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Oviri Em 1893, o pintor francês Paul Gauguin estava de volta a França, depois dos anos de a sua conhecida amizade com Vincent Van Gogh e de uma permanência no Taiti trazerem um novo foco à sua pintura. Mas cedo, Gauguin percebe que a sua arte não é compreendida em Paris, pois afastando-se das correntes em voga, como o impressionismo, Gauguin ousa arriscar num estilo primitivista. Embora com amantes e filhos um pouco por todo o lado, Gauguin percebe que não quer raízes na Europa, e passa a mover-se num único objectivo, angariar fundos pela venda dos seus quadros, para poder regressar ao Taiti.

Análise:

Co-produção franco-dinamarquesa liderada por Henning Carlsen – responsável pela ideia original, pela produção e realização deste filme –, “Oviri”, que ganhou o subtítulo “The Wolf at the Door” (daí o seu título português “Lobo Indomável”) retrata a vida de Paul Gauguin a partir do regresso do pintor a França, após a sua permanência no Taiti.

“Lobo Indomável” inicia-se em 1893, com Paul Gauguin (Donald Sutherland) a tentar ganhar nome em Paris, montando exibições e procurando onde se estabelecer. Se no lado profissional nem a apreciação de Edgar Degas (Yves Barsacq) – seu admirador – lhe traz melhores vendas, no campo pessoal, Gauguin, tendo deixado mulher e filhos na Dinamarca, e algumas outras amantes e filhos por França e não só, estabelece-se em casa alugada à família do também pintor William Molard (Jean Yanne), que se torna seu amigo. Sob o interesse da filha adolescente deste, Judith (Sofie Gråbøl), e recebendo como oferta a empregada malaia Annah (Valeri Glandut), que se torna sua amante e motivo da sua pintura, Gauguin dedica-se a duas actividades apenas: pintar tanto quanto pode, e preparar-se para fazer o que o lhe dita o coração, regressar ao Taiti, de onde sente que nunca devia ter saído. Para tal Gauguin, que entretanto já convenceu vários dos amigos a acompanhá-lo, organiza um leilão, no qual tenta angariar dinheiro vendendo tudo o que tem, conseguindo, ironicamente, mais dinheiro nas vendas dos quadros que Van Gogh lhe dera. Por fim, depois de uma tentativa desesperada de conseguir fundos junto da esposa dinamarquesa, e de ter conhecido o dramaturgo August Strindberg (Max Von Sydow), Gauguin decide-se a abandonar a Europa, rejeitando o amor da jovem Judith, que ele vê apenas como filha.

Com o nome provindo de uma estatueta que Gauguin esculpiu em cerâmica (Oviri é a deusa da lamentação na mitologia do Taiti), o filme de Henning Carlsen busca como que uma forma de mostrar as ligações entre Paul Gauguin e a Dinamarca, com um elenco (e equipa) fortemente nórdico, onde contrasta o canadiano Donald Sutherland.

Pintor algo maldito no seu tempo, pela sua preferência por outras latitudes e elogio de modos de vida mais simples, que depois se reflectem na procura do primitivismo na sua pintura, Paul Gauguin (1848-1903), é-nos aqui retratado como um homem amargurado que foge às amarras, sejam elas sentimentais (o seu casamento, e relações amorosas a que nunca se dedica), sociais (não se coibindo de rejeitar a sociedade que o rodeia), artísticas (sentindo a necessidade de quebrar com convenções, e levar a pintura para lugares onde mais ninguém levaria) e mesmo a nível de ambições pessoais (vendo no Taiti uma espécie de paraíso terrestre onde tenta voltar, por não se rever mais na sociedade europeia). Tudo isto nos é mostrado por um Donald Sutherland que consegue ser carismaticamente forte, sem que isso o faça perder subtileza. Longe dos ideais românticos de pintores coléricos e sofredores – veja-se José Ferrer como Toulouse-Lautrec em “Moulin Rouge” (1952) de John Huston, ou Kirk Douglas como Van Gogh em “A Vida Apaixonada de Van Gogh” (Lust for Life, 1956), de Vincente Minnelli – O Gauguin de Sutherland expressa-se nas entrelinhas, nos seus olhares e silêncios, e sobretudo nas acções não tomadas (por exemplo, na doce rejeição de Judith, ou na relação sempre adiada com Juliette Huet – interpretada por Fanny Bastien – também ela mãe de um filhos seu).

Com cenários simples, mas extremamente cuidados, e um uso da luz que faz cada interior quase que matéria de um quadro, “Lobo Indomável” é, ao mesmo tempo, um manifesto da intransigência do seu protagonista pela pureza de um ideal artístico contra convenções, e também uma história de uma fuga para esse tal idealizado paraíso terrestre. Por outras palavras, o filme é um hino à liberdade individual, bem saliente na fábula do lobo e do cão que Gauguin conta a Judith a dada altura, e que serve de inspiração ao filme.

Talvez o filme peque por algum desligamento entre as suas matérias, onde uma breve relação de amizade com Strindberg, ainda que intelectualmente estimulante, surge um pouco inusitada, como também o é uma intempestiva viagem a Copenhaga para que Gauguin peça dinheiro à sua esposa Mette Gad (Merete Voldstedlund), que de outro modo quase não permitiria a que Voldstedlund e Sutherland contracenacem. Mas o filme suplanta esses momentos com as sempre presentes melancolia e poesia a nível visual, que embalam o espectador entre as decisões e opções de um pintor ainda hoje incompreendido.

Donald Sutherland em "Oviri" (1986), de Henning Carlsen

Produção:

Título original: Oviri [Título inglês: The Wolf at the Door]; Produção: Dagmar Film Produktion / Henning Dam Kargaard / Caméras Continentales / Famous French Film / TF1 Films Production; Produtores Executivos: Jean-Pierre Cottet, Claes Kastholm Hansen, Alain Moreau, Leon Zuratas; País: Dinamarca / França; Ano: 1986; Duração: 97 minutos; Distribuição: International Film Marketing (EUA); Estreia: 5 de Setembro de 1986 (Dinamarca).

Equipa técnica:

Realização: Henning Carlsen; Produção: Henning Carlsen; Argumento: Christopher Hampton [a partir de uma história de Henning Carlsen e Jean-Claude Carrière]; Música: Ole Schmidt; Fotografia: Mikael Salomon; Montagem: Janus Billeskov Jansen; Direcção Artística: André Guérin, Karl-Otto Hedal; Cenários: Jacob Wirth Carlsen; Figurinos: Charlotte Clason; Caracterização: Birte Christensen; Efeitos Especiais: Henning Bahs (chuva), Anthony Michael (lutas), François Marcepoil (pinturas), Karl-Otto Hedal (pinturas), Henrik Ljungren; Direcção de Produção: Didier Guyard.

Elenco:

Donald Sutherland (Paul Gauguin), Max von Sydow (August Strindberg), Jean Yanne (William Molard), Sofie Gråbøl (Judith Molard), Valeri Glandut (Annah), Ghita Nørby (Ida Molard), Merete Voldstedlund (Mette Gad), Solbjørg Højfeldt, Fanny Bastien (Juliette Huet), Jørgen Reenberg (Eduard Brandes), Henrik Larsen (Julien Leclercq), Morten Grunwald, John Hahn-Petersen, Jesper Bruun Rasmussen (Leiloeiro), Luis Rego, Yves Barsacq (Edgar Degas), Bill Dunn, Anthony Michael, Thomas Antoni (Jourdan), Kristina Dubin (Aline Gauguin), Lene Corell, Vivienne McKee, Jan Middelbo Outzen, Chili Turèll (Hóspede em Durandd-Ruel), Charlotte Sieling, Sara D’Ottore, Bolette Bernild, Marianne Jørgensen, Lars Uhrenfeldt, Jens Jørgen Thorsen, Jean-Claude Flamand-Barny, Dalia Safir, Jørn Faurschou, Hugo Øster, Bendtsen, Anders Hove, Erik Holmey, Hans Henrik Lerfeldt.