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Girl with a Pearl Earring Imaginando a história do famoso quadro de Vermeer “Rapariga com Brinco de Pérola”, o filme de Peter Webber conta-nos a história de Griet (Scarlett Johansson), a rapariga que é enviada como criada para casa do pintor Johannes Vermeer (Colin Firth). Humilde, submissa e discreta, Griet resigna-se sem problemas à sua nova condição, mas não deixa de sentir uma enorme atracção pela actividade do seu senhor. Apercebendo-se disso, e da apetência da rapariga para entender e trabalhar tintas, Vermeer tenta tê-la por perto o máximo de tempo possível, numa cumplicidade implícita que o leva a desejá-la como modelo.

Análise:

Com base no romance homónimo de Tracy Chevalier, Paul Webber reconstruiu uma Holanda da segunda metade do século XVII para dar vida ao tempo e realidade do pintor holandês Johannes Vermeer (1632–1675), mestre do uso subtil da luz e texturas, na composição de delicadas cenas domésticas. Tudo terá partido da iniciativa da argumentista Olivia Hetreed, que, ao ler o livro, gostou da ideia de olhar para a pintura de Vermeer através da história fictícia da criação de um dos seus quadros mais famosos, com isso, imaginando a história da modelo nele representada, e da qual nada hoje se sabe.

Em Delft, Holanda, 1665, Griet (Scarlett Johansson) é a submissa filha de um pintor, agora doente e cego, pelo que a queda da sua casa leva a família a entrega-la como criada doméstica. Cabe-lhe servir numa casa que tem a particularidade de ser a do também pintor Johannes Vermeer (Colin Firth). Aí Griet adapta-se à sua nova condição, com humildade, aprendendo a sua posição, regateando pela carne no talho, ganhando o interesse do filho do talhante (Cillian Murphy), e obedecendo à patroa (Judy Parfitt), a qual é mãe da senhora Catharina Vermeer (Essie Davis), sempre distante e muitas vezes grávida. Mas o interesse de Griet recai no estúdio do patrão, e a curiosidade e à vontade com tintas, leva Vermeer a chamá-la para perto de si. De conversas curiosas, passa-se ao interesse pelos temas, e o pintor vê em Griet uma musa que quer pintar. Isto é tornado mais claro quando o seu patrono, Van Ruijven (Tom Wilkinson), insiste em Griet como modelo de um quadro de conjunto. Vermeer aproveita para pintar um segundo quadro só com Griet, em segredo, com a ajuda da sogra. Só que Catherine descobre e sente-se traída, expulsando Griet de sua casa, a qual recebe, em compensação, os brincos de pérola que usara ao posar para o quadro do seu patrão.

Filmando em cenários naturais na Holanda, Bélgica e Luxemburgo, para tentar aproveitar alguns cenários que trouxessem de volta o espírito do século XVII, Peter Webber preocupou-se, sobretudo, com a construção de uma época – o citado século – e um contexto – a vida doméstica de uma pessoa da categoria social de Johannes Vermeer. Por isso, o filme inicia-se com a explicação da razão pela qual a família de Griet tem de fazer dela uma empregada de servir, e continua com a sua entrada na casa dos Vermeer, e no seu assumir das tarefas domésticas. Estas, da escolha da carne no talho à lavagem da roupa, parecem quase dignas da pintura de Pieter Bruegel, o Velho, lembrando-nos o quanto a pintura holandesa, por força do Protestantismo, divergiu tanto da Católica da altura, dada a pintar cenas religiosas. Por seu lado, o norte da Europa centrava-se no retratismo, paisagismo e cenas domésticas, as quais fornecem muito do material para a reconstituição que hoje pode ser feita no cinema.

Com intenção traída pelo próprio título, “Rapariga com Brinco de Pérola” apresenta-se como um filme que é um caminho para o culminar óbvio: o momento retratado no quadro que lhe dá o nome. Baseado num romance de Tracy Chevalier, é importante salientar que, embora o livro e o filme tentem retratar, de forma tão fiel como possível, a Holanda de 1665, a personagem Griet é puramente ficcional. De facto, dos 36 quadros conhecidos de Vermeer, nenhuma das modelos foi até hoje identificada. Mas, claro, o poder da sugestão é forte, e com tão emblemático rosto na tela, não espanta que alguém tentasse contar a sua história, fazendo dessa história um olhar para o mundo de Vermeer.

Decididamente um filme de época, que se verga a esse retratar como objectivo principal, o filme de Peter Webber tem um olhar reverencial sobre a pintura (de Vermeer e não só), numa fotografia em tons de pastel, e composições de interiores que nos lembram pinturas holandesas e belgas de Brueghel a Rubens, de Rembrandt a Vermeer, com as poses de retratos, os detalhes da cozinha e a subtileza do vestuário, sempre em plano principal, assim como o papel da luz, a posição dos motivos em relação às janelas e os jogos de tonalidades num chiaroscuro bem definido e central.

Nesse sentido, a narrativa pessoal parece quase secundária, mercê de um lento desenvolvimento – note-se quantos minutos passam até vermos Colin Firth e de facto alguma coisa acontecer –, que pouco mais mostra que Griet a conhecer o seu novo mundo. Tudo se transforma quando Vermeer repara em Griet, e dá-se aí o nascimento de um enredo que é apenas subliminar, o de uma relação que talvez só exista na nossa mente.

De facto, os episódios mostram-nos um interesse – digamos, profissional – de Vermeer na jovem criada. Esta, nitidamente, sabe algo de tintas, pois (como vemos no início) o seu pai havia sido pintor, e chega a falar de luz e composição, o que inspira Vermeer a pintá-la. Por outro lado, nós podemos intuir muito mais nas entrelinhas, seja na forma como Vermeer reage quando imagina Griet a ser tomada pelo seu patrono, Van Ruijven, seja nos olhares trocados, no quanto a presença de Griet parece animar Vermeer, e no como este faz os possíveis para que ela passe mais tempo consigo. Por fim temos todo o subliminar conjunto de jogos que se vai estabelecendo em momentos como o sensual explorar da imagem sob os mantos da camera obscura, o metafórico deflorar de Griet às mãos (literalmente) de Vermeer, quando este lhe fura as orelhas, ou a (também metafórica) traição, quando os brincos da senhora Vermeer são usados às escondidas, com o perverso conluio da sua própria mãe.

Analisando esses momentos literalmente, eles parecem demasiado directos e inocentes para merecer tal reacção de Catharina Vermeer, que vai determinar o despedimento de Griet da pior forma para uma criada da época: a suspeição de comportamentos promíscuos. Mas esquecendo essa abordagem literal, podemos perceber, nas tais entrelinhas, como muito está a ser jogado nos momentos, olhares, pequenos gestos, intenções e desejos, num filme que, assim, funciona principalmente no que nos é dado a intuir. Isso é um dos trunfos do filme, que foge deliberadamente ao descrever de uma relação cliché, consumada perante os nossos olhos. Quando Catharina finalmente vê o quadro e o descreve como obsceno, percebemos o quanto está em jogo, mesmo que literalmente não seja óbvio.

Convém, portanto, além de toda a fotografia, cenografia e guarda-roupa, elogiar as interpretações de Colin Firth, no discreto pintor, e de Scarlett Johansson – então com 23 anos, em início de carreira e acabada de sair das filmagens do filme que lhe deu projecção internacional: “O Amor É um Lugar Estranho” (Lost in Translation, 2003), de Sofia Coppola – no papel da jovem ingénua que nos mostra sempre alguém desadequado e muito temeroso. De notar que nenhum dos dois foi escolha inicial, num filme que começou como projecto para Mike Newell com Kate Hudson e Ralph Fiennes, no qual Hudson terá recusado as roupagens da época de toucas e véus, o que veio a atrasar todo o processo, resultando em adiamentos e em novas contratações.

Finalmente, uma palavra para a belíssima banda sonora de Alexandre Desplat, a primeira deste compositor para um filme fora do seu país, num filme que acabou nomeado para dez BAFTA, três Oscars e dois Globos de Ouro.

Scarlett Johansson e Colin Firth em "Rapariga com Brinco de Pérola" (Girl with a Pearl Earring, 2003), de Peter Webber

Produção:

Título original: Girl with a Pearl Earring; Produção: Pathé Pictures International / UK Film Council / Archer Street Productions / Delux Productions / Inside Track / Film Fund Luxembourg / Wild Bear Films; Produtores Executivos: François Ivernel, Cameron McCracken, Duncan Reid, Tom Ortenberg, Peter Block, Daria Jovicic, Philip Erdoes, Nick Drake; País: Reino Unido / Luxemburgo; Ano: 2003; Duração: 100 minutos; Distribuição: Lions Gate Films; Estreia: 31 de Agosto de 2003 (Festival de Telluride, EUA), 12 de Dezembro de 2003 (EUA), 12 de Feveveriro de 2004 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Peter Webber; Produção: Andy Paterson, Anand Tucker; Co-Produção: Jimmy de Brabant, Matthew T. Gannon, Jason Constantine; Produtores Associados: Anna Campeau, Rebby Gregg; Argumento: Olivia Hetreed [a partir do livro de Tracy Chevalier]; Música: Alexandre Desplat; Fotografia: Eduardo Serra [cor por Technicolor]; Montagem: Kate Evans; Design de Produção: Ben van Os; Direcção Artística: Christina Schaffer; Cenários: Todd van Hulzen, Cecile Heideman; Figurinos: Dien van Straalen; Caracterização: Jenny Shircore; Efeitos Especiais: Alain Couty; Efeitos Visuais: Paul Edwards (Cinesite); Direcção de Produção: Benedicte Hermesse [como Benedicte Humbel], Jos van der Linden (Holanda).

Elenco:

Colin Firth (Johannes Vermeer), Scarlett Johansson (Griet), Tom Wilkinson (Van Ruijven), Judy Parfitt (Maria Thins), Cillian Murphy (Pieter), Essie Davis (Catharina), Joanna Scanlan (Tanneke), Alakina Mann (Cornelia), Chris McHallem (Pai de Griet), Gabrielle Reidy (Mãe de Griet), Rollo Weeks (Frans), Anna Popplewell (Maertge), Anaïs Nepper (Lisbeth), Melanie Meyfroid (Aleydis), Nathan Nepper (Johannes), Lola Carpenter (Bebé Franciscus), Charlotte Carpenter (Bebé Franciscus), Olivia Chauveau (Bebé Franciscus), Geoff Bell (Paul, O Talhante), Virginie Colin (Emilie Van Ruijven), Sarah Drews (Filha de Van Ruijven), Christelle Bulckaen (Ama de Leite), John McEnery (Boticário), Gintare Parulyte (Modelo), Claire Johnston (Mulher de Cabelo Branco), Marc Maes (Cavalheiro Idoso), Robert Sibenaler [como Pere Robert Sibenaler] (Padre), Dustin James (Criado), Joe Reavis (Criado), Martin Serene (Sargento), Chris Kelly (Gay Blade).