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Goya en Burdeos No final da sua vida, exilado em Bordéus por ser um opositar da governação absolutista de Fernando VII de Espanha, o pintor Francisco Goya (Francisco Rabal), então com 82 anos, vive entre as suas aflições presentes – uma crescente senilidade e o desgosto de uma surdez debilitante – e memórias da sua vida passada. Com os cuidados da jovem esposa Leocadia (Eulàlia Ramon) e da pequena filha de ambos, Rosario (Dafne Fernández), Goya recorda como em jovem (Jose Coronado), frequentou a corte de Carlos IV, viveu um grande amor pela bela Duquesa de Alba (Maribel Verdú), e descobriu a sua vocação de pintor.

Análise:

Co-produção hispano-italiana, com importante participação das duas estações de televisão públicas daqueles países, respectivamente RTE e RAI, “Goya en Burdeos” é a visão peculiar de Carlos Saura sobre os últimos dias do pintor espanhol Francisco Goya (1746-1828), vulto importante da transição entre o século XVIII e XIX quando Neoclassicismo e Romantismo eram as correntes dominantes.

O filme de Saura começa por nos mostrar um Goya (Francisco Rabal) de 82 anos, acamado, semi-senil, sem saber exactamente onde está. Numa perfeita desconstrução de espaços cénicos, o seu quarto desemboca numa rua de Bordéus, onde o pintor deambula até ser levado de volta a casa, onde reconhecemos que está sob os cuidados da jovem esposa Leocadia (Eulàlia Ramon) e a filha de ambos, a arguta e assertiva Rosario (Dafne Fernández). Surdo, devido a uma doença que lhe tolheu a audição aos 42 anos, Goya vai continuando a pintar, vivendo entre recordações e fantasias de outros tempos. Entre passado e presente, vemos as suas reuniões conspiratórias contra Fernando VII. Entre as suas memórias, vemos um Goya jovem (Jose Coronado), o modo como frequentou a corte, conheceu a bela Duquesa de Alba (Maribel Verdú), por quem se apaixonou, e de como a obra de Velásquez o inspirou a querer pintar. Por entre essas viagens, vemos os eventos e momentos que se tornam os seus quadros.

Começando pela fotografia, notando que esta pertence ao famoso Vittorio Storaro (que trabalhou, entre outros com Bernardo Bertolucci, Francis Ford Coppola e Woody Allen), aqui, pela terceira vez com Saura, há o conhecido procurar de cores quentes, em paletas que, apesar de escuras, conseguem sempre subtis texturas, como se por entre os planos do filme conseguíssemos adivinhar tons e ambientes dos quadros de Goya, um pintor conhecido por temas negros e carregados de mistério.

Sem ser necessariamente uma biografia de Francisco Goya demasiado preocupada com o rigor cronológico, “Goya en Burdeos” é, quase, um filme que tenta olhar para o interior de um homem, nas suas obsessões, idiossincrasias, desígnios e limitações. Nesse sentido, o olhar para o passado, para o jovem Goya que lutou para subir na corte de Carlos IV, é acima de tudo o estabelecer de um confronto entre a época dos sonhos e devaneios de juventude com a dura realidade da velhice. Se por um lado é o amor perdido que Goya nunca esqueceu a lembrá-lo de que não concretizou o que mais desejava, por outro, o exílio como um fracasso político, na incapacidade de lutar contra o absolutismo, e a sua própria condição física, são evidências de que os sonhos de juventude nunca se vão concretizar como queríamos.

Tudo isto nos é mostrado em cenários ricos, de interiores que tanto podem ser opulentos palácios reais, como estranhas oficinas, ou um quarto de Goya que tem algo de surreal na cor (sobretudo na luz) e decoração que o definem. Esse lado mais barroco, feérico mesmo, nunca é mostrado com timidez, dando motivo para vejamos alguns planos transformarem-se em quadros de Goya, explicando-se assim o grotesco, misterioso e tétrico que o pintor tantas vezes privilegiava (veja-se, o repetidamente citado quadro “Saturno devorando um filho”).

Na sua conhecida forma não linear de narrar, Carlos Saura pinta-nos um filme com uma fotografia belíssima, onde a imaginação e alguma fantasia ditam os caminhos narrativos, onde o lado contemplativo de uma acção lenta e dada a introspecções se sobrepõe a uma história simples e objectiva. No final, ficamos com a impressão que essa viagem sinuosa que o filme nos possibilita (onde passagens entre real e imaginário, entre memórias e fantasias, nem sempre são claras), mais não foi que uma forma de Goya tentar lidar consigo mesmo, no evitar da sua própria morte, e no reconhecimento daquilo de que se poderia ainda orgulhar em vida.

Francisco Rabal em "Goya en Burdeos" (1999), de Carlos Saura

Produção:

Título original: Goya en Burdeos; Produção: Lolafilms
Italian International Film / RAI Radiotelevisione Italiana / Vía Digital / Televisión Española (TVE); País: Espanha / Itália; Ano: 1999; Duração: 100 minutos; Distribuição: Lolafilms Distribución (Espanha), Italian International Film (Itália), Sony Pictures Classics (EUA); Estreia: 4 de Setembro de 1999 (Festival de Montréal Film, Canadá), 12 de Novembro de 1999 (Espanha), (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Carlos Saura; Produção: Andrés Vicente Gómez; Co-Produção: Fulvio Lucisano; Argumento: Carlos Saura, Luigi Scattini (diálogos da versão italiana); Música: Roque Baños; Orquestração: ; Fotografia: Vittorio Storaro [filmado m Technovision]; Montagem: Julia Juaniz; Design de Produção: Pierre-Louis Thévenet; Direcção Artística: ; Cenários: Luis Ramírez; Figurinos: Pedro Moreno; Caracterização: José Quetglás; Efeitos Especiais: Ángel Alonso; Efeitos Visuais: Fabrizio Storaro; Coreografia: Matilde Coral; Direcção de Produção: Carmen Martínez Rebé.

Elenco:

Francisco Rabal (Goya), Jose Coronado (Goya Jovem), Maribel Verdú (Duquesa de Alba), Eulàlia Ramon (Leocadia), Dafne Fernández (Rosario), Emilio Gutiérrez Caba (José de la Cruz), Joaquín Climent (Moratín), Manuel de Blas (Salcedo), Carlos Hipólito (Juan Valdés), Pedro Azorín (Braulio Poe), Joan Vallés (Novales), Cristina Espinosa (Pepita Tudó), Paco Catalá (Asensio), Saturnino García (Cura e San Antonio), Josep Maria Pou (Godoy), Franco di Francescantonio (Doctor en Andalucía), José Antonio (Bailarino Duques de Osuna), Mario De Candia (Bayeu), Concha Leza (Mujer en Andalucía), Jaime Losada (Gaulon), Ainhoa Suárez (Rosarito com 6 Anos), José Reche (Cadáver Assassinado), José Sáinz (Coveiro Culpado), Demetrio Julián (Padre de San Antonio), Stephane Salom (Jovem Francês), Roberto Arcilla (Gordo Francês), Lorena Pellarini (Francesa), Azucena De La Fuente (Josefina Bayeu), Bartolomé Moreno, Francisco Jesús Santillana, José Luis Chavarría, Luis Llamas, Natalie Pinot (Professora de Piano), Olivier D’Belloch (Ajudante de Gaulon), Borja Elgea (Amigo de Goya).

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