com o pai (Richard Jekins), excepto para algumas escapadelas nocturnas. A estranheza torna-se curiosidade e Owen e Abby começam a encontrar-se repetidamente. Só que, sem que Owen o saiba, Abby alimenta-se de sangue de vítimas que o seu pai caça para ela. Quando este começa a falhar os alvos Abby assassina um dos vizinhos. Em desespero, o pai tem de voltar a caçar, só que mais uma vez falha, provocando um acidente de automóvel e, para não ser reconhecido, desfigura-se com o ácido que leva para tornar as suas vítimas irreconhecíveis. Vendo nas notícias o que aconteceu, Abby vai ao hospital e bebe o sangue do pai, que se atira da janela de seguida. Sozinha e em fuga, Abby refugia-se em casa de Owen, e acaba por lhe contar quem é. Este aceita-a, mesmo depois de a ver transformar-se, e protege-a quando a polícia vem procurá-la em casa, ajudando Abby a eliminar a ameaça (Elias Koteas), e ajudando-a a viajar dali para fora.

Estreado no Festival de Toronto, em 2010, “Let Me In” gerou dois tipos de reacções opostas, ora foi elogiado por ser muito fiel ao filme original, ora criticado por não inovar em relação a ele. Ambas as críticas estão correctas e, obviamente, coincidem, já que o filme de Matt Reeves segue à risca o material original, com diálogos e situações tirados a papel químico, mas alterando pequenos momentos, em particular as sequências de acção (os ataques de Abby, o despiste do pai), que aqui são mais espectaculares, e servidos de CGI como nas imagens da transformação facial de Abby, não presentes no filme de Alfredson. Por outro lado, há maior ênfase nas sequências de bullying e numa pretensa investigação policial não presente na produção sueca. Já esta preocupara-se mais em olhar o bairro onde os incidentes ocorrem com maior caracterização da vizinhança, como pessoas simples e comuns, ao contrário de no filme de Reeves, onde parecem saídos de passagens de modelos, e prontos a protagonizar quentes cenas de sexo para o pequeno Owen espiar da sua janela, em momentos que nos parecem piscadelas de olho a “A Janela Indiscreta” (Rear Window, 1954) de Alfred Hitchcock. E note-se que muito do lado contemplativo do filme se dá porque vemos essencialmente Owen a espiar outros (Abby, vizinhos, bullies, etc), os quais acabam quase todos mortos por Abby.

Diferenças à parte, “Let Me In” tenta fazer o mesmo que o seu congénere sueco, isto é, mostrar que é possível contar uma estranha história de amizade/amor entre duas crianças (note-se como um livro de “Romeu e Julieta” de Shakespeare surge na história a dada altura), completamente desadaptados das suas realidades, e que vêm na estranheza mútua uma espécie de conforto. Por entre a frieza do cenário, que espelha de certo modo a das relações humanas, o filme dá-nos a mesma estranheza narrativa, com personagens atípicas, onde mais do que o que se mostra ou diz, o que conta são sobretudo os sentimentos que adivinhamos, e que nos fazem criar empatia pelo estranho par.

Claro que o filme de Reeves tenta explicar mais, onde não era necessário, e usa o artifício do flashback como forma de tentar criar mistério, onde ele não faz falta. Ainda assim, e graças aos desempenhos acertados de Kodi Smit-McPhee e Chloë Grace Moretz, o filme resulta, principalmente nos momentos em que eles estão juntos, sem que enredos paralelos distraiam da história principal.

Curioso é o facto de nenhum dos dois filmes mencionar explicitamente algo que se sabe do livro, a pequena vampira era, na verdade um rapazinho, que havia sido castrado, o que, juntamente com as várias vezes em que se pergunta “Gostarias de mim mesmo que eu não fosse uma rapariga?”, traz um lado ainda mais perverso à história.

A boa aceitação do filme levou ao surgimento de uma mini-série de livros de banda desenhada, intitulada ” Let Me In: Crossroads”, que funciona como prequela do filme, contando a história de Abby. Por outro lado, o sucesso comercial foi a prova de que a Hammer Films podia voltar a trilhar os caminhos do cinema de terror num mercado mais tradicional.

Kodi Smit-McPhee e Chloë Grace Moretz em "Deixa-me Entrar" (Let Me In, 2010), de Matt Reeves

Produção:

Título original: Let Me In; Produção: Hammer Films / Overture Films / Exclusive Media Group / EFTI; Produtores Executivos: Nigel Sinclair, John Ptak, Philip Elway, Fredrik Malmberg; Co-Produtores Executivos: Andy Mayson (Exclusive Media Group and Hammer Films), Marc Schipper (Exclusive Media Group and Hammer Films); País: Reino Unido / EUA; Ano: 2010; Duração: 116 minutos; Distribuição: Overture Films (EUA), Relativity Media (EUA), Icon Film Distribution (Reino Unido); Estreia: 13 de Setembro de 2010 (Festival de Toronto, Canadá), 1 de Outubro de 2010 (Canadá, EUA), 21 de Outubro de 2010 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Matt Reeves; Produção: Donna Gigliotti, Alexander Yves Brunner, Simon Oakes, Tobin Armbrust, Guy East, John Nordling, Carl Molinder; Co-Produção: Vicki Dee Rock; Produtora Associada: Jillian Longnecker (Exclusive Media Group and Hammer Films); Argumento: Matt Reeves [a partir do argumento do filme “Låt den rätte komma in” de John Ajvide Lindqvist, baseado no seu livro homónimo]; Música: Michael Giacchino, Andrea Datzman; Orquestração: Andrea Datzman, Chris Tilton; Direcção de Orquestra: Joe Crnko, David Sabee; Fotografia: Greig Fraser [filmado em Panavision; fotografia digital]; Montagem: Stan Salfas; Design de Produção: Ford Wheeler; Direcção Artística: Guy Barnes; Cenários: Wendy Ozols-Barnes; Figurinos: Melissa Bruning; Caracterização: Jennifer McDaniel; Efeitos Especiais: Werner Hahnlein; Efeitos Visuais: Brad Parker; Direcção de Produção: Anne Johns.

Elenco:

Kodi Smit-McPhee (Owen), Chloë Grace Moretz (Abby), Richard Jenkins (O Pai), Elias Koteas (O Polícia), Cara Buono (Mãe de Owen), Sasha Barrese (Virginia), Ritchie Coster (Mr. Zoric), Brett DelBuono (Irmão de Kenny), Dylan Minnette (Kenny), Jimmy ‘Jax’ Pinchak (Mark), Nicolai Dorian (Donald), Dylan Kenin (Larry), Chris Browning (Jack), Rebekah Wiggins (Enfermeira), Seth Adkins (Aluno do Liceu), Ashton Moio (Miúdo de Lanky), Gwendolyn Apple (Rapariga na Piscina), Colin Moretz (Balconista na Sala de Videojogos), Rowbie Orsatti (Scottie Tate).