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Pirosmani Na Geórgia rural, longe dos grandes acontecimentos políticos das cidades, o século XIX vê surgir o pintor auto-didacta Niko Pirosmani (Avtandil Varazi). Isolado de ligações culturais, Pirosmani sente um dom que tenta expressar timidamente, enquanto procura construir uma vida “normal” estabelecendo pequenos negócios com amigos. A sua obra vai aumentando, com Pirosmani a desenvolver um estilo primitivista, cujos quadros vão ornamentando as casas e estabelecimentos comerciais dos vizinhos, até que aos poucos chamem a atenção dos visitantes que querem conhecer o misterioso pintor.

Análise:

Nikola Pirosmani (1862 – 1918) foi um pintor da Geórgia, de origem humilde, que viveu grande parte da sua vida na comunidade rural que o viu nascer, onde aprendeu sozinho a desenhar e pintar, tendo criado muitas obras num estilo primitivista que vieram a ser reconhecidas após a sua morte. Também da Geórgia, agora já em período soviético, Giorgi Schengelaia, admirador do pintor, dedicou-lhe um documentário em 1961, como sua obra de estreia como realizador. Foi já em 1969, que Schengelaia decidiu expandir essa obra para um estudo ficcional do que terá sido a vida e personalidade de Pirosmani.

O filme começa por nos mostrar como o espírito inquieto de Niko Pirosmani (Avtandil Varazi) se despede das senhoras que tomam conta dele depois da morte da sua mãe, dizendo que precisa de estar em Tiblisi, por oposição ao campo, onde já se sente preso. Anos mais tarde, vemos como viajantes reparam nas pinturas que existem nos restaurantes e tabernas locais, ofertas do pintor. De regresso à terra natal, Pirosmani convence um amigo a abrir um negócio de leite. Um dia a irmã vem à aldeia para convencer Pirosmani a casar, pois ele vive quase como eremita, mas a festa que se segue corre mal, e a noiva rejeita-o. Em consequência, Pirosmani abandona o negócio com o amigo, e recomeça a pintar, vendendo para os estabelecimentos locais que ajuda a decorar. Os contratos sucedem-se, muitas vezes humilhantes e abaixo do seu nível, com Pirosmani a lutar entre a necessidade e o orgulho de não se sentir amarrado, mas a descoberta do seu trabalho por pessoas de fora traz-lhe alguma notoriedade. Só que esse reconhecimento coloca-o sob o olhar dos críticos, que cedo mostram não compreender o seu estilo, reclamando que ele não sabe pintar. Aos poucos Pirosmani perde os seus clientes, e vai sobrevivendo como mendigo. Pelo meio, chega algum alívio, quando um dos homens que o descobriu, Lado (Amir Kakabadze), também ele um artista, lhe traz dinheiro de vários admiradores. Pirosmani consegue ainda mais um trabalho, sendo fechado numa sala para que a pinte toda, mas vem a morrer pouco depois, na mais completa pobreza.

Com um certo fulgor nacionalista, Giorgi Schengelaia faz o elogio de Nikola Pirosmani como exemplo de uma integridade difícil, nunca compreendida por quem a vê de fora, mas que não se abnega, alicerçando-se no amor à terra e aos seus princípios fundadores, mesmo quando estes – no caso, a necessidade de pintar – são estranhos ao que o rodeia. Nesse sentido, e estendendo o elogio à vida dura do pintor que homenageia, Schengelaia fez do seu filme como que uma tela de Pirosmani. Os contornos são toscos, as cores simples e limitadas, as formas são sinceras, mas parcas e tanto a narrativa como os diálogos (e pode dizer-se mesmo a interpretação), transparecem alguma inocência e pureza que reflecte a obra do pintor georgiano.

O filme acaba por ser assente num conjunto de episódios soltos, sem grande relação entre si, nem um fio temporal claro a uni-los. Por eles testemunhamos família, negócios, bares e relações de amizade, com pinceladas largas que nos dão a conhecer um pouco da Geórgia rural da transição entre os séculos XIX e XX. Sente-se que os enquadramentos são pensados como quadros, com a câmara a tomar o lugar do público num teatro, percebendo-se que os espaços, mais que realistas, são teatrais (note-se por exemplo o espaço que vai dos personagens à câmara, como se estivéssemos na boca de cena).

Tal nunca é escondido pelo autor, num filme que vai mostrando a obra de Pirosmani, como que para nos situar naquele universo que é tão próprio da tela como da Geórgia que nos surge do ecrã. Com uma tristeza muito enraizada no seu cerne, nessa luta entre o descobrir-se e ser aceite por quem se é, onde ninguém o compreende, o Pirosmani de Giorgi Shengelaia é ainda uma lição de autodeterminação, quem sabe um grito de reconhecimento de uma nação pobre e agrilhoada na máquina enorme da União Soviética.

Simples aqui, quase experimental ali, e sempre com um minimalismo de recursos, de estética e de interpretações, “Pirosmani” é um exemplo do muito que há a descobrir no antigo cinema soviético, principalmente de fora das fronteiras da Rússia.

Produção:

Título original: Pirosmani/Пиросмани; Produção: Georgian-Film, Gosteleradio USSR, Gruziya Film; Produtores Executivos: ; País: URSS; Ano: 1969; Duração: 86 minutos; Distribuição: Goskino USSR; Estreia: 28 de Dezembro 1969 (URSS).

Equipa técnica:

Realização: Giorgi Shengelaia; Argumento: Giorgi Shengelaia, Erlom Akhvlediani; Música: Nodar Gabunia, Vakhtang Kukhianidze; Fotografia: Konstantin Apryatin, Dudar Margiev, Aleksandre Rekhviashvili; Montagem: M. Karalashvili; Design de Produção: Vaso Arabidze, Avtandil Varazi; Direcção Artística: Vaso Arabidze, Avtandil Varazi; Figurinos: Gulnara Kurdiani; Caracterização: A. Ivashchenko; Efeitos Especiais: M. Gagua; Direcção de Produção: Susana Kvaratskhelia.

Elenco:

Avtandil Varazi (Niko Pirosmani), Dodo Abashidze [como David Abashidze] (Kinto, Amigo de Pirosmani), Zurab Kapianidze (Ushangi, Amigo de Pirosmani), Teimuraz Beridze (Outro Pirosmani), Boris Tsipuria (Dimitriy, Soldado), Kote Daushvili [como Shota Daushvili (Cunhado de Pirosmani), Margo Gvaramadze [como Mariya Gvaramadze], Nino Seturidze (Companhia de Pirosmani), Rosalia Mintshin, Givi Aleksandria, Aleksandre Rekhviashvili, Amir Kakabadze (Lado, O Artista).