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Andrey Rublev Na Rússia do século XV, ainda perdida entre cristianismo e paganismo, num regime feudal de príncipes rivais, e invasões tártaras, vive Andrei Rublev (Anatoliy Solonitsyn), monge do mosteiro de Andronikov, famoso pelas suas pinturas de ícones religiosos. Com os colegas monges Kirill (Ivan Lapikov) e Daniil Chyornyy (Nikolay Grinko), os aprendizes Foma (Mikhail Kononov) e Sergei (Vladimir Titov), entre outros, Rublev vai trabalhar na catedral de Vladimir (na região de Moscovo), e conhecer e viver crises de fé na sua arte, exemplos do paganismo local, e a violência dos senhores feudais.

Análise:

Andrei Rublev, o personagem (nascido por na década de 1460, morto entre 1627 e 1630), foi um monge, que ficou célebre como pintor de ícones religiosos no interior de catedrais. Viveu numa era conturbada (o período medieval), com os príncipes feudais a disputarem tiranicamente entre si influências e territórios, e a constante ameaça das hordas tártaras do Leste, o que tornava o interior da Rússia numa região difícil, e onde a religião entrava lentamente, sob a mão das ordens monásticas, e cativando o povo com as suas construções grandiosas.

Realizado já em plena era Brejnev, quando o aparelho soviético se endurecia contra o fracasso da administração de Nikita Kruschev, o filme de Andrei Tarkovsky (o seu segundo, se não contarmos pequenos filmes que realizou enquanto estudante) seria exibido a uma audiência seleccionada, no Inverno de 1966, para só em em Maio de 1969 ser apresentado no Festival de Cannes, e distribuído internacionalmente em 1973, já depois de a censura lhe ter cortado algumas sequências.

Através de uma história que procura ser fiel à época, e não necessariamente à biografia do monge-pintor, do qual pouco ainda se sabe, “Andrei Rublev” é, por isso, não tanto um filme sobre o artista Rublev, mas sim um filme sobre a Rússia, no qual Tarkovsky nos dá uma Idade Média suja, feia, violenta e confusa, na qual há ainda assim espaço para se discutirem valores como a arte, a vocação artística, a liberdade individual, e o papel da religião, pilar do que seria a Rússia daí em diante.

O filme divide-se em oito partes (O Bobo, Verão de 1400; Teófanes o Grego, 1405–1406; A Paixão Segundo Andrei, 1406; O Festim, 1408; O Juízo Final, Verão de 1408; O Ataque, Outono de 1408; O Silêncio, Inverno de 1412; O Sino, 1423-1424), precedidas de um prólogo, e terminando com um epílogo no qual, a cores, vemos em grande detalhe alguns dos frescos de Andrei Rublev ainda existentes. Nele acompanhamos as deambulações de Andrei Rublev (Anatoliy Solonitsyn), e dos seus companheiros, também monges, Kirill (Ivan Lapikov) e Daniil Chyornyy (Nikolay Grinko), os encontros com o seu mentor, Teófanes o Grego (Nikolay Sergeev), que viveu entre 1340 e 1410, a preparação dos discípulos, como Foma (Mikhail Kononov), e a sua queda no silêncio, depois de testemunhar um massacre em Vladimir, acabando simples protector da louca Durochka (Irma Raush, esposa de Tarkovsky). Outros episódios mostram-nos a Paixão de Cristo pelos enlameados caminhos da Rússia; Rublev a ser tentado por um grupo de pagãos numa festa orgiástica; e finalmente a construção de um grande sino para a catedral, pelo jovem Boriska (Nikolai Burlyayev, o Ivan do seu filme anterior).

“Andrei Rublev” inicia-se com um prólogo em que um homem (Nikolay Glazkov) tenta voar num balão de ar quente, para ser perseguido pela população que tenta impedi-lo agredindo quem o ajuda. Está dado o mote para a ideia de querer voar mais alto, num sonho que será sempre abortado pela maioria. Vemos de seguida a caminhada do nominal Andrei Rublev, monge do mosteiro Andronikov, as discussões que tem em torno da ideia da pintura, a forma como observa os desregramentos religiosos (o bobo, os pagãos, os tártaros, a soberba dos artistas, as dissensões no mosteiro), bem como as suas crises pessoais em torno do seu papel como artista, que atrasam as pinturas em Vladimir. Por fim, Rublev, testemunha o massacre, matando um tártaro para salvar Durochka, algo de que não se perdoa, deixando a pintura e voltando a Andronikov, onde faz voto de silêncio.

Através de um retrato cruel de uma época de conflitos e tortuosa implantação religiosa, o filme de Tarkovsky, com argumento do seu amigo Konchalovsky, questiona a sua própria relação com o transcendente, numa altura em que a religião não é aceite no seu país (a União Soviética comunista). Fá-lo com um conjunto de personagens que ligam religião e arte, todos de características distintas, Rublev como sensível humanista em permanente dúvida, Kirill como ambicioso embora sem talento, Daniil como modesto e pio, Teófanes como o cínico que se inspira na maldade humana, Foma como exemplo do artista que se vende facilmente por dinheiro.

Filmando em cenários naturais, em locais históricos, Tarkovsky começa a mostrar a sua propensão para longos planos-sequências, em gentis panorâmicas que nos deixam absorver cada momento com calma. Com um forte uso da paisagem natural (campos, florestas, cursos de água, e vistas sobre cidades), há sempre em “Andrei Rublev” um sentido de grandioso, como se o mundo fosse o palco, e a vida a verdadeira inspiração para a arte. Tarkovsky assumiria o carácter místico de filme, com simbolismos repetidos (por exemplo, os cavalos, várias vezes filmados à parte, como símbolo de vida; o poder das intempéries; o papel dos cursos de água, sempre presentes, como viagem, divisão, união), e sequências marcadamente alegóricas (a Paixão de Cristo; a caminhada de Durochka, virginalmente branca, na lama, na parte final). Seja o conflito bélico, o pessoal ou espiritual, temos sempre um sentido de algo maior que os personagens a acontecer (como, por exemplo, na construção do sino que exige tantas centenas de trabalhadores). Tudo isto é filmado com cuidado, seja em encenações mais cruas, mas sempre cuidadas e intensas, seja em panorâmicas de cortar o fôlego, seja em sequências como a batalha de Vladimir, de enorme realismo e violência.

Por tudo isto, “Andrei Rublev” torna-se um épico, quer pela qualidade cénica, quer pelos temas, quer por tudo o se vai desenterrando camada a camada, em cada plano do filme. Destaca-se, claro, a interpretação de Anatoliy Solonitsyn, na altura um desconhecido actor de teatro, contido, mas capaz de transmitir a sua dor, dúvida e descrença com a singeleza de um olhar.

O filme foi exibido inicialmente numa versão de 200 minutos, sendo censurado e reeditado para a versão de 205 minutos de 1969 que finalmente foi vista no exterior. Esta passou por mais cortes até chegar à televisão soviética em 1971 com apenas 101 minutos. Sob orientação do próprio Tarkovsky, o filme foi mais tarde restaurado para a versão final de 186 minutos, considerada a correcta pelo próprio realizador. Apresentado em Cannes em 1969, “Andrei Rublev” venceria o prémio de imprensa FIPRESCI. Tendo ficado até hoje como um dos mais influentes filmes da história do cinema.

Produção:

Título original: Andrey Rublev/Андрей Рублёв [Título inglês: Andrei Rublev]; Produção: Mosfilm; Produtora Executiva: Tamara Ogorodnikova; País: URSS; Ano: 1966; Duração: 185 minutos; Estreia: Dezembro de 1966 (URSS), 21 de Janeiro de 1983 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Andrei Tarkovsky; Argumento: Andrey Konchalovskiy, Andrei Tarkovsky; Música: Vyacheslav Ovchinnikov; Fotografia: Vadim Yusov [preto e branco]; Montagem: Tatyana Egorycheva, Lyudmila Feyginova, Olga Shevkunenko; Design de Produção: Evgeniy Chernyaev; Figurinos: Maya Abar-Baranovskaya, Lidiya Novi; Caracterização: Maksut Alyautdinov, S. Barsukov, Vera Rudina; Efeitos Especiais: Pavel Safonov, V. Sevostyanov; Direcção de Produção: .

Elenco:

Anatoliy Solonitsyn (Andrey Rublev), Ivan Lapikov (Kirill), Nikolay Grinko (Daniil Chyornyy), Nikolay Sergeev (Theophanes, o Grego), Irina Tarkovskaya [como Irma Raush] (Durochka, a Louca), Nikolay Burlyaev (Boriska), Yuriy Nazarov (Príncipe Yury de Zvenigorod/ Grande-Príncipe Vasily I de Moscovo), Yuriy Nikulin (Patrikey, Monge), Rolan Bykov (Skomorokh), Nikolay Grabbe (Stepan, centurião do grão-duque), Mikhail Kononov (Foma, Monge), Stepan Krylov (Starshiy liteyshchik), Bolot Beyshenaliev (Edigu, Khan da Tártaro Horda Nogai), B. Matysik (Pyotr), Anatoliy Obukhov (Aleksey, Monge), Vladimir Titov (Sergey), Nikolay Glazkov (Efim), Irina Miroshnichenko (Mary Magdalene).