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Universos Paralelos

É já segunda-feira que chega o vigésimo episódio de Universos Paralelos, da autoria do António Araújo (Segundo Take), do José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e do Tomás Agostinho (Imaginauta).

Desta vez dedicamo-nos a analisar o universo fantasioso de Hayao Miyazaki, com especial destaque para as longas-metragens para cinema produzidas nos estúdios Ghibli, e pode ouvir-nos aqui:
podcast

 

Nas asas da imaginação de Miyazaki

Hayao Miyazaki num tributo ao seu universo de animação

12 de Julho de 1945. A cidade de Utsunomiya, no Japão, era vítima de um ataque aéreo, dizimando cerca de metade da cidade. Nesse mesmo local, e durante toda a Segunda Grande Guerra, a Miyazaki Airplane, gerida por Katsuji Miyazaki, fornecia lemes para os míticos caças Mitsubishi A6M Zero, utilizados pela Marinha Imperial Japonesa.

Tanto o bombardeamento como o trabalho desenvolvido pelo seu pai marcaram e vieram a influenciar fortemente a imaginação e o trabalho de Hayao Miyazaki, mestre da animação e da arte de contar histórias e sobre quem me debruço no presente texto.

Começou por trabalhar na Toei Animation, onde conheceu Isao Takahata, co-fundador dos estúdios Ghibli e colaborador de longa data. Durante o seu tempo nesse estúdio, e posteriormente na Nippon Animation, Miyazaki veio a desenvolver trabalhos com Takahata, como “Heidi” (Arupusu no Shōjo Haiji, 1974) e “Marco: Dos Apeninos aos Andes” (Haha o Tazunete Sanzenri, 1976). Talvez o seu trabalho mais significativo pré-Ghibli tenha sido “Conan, o Rapaz do Futuro” (Mirai Shōnen Konan, 1978), uma série televisiva de 26 episódios, sobre a história de um rapaz (e de uma rapariga e do seu amor – tema recorrente na sua obra) e das suas aventuras enquanto atravessa um mundo pós-apocalíptico, destruído pela sede de violência entre o Homem.

Existe uma certa linha contínua temática que parece unir o trabalho de Miyazaki, que começa muito antes da fundação dos estúdios Ghibli, como podemos ver em “Marco” e “Heidi” — a preocupação com a família, com os amigos ou a denúncia da simples beleza presente numa aventura — ou numa preocupação já cada vez mais estética como vemos tomar forma em “Conan”, ou de maneira bastante mais evidente no seu último filme antes da fundação dos estúdios míticos, “Nausicaä do Vale do Vento” (Kaze no tani no Naushika, 1984). “Nausicaä” é um filme quase tão indistinto dos outros filmes que Miyazaki produz durante a sua era dourada nos estúdios, que parece apenas justo atribuir ao filme uma afiliação honorária. Vai buscar a “Conan” não só os temas da guerra e as suas desastrosas consequências, como o próprio viveu em 1945, mas também dois elementos basilares do seu trabalho, a família — que de forma tão bela nos mostra que existe outra para além da de sangue — e a aventura. Introduz, no entanto, um novo e incrivelmente recorrente tema, o do voar, tanto na sua acepção mais literal, como podemos ver através da presença de várias naves e outros objectos voadores, como o planador de Nausicaä, mas também na sua face mais metafórica ou espiritual, o voar para outros mundos, o sonhar. Este sonhar é, no fundo e no princípio, o motor central do trabalho do autor. Vemo-lo tomar formas mais concretas como nos filmes em que o céu e a aviação tomam papéis essenciais na narrativa, como “Nausicaä”, “O Castelo no Céu” (Tenkû no shiro Rapyuta, 1986), “Kiki – A Aprendiz de Feiticeira” (Majo no takkyûbin, 1989), “Porco Rosso – O Porquinho Voador” (Kurenai no buta, 1992), ou de forma não só literal, mas incrivelmente realista também, n’”As Asas do Vento” (Kaze tachinu, 2013), que se não fosse o seu regresso da reforma teria sido o filme perfeito para terminar uma grande carreira. Noutros filmes, o voar projecta-se para o domínio do onírico, “A Viagem de Chihiro” (Sen to Chihiro no kamikakushi, 2001), “O Castelo Andante” (Hauru no ugoku shiro, 2004) ou “Ponyo à Beira-Mar” (Gake no ue no Ponyo, 2008) são exemplos claros disso. Onde o sonho predomina e o espectador é totalmente transportado para um mundo com poucos referentes visuais externos, enquanto que nos outros filmes supra-mencionados, a fantasia e a realidade parecem coexistir numa malha harmoniosa, temos normalmente espaços conhecidos com elementos e personagens fantasiosas, do mais sóbrio (“As Asas do Vento”) ao mais fictício (“O Castelo no Céu” / “Porco Rosso”), tendo “Nausicaä” como saudável excepção. Entre este tema central do sonho e do voo, Miyazaki parece ainda querer apresentar uma preocupação de cariz mais natural, a da defesa da Terra e dos seus recursos. O tema do ambiente é fortemente explorado em “A Princesa Mononoke” (Mononoke-hime, 1997), onde o conto toma contornos de uma fábula, da defesa da Natureza, como sendo o ponto de equilíbrio do Mundo.

Encontramos entre estes, temas outros ainda com uma enorme transversalidade: o feminismo e a presença forte de heroínas — nas palavras do próprio sobre as suas personagens femininas «valentes, raparigas auto-suficientes que não pensam duas vezes sobre lutar pelo que acreditam com todo o seu coração […] podem precisar de um amigo, de um apoiante, mas nunca de um salvador […] qualquer mulher é tão capaz de ser um herói como qualquer homem» —, a exploração narrativa de momentos de transição na vida uma pessoa, frequentemente entre a vida juvenil e adulta, e a existência de uma tragédia que incita o enredo, servindo de motivação para resolver os dilemas do herói.

Chegamos ao momento de confluência de uma carreira rica com o filme mais recente do autor, “As Asas do Vento”. Um filme que vem repescar a temática da aviação e das Grandes Guerras, tal como já tínhamos visto em “Porco Rosso”. Desta vez, e pela primeira vez, temos um filme que decorre na sua totalidade num universo reconhecível, não-mágico e inteiramente habitado por humanos. Baseia-se ainda na vida de uma personalidade histórica, Jiro Horikoshi, designer de aviões e responsável pelo mítico Mitsubishi A6M Zero, reforçando a ligação não só com o mundo real, mas também com a própria vida de Miyazaki e do seu pai. O filme continua a recorrer ao uso do onírico, para criar uma ligação entre Jiro e Giovanni Battista Caproni, outra personagem histórica, que aqui serve de mestre ao nosso herói, mas que também terá tido uma influência na vida de Miyazaki, dado que o nome Ghibli vem do avião Caproni Ca.309 Ghibli, concebido pela empresa do próprio Caproni, entrelaçando ainda mais a vida do cineasta com a vida do nosso protagonista, tornando este talvez o filme mais pessoal da sua filmografia. Mas o filme não se contém numa recriação (ficcional) da história, pois mantém toda a tradição temática e estética do animador, correspondendo a uma declaração de fé no poder dos sonhos, como força motriz do trabalho: vida, e amor num uno sem qualquer atrito — um ideal representado aqui pelo desejo de Jiro de conceber um avião impossivelmente leve e célere. Esta necessidade de canalizar os nosso sonhos para o trabalho toma, de facto, a sua forma mais concreta neste último filme, mas encontramo-la presente desde o início — não esquecer que aquilo que motiva inicialmente Pazu (d’”O Castelo no Céu”, o primeiro filme totalmente Ghibli) a procurar a cidade perdida (e curiosamente voadora) de Laputa é o desejo de ser — e quiçá reencontrar — como o seu pai, piloto e aventureiro dos céus, e de ser o primeiro a aterrar nessa cidade desaparecida.

Miyazaki não se despede com este filme, que seria um adeus incrivelmente poderoso e emocional, como o filme nos mostra, mas volta de uma curta reforma para realizar “How Do You Live?” (Kimitachi wa dô ikiru ka, 2020). A estrear por volta da altura dos Jogos Olímpicos de 2020, Miyazaki pretende com esta obra escrever uma carta ao seu neto, talvez numa tentativa de ser o parente que nunca foi para o seu filho, Gorō. O filme debruça-se sobre os vários passos que levam um rapaz a tornar-se num adulto, física e espiritualmente.

Talvez seja o melhor cineasta de animação da história, dada a profundidade e mestria dos seus filmes, como Roger Ebert apontou, mas de uma coisa podemos ter a certeza, Miyazaki é o grande defensor do poder dos sonhos, da imaginação e da vitória da perseverança perante o mesmo.

Le vent se lève!
il faut tenter de vivre!

Tomás Agostinho, Agosto de 2019.

 

Fontes primárias

Bibliografia

  • Miyazaki, Hayao (1982/1988 – 1994/1996) Nausicaä of the Valley of the Wind (Kaze no Tani no Naushika). San Francisco, California: VIZ Media LLC.

Séries de Televisão

  • Heidi (Arupusu no Shōjo Haiji, 1974): animação
  • Marco: Dos Apeninos aos Andes (Haha o Tazunete Sanzenri, 1976): animação
  • Conan, o Rapaz do Futuro (Mirai Shōnen Konan, 1978): realização e animação

Cinema (longas-metragens)

  • Lupin III: O Castelo de Cagliostro (Rupan sansei: Kariosutoro no shiro, 1979)
  • Nausicaä do Vale do Vento (Kaze no tani no Naushika, 1984)
  • O Castelo no Céu (Tenkû no shiro Rapyuta, 1986)
  • O Meu Vizinho Totoro (Tonari no Totoro, 1988)
  • Kiki – A Aprendiz de Feiticeira (Majo no takkyûbin, 1989)
  • Porco Rosso – O Porquinho Voador (Kurenai no buta, 1992)
  • A Princesa Mononoke (Mononoke-hime, 1997)
  • A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no kamikakushi, 2001)
  • O Castelo Andante (Hauru no ugoku shiro, 2004)
  • Ponyo à Beira-Mar (Gake no ue no Ponyo, 2008)
  • As Asas do Vento (Kaze tachinu, 2013)

Cinema (curtas-metragens)

  • Yuki’s Sun (Yuki no taiyô, 1972)
  • Nandarou (1992)
  • Whale Hunt (Kujira tori, 2001)
  • Mei and the Kittenbus (Mei to Koneko basu, 2002)
  • Imaginary Flying Machines (Kûsô no sora tobu kikaitachi, 2002)
  • Koro’s Big Day Out (Koro no dai-sanpo, 2002)
  • House-hunting (Yadosagashi, 2006)
  • Monmon the Water Spider (Mizugumo Monmon, 2006)
  • The Day [I] Bought A Star (Hoshi wo katta hi, 2006)
  • Mr. Dough and the Egg Princess (Pan-dane to Tamago-hime, 2010)
  • Boro the Caterpillar (2018)

 

Fontes secundárias

Cinema

  • The Kingdom of Dreams and Madness (Yume to kyôki no ôkoku, Mami Sunada, 2013): documentário sobre os estúdios Ghibli.
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