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Séraphine Em 1914, Wilhelm Uhde (Ulrich Tukur), reputado crítico e coleccionador de arte alemão, vai viver na aldeia de Senlis, longe do bulício de Paris, onde participa na cena artística. Um dia, surpreende-se ao saber que a sua mulher-a-dias, uma cinquentona rude e desajeitada, produzindo quadros que ele acha excelentes. Esta, Séraphine (Yolande Moreau), sob o incentivo do crítico, vai começar a pintar mais arrojadamente, na promessa de que ele a irá expor em Paris. Mas a guerra corta pela raiz todos os planos, com Uhde a ser forçado a deixar a França.

Análise:

Produção franco-belga, com realização de Martin Provost e argumento do próprio, a meias com Marc Abdelnour, “Séraphine” baseou-se no livro de Françoise Cloarec “La vie privée de Séraphine de Senlis”, para nos dar a conhecer a inusitada pintora francesa Séraphine Louis (1864–1942), uma autodidacta descoberta por acaso pelo crítico e coleccionador alemão Wilhelm Uhde.

A história leva-nos às vésperas da Primeira Guerra Mundial, quando o crítico e coleccionador de arte alemão Wilhelm Uhde (Ulrich Tukur) vai viver para Senlis, em França, e tem como mulher a dias Séraphine Louis (Yolande Moreau), uma mulher de 50 anos, desajeitada e introvertida, que vive por caridade das irmãs do convento. Zombada por todos em Senlis, Séraphine vive para si mesma, e para o seu único hobby, fora das horas de trabalho: a pintura. Um dia, contando à sua senhoria (Hélène Hardouin) que pinta, esta pede-lhe para ver um quadro, que fica em sua casa, até que Uhde o vê, durante um jantar. Intrigado, Uhde interpela a criada, e pede-lhe para ver outros quadros, declarando-lhe que tem um talento extraordinário, e exortando-a a pintar mais. O início da guerra obriga Uhde a regressar à Alemanha, mas, após a guerra, volta a estabelecer-se em França, em 1927, e ao revisitar Senlis, descobre que Séraphine não só ainda pinta, como o seu estilo evoluiu, o que o faz pensar expo-la em Paris. Para tal, Uhde inibe Séraphine de trabalhar noutra coisa que não seja a pintura, compra alguns dos seus quadros, e encontra mais compradores, dando à pintora uma mesada regular para que esta pinte. Só que, vendo-se pela primeira vez com dinheiro, Séraphine começa a gastá-lo infantilmente, comprando inclusivamente um dispendioso vestido de noiva para usar por casa. Com a Grande Depressão os quadros não vendem, e Uhde tem de repreender Séraphine pois não tem dinheiro para os gastos dela, e não conseguirá uma exposição tão cedo. Tal desequilibra Séraphine que perde o pouco contacto que tinha com a realidade, e passa a andar pela rua vestida de noiva, até ser internada. No hospital, a sua condição piora, tornando-se violenta, pelo que Uhde é proibido de a visitar. Finalmente, com o crescimento económico, os quadros começam a ser vendidos, e Uhde pode pagar melhores condições para Séraphine, que pode agora ter um jardim e estar na natureza que sempre amou e pintou.

Sereno, simples e humilde, como a personagem que nos apresenta, “Séraphine” é o elogio de uma actriz (Yolande Moreau numa interpretação extraordinária) de cujo mérito depende toda a obra. Desajeitada, algo alienada, introvertida, amedrontada com o modo como é olhada, e devota quer religiosamente quer do seu trabalho (o de mulher a dias e a pintura), a Séraphine Louis de Moreau apenas resulta como personagem forte e credível porque a actriz o consegue com brilhantismo, e só por isso o filme é credível.

Através dela, e da câmara de Provost, temos a França rural do princípio do século XX, os hábitos simples, e a natureza que inspira Séraphine, quase num panteísmo que a faz unir essa grandiosidade encontrada nos animais e plantas com o modo como se relaciona com Deus (note-se como até o sangue de um porco é usado na sua pintura, como as flores que recolhe a inspiram, e como ao mesmo tempo Séraphine diz que são os anjos que a mandam pintar). Tal humildade e simplicidade – para não se dizer mesmo alguma falta de tino – fazem dela um ser invulgar, e a menos provável pintora da história, não fosse a feliz coincidência de conhecer Wilhelm Uhde, o homem que a descobriu, e que se tornou paladino da arte daquela que ficaria para a história como Séraphine de Senlis, e cujo estilo a colocou a par da escola primitivista.

Por entre episódios simples e marcantes da vida de Séraphine, acompanhamos a sua evolução, numa espécie de ascensão e queda, ambas tão dramáticas quanto inesperadas. Com algumas críticas ao modo de olhar a arte (o momento em que Uhde lê as críticas num jornal e as escamoteia todas, é exemplo disso), e principalmente um ensaio sobre as consequências do desequilíbrio trazido para a vida de uma mulher que nunca desejou nada daquilo, e pintava apenas por terapia, “Séraphine” é uma filme comovente, despojado de artifícios sentimentais, mas cuidado como um filme de época deve ser, e que por isso cativou crítica e público, ao ponto de receber o César de Melhor Filme, em 2009.

Yolande Moreau e Ulrich Tukur em "Séraphine" (2008), de Martin Provost

Produção:

Título original: Séraphine; Produção: TS Productions / France 3 Cinéma / Climax Films / Radio Télévision Belge Francophone (RTBF) / Centre National de la Cinématographie / Canal+ / CinéCinéma / TV5 Monde; País: França / Bélgica; Ano: 2008; Duração: 126 minutos; Distribuição: Diaphana Films (França), Cinéart (Bélgica); Estreia: 7 de Setembro de 2008 (Festival de Toronto, Canadá), 1 de Outubro de 2008 (França), 17 de Setembro de 2009 (Portugal).</p

Equipa técnica:

Realização: Martin Provost; Produção: Miléna Poylo, Gilles Sacuto; Co-Produção: Olivier Rausin; Produtora Associada: Arlette Zylberberg; Argumento: Martin Provost, Marc Abdelnour; Música: Michael Galasso; Fotografia: Laurent Brunet; Montagem: Ludo Troch; Design de Produção: Thierry François; Direcção Artística: ; Cenários: Catherine Jarrier-Prieur; Figurinos: Madeline Fontaine; Caracterização: Evelyne Byot; Efeitos Especiais: Daniel Lenoir; Efeitos Visuais: Johnny Alves; Pinturas: Eric Vermeil; Direcção de Produção: Nathalie Duran.

Elenco:

Yolande Moreau (Séraphine Louis, dita Séraphine de Senlis), Ulrich Tukur (Wilhelm Uhde), Anne Bennent (Anne-Marie Uhde), Geneviève Mnich (Mme Duphot), Adélaïde Leroux (Minouche), Nico Rogner (Helmut Kolle), Françoise Lebrun (Madre Superiora), Hélène Hardouin (Senhoria), Serge Larivière (Duval), Léna Breban (Irmã Marguerite), Sandrine Bodènés (Marie-Louise), Muriel Riou (Berthe), Dominique Pozzetto (Anatole Duphot), Josette Ménard (A Talhante), Xavier Pottier (O Talhante), Jean-Pascal Abribat (O Jornalista), Anne Benoît (Madame Delonge), Corentin Lobet (L’interne), Serge Gaborieau (O Médico), Frédéric Révérend (Convidado), Rosine Favey (Convidada), Marie-Noëlle Révérend (Convidada), Joëlle Bobbio (Mestre de Obra), Sophie Raive (A Governanta), Michel Sailly (O Camionista), Francis Lacloche (O Notário).

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