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Artemisia Nascida em 1593, em Roma, Artemisia Gentileschi (Valentina Cervi), é educada num convento na adolescência, cedo mostrando que a sua inclinação era seguir o pai (Michel Serrault) na pintura. Este dá-lhe a oportunidade de trabalhar no seu estúdio, mesmo que repreenda a vontade da filha em descobrir e desenhar o corpo nu masculino. Só que, num mundo patriarcal, Artemisia não é levada a sério, e a sua entrada na Academia de Artes é recusada. Resta-lhe aprender empiricamente com aqueles que conhece, com o pintor Agostino Tassi (Predrag ‘Miki’ Manojlovic), com o qual acaba por se envolver romanticamente.

Análise:

Produção francesa de uma história italiana, com co-produção e actores de diversos países europeus, e filmagens em Itália, “Artemisia” é o olhar da realizadora Agnès Merlet para Artemisia Gentileschi (1593-1653), pintora do barroco italiano, mulher que desbravou caminho reservado aos homens, e uma das poucas mulheres artistas do seu tempo cujo nome perdurou.

“Artemisia” inicia-se com a protagonista (Valentina Cervi) a entrar na idade adulta, num convento de freiras, onde é descoberta a desenhar o seu corpo nu às escondidas. Se as freiras pedem o seu castigo, o seu pai, o pintor Orazio Gentileschi (Michel Serrault) tem ideia contrária, e decide acolhê-la no seu estúdio, fazendo dela sua assistente. Mas se Artemisia ganha a liberdade de trabalhar em pintura – algo até então só permitido aos homens – cedo ela sente que limitar-se a cumprir as encomendas recebidas pelo pai não a satistaz. E se, de dia, pinta anjos, à noite desenha cenas de pecado, fascinada com a descoberta do corpo nu, para o que seduz o jovem pescador Fulvio (Yann Trégouët), que a troco de uns beijos posa para ela. Embora a sua pintura seja um brilhante, Artemisia é recusada na Academia das Artes de pintura por ser mulher. Tal leva-a a procurar o auxílio de Agostino Tassi (Predrag ‘Miki’ Manojlovic), o mais famoso pintor da região, e que recebe sempre as melhores encomendas, para as quais contrata às vezes os Gentileschi. Curioso com a rapariga, Tassi aceita ensiná-la, abrindo-lhe o espírito para outras formas de ver o mundo e a pintura, o que vai levá-los a tornarem-se amantes. A descoberta da relação leva a acusações de violação, e Tassi – conhecido pela fama de prosmicuidade, e de quem se vem a descobrir ter mulher em Florença, e se suspeita de relação incestuosa com a irmã – vai a julgamento. Quando Artemisia depõe a favor do amante, é aprisionada e torturada para que confesse a culpa de Tassi. Perante a recusa dela, o próprio Tassi confessa a culpa, para evitar que ela continue a ser torturada. Tassi é preso, e Artemisia continua a pintar com aquilo que aprendeu, para honrar a memória do amante.

Talvez se deva começar por dizer que “Artemisia” está longe de seguir com rigor a história hoje aceite da pintora Artemisia Gentileschi, com Agnès Merlet decidida a fazer um filme romântico, no qual usa a imagem semi-trágica da pintora para nos dar uma história de alguém que – segundo a própria realizadora – conseguia (no filme) segurar o seu destino com as próprias mãos. Assim o papel da relação com Tassi foi alterado (ou reinterpretado, se preferirmos), já que os livros nos dizem que a violação foi real, que Tassi se defendeu difamando-a, e que Artemisia foi torturada, sim, mas por o ter acusado, e com isso ofendido a mentalidade patriarcal. Mas Agnès Merlet não quis fazer dela vítima, pelo que a mostra a procurar Tassi e a dar-se-lhe sexualmente (se a primeira vez dela é algo violenta, acaba consentida, e tal violência é acidental, fruto do desconhecimento da virgindade dela), desejando a relação, e confessando o seu amor ao pintor, que acaba por se sacrificar por ela.

Romântica, é ainda a visão de uma pintora que se dedica à sua arte na busca da beleza proibida – a da nudez masculina – procurando o sexo como forma de compreender o corpo humano, e ganhando nessa descoberta um olhar mais completo para a beleza do mundo. Com a sorte de um pai compreensivo que lhe dava uma liberdade impensável para a época, a Artemisia de Merlet tem apenas um objectivo, descobrir mais sobre o desenho e a pintura das formas humanas. Divertidos são quase episódios como o do seu pretenso noivo, que a rapariga vê apenas como uma hipótese de ter um modelo nu, ou a relação com Fulvio, o qual vai agradecendo proximidade física, para perceber que não passa de um objecto aos olhos de Artemisia.

Há, por isso, toda uma busca de erotismo durante o filme, seja no modo sensual como Artemisia se desnuda ou aos seus modelos, na forma como corpo e arte se tocam, ou em todo o elogio da forma humana. E, claro, o erotismo está ainda nas festas e nus que vamos vendo nas noites de Tassi, as quais funcionam, não como sinal de pecado ou de deboche desregrado, mas como a tal janela por onde Artemisia espreita para poder entrar num conhecimento que não domina – o corpo nu como forma de vida, que é como quem diz, o sexo.

Apesar dos seus elevados valores de produção e história envolvente que nos leva a empatizar fortemente com o espírito rebelde e inocentemente aventureiro de Artemisia Gentileschi, o filme foi fortemente criticado, sobretudo nos Estados Unidos, onde houve campanhas concertadas (envolvendo criação de websites e publicação de artigos na imprensa), onde historiadores e críticos de arte reagiam à frase da Miramax Zoe de que esta era a verdadeira história e nunca contada. O assunto continua a alimentar polémica, com posições divergentes a dar origem a vários livros entretanto publicados.

Obviamente que, na linguagem moderna da relação entre Artemisia e Tassi podemos simplesmente ver ecos do século XX, com a tal visão romântica da autora a colocar no século XVII seduções amorosas e comportamentos que assentam melhor numa novela recente. Se isso, mais que a interpretação histórica, enfraquece fortemente o filme, ele ganha sobretudo pela fotografia, captura de ambientes, elogio das técnicas da época, e um proeminente chiaroscuro que nos faz parecer que grande número de planos pertencem a quadros de Caravaggio.

Note-se ainda que o quadro de Artemisia Gentileschi “Judite Decapitando Holofernes”, que vemos ser pintado e ser figura central da sua arte, numa espécie de afirmação feminista muito precoce, só foi na verdade pintado vários anos depois dos episódios narrados no filme.

Valentina Cervi e Michel Serrault em "Artemisia" (1997), de Agnès Merlet

Produção:

Título original: Artemisia; Produção: Première Heure / Schlemmer Film / France 3 Cinéma / 3 Emme Cinematografica / Canal + / Centre National de la Cinematographie / Sofigram / Sofinergie 4 / Cofimages; Produtores Executivos: Conchita Airoldi (Itália), Dino D. Dionisio (Itália); País: França, Itália, Alemanha; Ano: 1997; Duração: 97 minutos; Distribuição: PolyGram Film Distribution (França), Miramax Zoe (EUA); Estreia: 10 de Setembro de 1997 (França).

Equipa técnica:

Realização: Agnès Merlet; Produção: Patrice Haddad; Co-Produção: Christoph Hahnheiser [como Christoph Meyer-Wiel], Leo Pescarolo; Argumento: Agnès Merlet, Christine Miller, Patrick Amos [a partir de uma história de Agnès Merlet e Christine Miller]; Música: Krishna Levy; Direcção Musical: Deyan Pavlov; Fotografia: Benoît Delhomme [filmado em Panavision]; Montagem: Guy Lecorne; Design de Produção: Antonello Geleng; Cenários: Emita Frigato; Figurinos: Dominique Borg; Caracterização: Maurizio Silos; Efeitos Especiais: Fabio Traversari; Efeitos Visuais: Luc Job; Pinturas: Arnaud Troubetzkoy, Manuel Sierra Vasquez (Frescos); Direcção de Produção: Patrick Lancelot, Samanta Antonnicola.

Elenco:

Michel Serrault (Orazio Gentileschi), Valentina Cervi (Artemisia Gentileschi), Predrag ‘Miki’ Manojlovic (Agostino Tassi), Luca Zingaretti (Cosimo Quorli), Brigitte Catillon (Tuzia), Frédéric Pierrot (Roberto), Maurice Garrel (O Juiz), Emmanuelle Devos (Costanza), Yann Trégouët (Fulvio), Jacques Nolot (O Advogado), Silvia De Santis (Marisa), Renato Carpentieri (Nicolo), Sami Bouajila (Assistente de Tassi), Dominique Reymond (Irmã de Tassi), Liliane Rovère (Mulher do Mercador Rico), Alain Ollivier (O Duque), Patrick Lancelot (O Director da Academia), Rinaldo Rocco (Estudante da Academia), Enrico Salimbeni (Estudante da Academia), Catherine Zago (A Madre Superiora), Lorenzo Lavia (Assistente de Orazio), Edoardo Ruiz (Assistente de Tassi), Aaron De Luca (Assistente de Tassi), Guido Roncalli (Criado do Duque), Pierre Bechir (Filho do Mercador Rico), Massimo Pittarello (Torturador), Anna Lelio, Claudia Giannotti.