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Frida Biografia da pintora mexicana Frida Kahlo (1907–1954), o filme mostra-nos uma jovem determinada (Salma Hayek), que sobrevive a um acidente muito debilitante, para se assumir pelas diferenças em relação às convenções sociais e familiares. A sua relação com o também pintor Diego Rivera (Alfred Molina), com quem viria a casar, é um ponto de viragem, dando-lhe mais força para pintar e partilhar a vida boémia e intelectual do marido, mas nunca deixando a a amargura de saber que ele a trai repetidamente, o que a atira também para relações extra-conjugais com homens e mulheres.

Análise:

Conhecida no cinema, sobretudo por várias adaptações – algo controversas – de peças de William Shakespeare, Julie Taymor trouxe-nos, em 2002, um olhar sobre a vida da pintora mexicana Frida Kahlo (1907–1954). Adaptando uma biografia da pintora escrita por Hayden Herrera, Taymor contou com a também mexicana Salma Hayek no principal papel, e como uma das produtoras de um filme que contou com um rico elenco, e vastos meios de produção, isto depois de Nancy Hardin acalentar o projecto durante algum tempo, suportando diversas falsas partidas durante as quais várias companhias e pessoas estiveram a um passo de se envolver, incluindo Madonna (como protagonista) e Robert De Niro (como produtor). Foi com o interesse da própria Salma Hayek e o concurso do hoje infame Harvey Weinstein, da Miramax, que o projecto levantou voo, já com Julie Taymor ao leme.

Estudante rebelde, e já fascinada por pintura, e pela rebeldia de Diego Rivera (Alfred Molina), começamos por ver Frida Kahlo (Salma Hayek), como estudante, nos anos 20, quando sofre um acidente quase mortal, do qual, com grande determinação consegue sair, voltando a andar, quando os médicos não o vaticinavam, mas que lhe traria problemas para o resto da vida. Decidida a fazer-se notar, Frida mostra a sua obra a Rivera, e consegue, não só a aprovação dele, mas o seu interesse romântico. Mesmo sabendo que ele é um mulherengo, que já se divorciou duas vezes, tem vários filhos, e uma ex-mulher (Valeria Golino) que ainda o atormenta, Frida aceita casar com ele, trocando fidelidade (que nunca terá) por uma promessa de lealdade. Mas as traições sucedem-se ao ritmo do crescimento da fama de Rivera, em breve chamado a expor em Nova Iorque, onde ofende o seu patrono Nelson Rockfeller (Edward Norton) com um mural comunista. Com ambos envolvidos em relações extra-conjugais (Frida com homens e mulheres), a gota de água acontece quando Rivera seduz Cristina, a irmã de Frida (Mía Maestro). O casal mantém aparências para receber o refugiado Leon Trotsky (Geoffrey Rush), que acaba na cama de Frida, algo de que arrepende. Com os atentados à vida de Trotsky a gerarem acusações a Rivera este decide deixar temporariamente o México, voltando mais tarde, para uma Frida em saúde deteriorada, que o aceita de volta, num momento em que a sua obra começava a ser descoberta.

Filmado em cenários naturais, no México, “Frida” incide sobre a relação conflituosa de Frida Kahlo e Diego Rivera, num colorido e grandiosidade evocativos do país que os dois pintores tanto retrataram. Isto equivale a dizer que o filme é, essencialmente, as interpretações de Salma Hayek e Alfred Molina (o qual terá engordado 23 kg propositadamente para este papel), o que valeria à primeira uma nomeação ao Oscar de Melhor Actriz, e um colar da própria Frida, oferecido pela sobrinha desta, muito emocionada pela prestação da actriz.

Notável pela coragem que a fez quebrar barreiras de género, assumindo-se como pintora num mundo masculino, bebendo e fumando publicamente, acompanhando o marido na sua vida boémia e intelectual (ambos conhecidos esquerdistas), capaz de surgir vestida com roupas de homem, e vivendo relações extra-maritais quer com homens, quer com mulheres, Frida Kahlo englobou na sua pintura algum do surrealismo que caracterizava Rivera, para, num colorido evocativo do folclore do seu país, se assumir como motivo central da sua obra, composta de muitos auto-retratos.

Em “Frida” vemo-la como uma mulher independente, que se liberta das amarras das expectativas e tradições familiares, para se entregar mais tarde a Rivera, não por convenção ou obrigação, mas por ver nele um par, tanto romântico como intelectual. Conhecido pelas suas infidelidades, e já duas vezes divorciado, Rivera vai continuar a trair a nova esposa, o que, embora tenha a aceitação de ambos para a situação, vai minando a relação.

Com momentos de excessivo dramatismo – como a sequência do acidente do eléctrico –, o filme de Taymor tem como principal mérito o saber integrar a cor e folclore mexicanos (e a música também, numa banda sonora de Elliot Goldenthal, marido da realizadora), fazendo uso da pintura para chegar a várias sequências – por exemplo o quadro “Frieda e Diego Rivera” (1931) converte-se num plano do casamento, e “As Duas Fridas” (1939) evolui à nossa frente com Salma Hayek dentro dele –, ou, ao contrário, mostrando momentos do filme tornarem-se quadros – uma cena na banheira tornar-se-á “O que a Água Me Deu” (1938), e os coletes metálicos que a ajudavam a manter a postura tornaram-se “A Coluna Quebrada” (1944). Essa mescla entre filme e pintura (numa fotografia brilhante, que às vezes nos confunde sobre o que estamos a ver) mostra uma mulher que via, sentia e se expressava através do seu pincel, numa interpretação de Hayek que mostra uma Frida Kahlo, madura, forte e segura de si, mas frágil e carente em iguais medidas. Por outras palavras, “Frida”, sendo um filme sobre uma pintora, é um filme feito de pintura, a dos quadros de Frida Kahlo que integra e a dos planos que “pinta” de modo inventivo – veja-se a sequência do pós-acidente com animação, as colagens com que se ilustra a viagem a Nova Iorque e a cena final da morte de Kahlo, contada entre pinturas animadas e folclore.

Não resistindo a ilustrar certos momentos icónicos da vida do casal – como o convites de Nelson Rockfeller (interpretado por Edward Norton) e o acolhimento ao refugiado Leon Trotsky (Geoffrey Rush) – “Frida” conta-se, principalmente pelo modo como a relação de Frida e Rivera vai evoluindo, e como lidam (em conjunto ou um contra o outro) com as situações que a vida lhes atira, e que vão das posições políticas internas, ao reconhecimento da sua pintura, ele mais ostensivo, pintando grandiosos murais, ela mais reservada, pintando sobretudo para si própria, sendo descoberta apenas muito mais tarde.

O filme, que conta ainda com Ashley Judd como a fotógrafa italiana Tina Modotti, Valeria Golino, como Lupe, a ex-mulher de Rivera que se torna amiga de Frida, e Antonio Banderas, como o marxista Siqueiros, foi bem recebido pela crítica e público, garantindo seis nomeações aos Oscars, e tendo vencido nas categorias de Melhor Caracterização e Melhor Banda Sonora.

Acrescente-se por curiosidade que Chavela Vargas, a cantora idosa que vemos cantar ‘La Llorona’, foi amante de Frida Kahlo na vida real.

Salma Hayek em "Frida" (2002), de Julie Taymor

Produção:

Título original: Frida; Produção: Miramax Films /Ventanarosa Productions / Lions Gate Films / Handprint Entertainment /; Produtores Executivos: Margaret Rose Perenchio, Brian Gibson, Mark Amin, Mark Gill, Jill Sobel Messick, Amy Slotnick; País: EUA / Canadá / México; Ano: 2002; Duração: 123 minutos; Distribuição: Miramax (EUA), Buena Vista International; Estreia: 29 de Agosto de 2002 (Festival de Veneza, Itália), 25 de Outubro de 2002 (EUA), 4 de Abril de 2003 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Julie Taymor; Produção: Sarah Green, Salma Hayek, Jay Polstein, Lizz Speed, Nancy Hardin, Lindsay Flickinger, Roberto Sneider; Co-Produção: Ann Ruark; Argumento: Clancy Sigal, Diane Lake, Gregory Nava, Anna Thomas [a partir do livro “Frida: A Biography of Frida Kahlo” de Hayden Herrera]; Música: Elliot Goldenthal; Orquestração: Robert Elhai, Elliot Goldenthal; Fotografia: Rodrigo Prieto [fotografia digital, cor por DeLuxe]; Montagem: Françoise Bonnot; Design de Produção: Felipe Fernández del Paso; Direcção Artística: Bernardo Trujillo; Cenários: Hania Robledo; Figurinos: Julie Weiss; Caracterização: Judy Chin; Efeitos Especiais: Alejandro Vazquez; Efeitos Visuais: Amoeba Proteus; Direcção de Produção: Rafael Cuervo.

Elenco:

Salma Hayek (Frida Kahlo), Alfred Molina (Diego Rivera), Valeria Golino (Lupe Marín), Mía Maestro (Cristina Kahlo), Roger Rees (Guillermo Kahlo), Diego Luna (Alejandro ‘Alex’), Patricia Reyes Spíndola (Matilde Kahlo), Margarita Sanz (Natalia Trotskaya), Geoffrey Rush (Leon Trotsky), Antonio Banderas (David Alfaro Siqueiros), Edward Norton (Nelson Rockefeller), Amelia Zapata (Criada), Alejandro Usigli (Professor), Lucia Bravo (Modelo no Auditório), Loló Navarro (Nanny), Fermín Martínez (Pintor no Autocarro), Roberto Medina (Dr. Farril), Ashley Judd (Tina Modotti), Lila Downs (Cantora de Tango), Martha Claudia Moreno (Mulher no Casamento), Maria Ines Pintado (Mulher no Casamento), Aida López (Criada de Lupe), Ivana Sejenovich (Modeno na Capela), Diego Espinosa (Cantor em Pulquería), Ehécatl Chávez (Jovem Bêbedo), Elliot Goldenthal (Repórter de Notícias – voz), Saffron Burrows (Gracie), Didi Conn (Empregada de Mesa), Julian Sedgwick (Repórter em Nova Iorque), William Raymond (Médico em Nova Iorque), Jorge Guerrero (Padre no Funeral), Mary Luz Palacio (Isolda), Omar Chagall [como Omar Rodriguez] (André Breton), Anthony Alvarez (Guarda-costas de Trotsky), Enoc Leaño (Guarda-costas de Trotsky), Karine Plantadit [como Karine Plantadit-Bageot], Chavela Vargas (Morte ‘La Pelona’), Jorge Zepeda (Detective).