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Little AshesEm 1922, durante a Segunda República Espanhola, sentem-se ventos de abertura, quando o jovem pintor Salvador Dalí (Robert Pattinson) vai estudar para Madrid. Aí conhece Luis Buñuel (Matthew McNulty), Federico García Lorca (Javier Beltrán) e Margarita Manso (Marina Gatell), com quem forma um grupo boémio e idealista que não vê limites na sua arte e vontade de mudar o mundo. Essa fascinação mútua leva a que Lorca se apaixone por Dalí, o qual, timidamente lhe retribui o afecto, mas nunca fazendo as pazes com o facto de que o mundo verá a relação como algo aberrante.

Análise:

Produção anglo-espanhola (com dinheiro público de Espanha), a partir de um projecto iniciado por iniciativa da argumentista britânica Philippa Goslett, e do realizador seu compatriota Paul Morrison, “Little Ashes” foi filmado na Catalunha, numa bem conseguida tentativa de recriar os anos 20 e 30 do século XX, em paisagens naturais, quer rurais quer aproveitando a arquitectura dos edifícios e ruas da época, para através dela nos dar uma história envolvendo Federico García Lora, Luis Buñuel e Salvador Dalí.

A história começa em 1992, quando Salvador Dalí (Robert Pattinson) ingressa na universidade em Madrid. Aí, é acolhido por um grupo de jovens artistas, onde se destaca o futuro cineasta Luis Buñuel (Matthew McNulty), o já publicado poeta precoce Federico García Lorca (Javier Beltrán) e a futura jornalista e muito liberal Margarita Manso (Marina Gatell) – pontual amante de Lorca. De visual extravagante e ideias inovadoras, Dalí vai-se deixar seduzir pela vida boémia dos novos amigos, acreditando que a sua geração está destinada a mudar o mundo, quebrando limites e tabus. É nessa crença que Dalí se vai deixar fascinar pelo carisma e a atenção que lhe é dada por Lorca, o qual luta inicialmente contra essa atracção, mas acaba por ceder, procurando uma relação amorosa com o pintor. Com o extremar de posições entre republicanos e lealistas, que levará à Guerra Civil Espanhola, o conservadorismo é ainda forte, e a homossexualidade é vista como aberração, como muitas vezes dito por Buñuel, que desaprova a relação entre Dalí e Lorca. Dalí acaba por ceder às convenções e deixa Lorca para ir viver para Paris, onde adere ao movimento surrealista, realiza um filme com Buñuel, e casa com Gala (Arly Jover). Mesmo que no reencontro com Lorca, Dalí ceda aos seus afectos, mantém-se irredutível na intenção de procurar outra vida, o que é exacerbado pelo seu apoio a Franco. Tal leva-o a cortar definitivamente com Lorca e Buñuel, com o primeiro a acabar fuzilado pelas tropas franquistas, pela sua homossexualidade e simpatias de esquerda.

Premiado com um GLAAD Media Award (que distingue filmes de temática LGBT), “Little Ashes” surpreenderá quem busca uma simples biografia do pintor Salvador Dalí (1904–1989), nome ímpar do surrealismo na pintura, ou do poeta futurista Federico García Lorca (1898–1936). De facto, mais que procurar mostrar o trajecto pessoal e artístico destes dois vultos da cultura espanhola, o filme de Morrison centra-se na possível relação amorosa entre ambos.

Sem nada que estabeleça a existência de uma verdadeira relação romântica e/ou física entre Lorca e Dalí, é sabido que o poeta era homossexual, e o próprio Dalí terá confirmado ter sido alvo dos avanços de Lorca (algo comprovado na correspondência trocada entre eles), mas recusando alguma vez ter cedido. Por mais que o assunto seja polémico entre os historiadores, Philippa Goslett não teve dúvidas em seguir a sua convicção de que algo mais terá havido entre os dois homens, e em usar esse ponto de partida como base do seu drama.

Iniciando-se na chegada de Dalí à universidade, o filme de Morrison centra-se em mostrar como um então muito tímido pintor foi desabrochando nos ambientes boémios onde privava com Lorca, Buñuel e outros, e que ajudou a moldar a sua personalidade. Com o lema “sem limites” repetido em vários diálogos, significando a sede de viver, descobrir, quebrar fronteiras e arriscar, de uma geração que sentia estar a refazer o mundo sem tabus (note-se como o título da versão espanhola é “Sin limites”, ao passo que o da versão original é uma referência ao quadro “Cenicitas”, de 1928), o filme mostra-nos um conjunto de jovens com tudo para aprender, e muito a arriscar. Se Lorca é já um poeta publicado, e uma espécie de menino-prodígio dos seus colegas, no lado emocional ainda tem muito a descobrir, principalmente quando os seus sentimentos se acendem por Dalí. Já este, surpreendido por tanta novidade, aceita inicialmente a relação com o poeta – elogiosa, dado o carisma do daquele – para aos poucos se arrepender e envergonhar. Aqui convém salientar o papel de Buñuel, que Morrison e Goslett pintam como homofóbico, ou talvez usando isso para esconder um ciúme, já que privava inicialmente com Lorca, e é ele quem “recruta” Dalí, para depois os ver afastarem-se de si. Será ele a desculpa para a separação, quando Dalí o segue para Paris, para aburguesar o seu modo de vida, ceder ao surrealismo, experimentando inclusivamente o cinema e afastando-se assim de Lorca, mesmo que nunca o consiga esquecer. Note-se ainda como o filme sugere que o título do filme “Um Cão Andaluz” (Le Chien Andalou, 1929), de Buñuel e Dalí, é um insulto a Lorca.

Por razões políticas, com o advento do franquismo, Buñuel e Dalí viriam a antagonizar-se, e o filme mostra mesmo uma reaproximação entre Buñuel e Lorca. De notar que o poeta viria a ser morto pelas forças nacionalistas, discutindo-se ainda hoje se por motivos políticos, já que vários dos seus textos faziam o elogio de ideais de esquerda, se por homofobia.

Com uma fotografia brilhante, com particular atenção aos espaços, ambientes e usando a pintura de Dalí esparsamente, “Little Ashes” centra-se nas relações entre os protagonistas, quase como peça teatral, recorrendo a divertidas colagens de imagens (às vezes de arquivo) para fazer andar a cronologia e como janela para outros acontecimentos. Com um Javier Beltrán que chega a lembrar o verdadeiro Lorca, numa interpretação exuberante e apaixonada, e Robert Pattinson mais comedido entre uma extravagância envergonhada e uma curiosidade quase cómica, o filme vive das tensões e descobertas do par, com uma série de momentos de conjunto que servem de olhares para a sociedade contemporânea, e espaço para a contemplação, provinda da incontornável poesia de Lorca, geralmente lida em espanhol pelo próprio Beltrán, que depois dobra a sua voz em inglês.

Arte, decadência, descoberta, exuberância, desejo, amor, traição, são por isso temas recorrentes, tanto na história pessoal dos protagonistas, como na Espanha de então, que eles, sem querer ecoam.

Robert Pattinson e Javier Beltrán em "Little Ashes" (2008), de Paul Morrison

Produção:

Título original: Little Ashes; Produção: Factotum Barcelona S.L. / Aria Films / Met Film / APT Films / Regent Entertainment / Katapult Film Sales / TVE / Televisió de Cataluñya; Produtores Executivos: Stephen P. Jarchow, Paul Colichman, Debbie Stasson, Luke Montagu, Keith Hayley (DIII LLP), Charlie Savill (DIII LLP), Robert Bevan (DIII LLP); País: Reino Unido / Espanha; Ano: 2008; Duração: 112 minutos; Distribuição: Kaleidoscope (Reino Unido), SOROlla Films (Espanha), Regent Releasing (EUA); Estreia: 7 de Outubro de 2008 (Raindance Film Festival), 8 de Maio de 2009 (Espanha).

Equipa técnica:

Realização: Paul Morrison; Produção: Carlo Dusi, Jonny Persey, Jaume Vilalta; Co-Produção: Philippa Goslett, Stewart Le Marechal; Produtores Associados: Moira Campbell, Vaishnavi Brassey [como Pikka Brassey], Nick Leese, Tony Defries; Argumento: Philippa Goslett; Música: Miguel Mera; Fotografia: Adam Suschitzky; Montagem: Rachel Tunnard; Design de Produção: Pere Francesc; Cenários: Francisco Gámez, Damián Ezequel Turovezky; Figurinos: Antonio Belart; Caracterização: Patricia Reyes; Efeitos Visuais: Simon Kilroe; Direcção de Produção: Marion Comengre (Met Film Ltd).

Elenco:

Javier Beltrán (Federico García Lorca), Robert Pattinson (Salvador Dalí), Matthew McNulty (Luis Buñuel), Marina Gatell (Margarita Manso), Esther Nubiola (Adela), Bruno Oro (Paco), Simón Andreu (Fernando de Valle), Vicky Peña (Tia de Magdalena), Arly Jover (Gala), Marc Pujol (Carlos), Rubén Arroyo (Rafael), Diana Gómez (Ana María), Pep Sais (Professor de Arte), Joan Picó (Jovem Oficial), Ferran Audí (Guarda 1), Adria Allue (Guarda 2), Ferran Lahoz (Senhor Milagro), Christian Rodrigo (Jovem Jornalista), Sue Flack (Senhora), Adrian Devant (Bonecreiro), Ramon Enrich (Professor), Xavi Siles (Homem), Philippa Goslett (Irmã de Federico), Hannah Rútzou (Irmã de Federico), Paco Alonso (Cantor Cigano).