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The Agony and the Ecstasy Na Roma do século XVI, o papa Júlio II (Rex Harrison) conduz a guerra contra os inimigos que lhe cobiçam os estados papais, enquanto na cidade se constrói a nova Catedral de S. Pedro, obra do arquitecto Bramante (Harry Andrews). A trabalhar na peça maior dessa catedral, o monumento fúnebre ao papa, está o escultor Michelangelo (Charlton Heston), a quem o papa pede que páre esse trabalho e se dedique a outro: o tecto da Capela Sistina. Contrafeito, Michelangelo tem de aceitar, mas só depois de destruir as primeiras pinturas e procurar um contrato em Instambul, para só então voltar a uma obra que levará vários anos da sua vida.

Análise:

No período que ficou conhecido como «Hollywood no Tibre», no qual os grandes estúdios de Hollywood levaram equipas de produção para Itália para aproveitarem os excelentes estúdios e técnicos locais (e paisagens idílicas) a baixo custo, surgiu a par dos grandes épicos históricos que incluem “Os Dez Mandamentos” (The Ten Commandments, 1956), de Cecil B. DeMille e “Ben-Hur” (1959), de William Wyler, um filme menos conhecido e, tal como os dois citados, protagonizado por Charlton Heston. Tratou-se de uma recriação da vida do grande escultor e pintor do Renascimento italiano Michelangelo Buonarroti (1475 — 1564). Com realização e produção de Carol Reed para a Fox, o filme baseou-se num livro de Irving Stone, autor de cujas obras já outro filme sobre pintores fora feito: “A Vida Apaixonada de Van Gogh” (Lust for Life, 1956) de Vincente Minelli.

Após um documentário sobre a obra de Michelangelo Buonarroti, somos transportados para a Roma do século XVI, com o papa Júlio II (Rex Harrison) a regressar triunfante de mais uma campanha militar, e o escultor Michelangelo (Charlton Heston) dedicadamente a esculpir o monumento fúnebre para dedicar ao papa, que o arquitecto Bramante – responsável pelo desenho da novíssima catedral de São Pedro – diz que ele não terminará em menos de 160 anos. Mas o papa tem outras intenções, e ordena a Michelangelo que páre esse trabalho e comece uma nova obra, a pintura dos tectos da Capela Sistina. Michelangelo recusa inicialmente, pois prefere esculpir do que pintar, mas, intimado pelo papa, aceita contrafeito. Insatisfeito com os resultados que está a obter, Michelangelo destrói as suas próprias pinturas e foge para Florença, disposto a deixar Itália e trabalhar em Istambul, para fugir à ira do papa. Aconselhado a voltar atrás, pelos seus amigos Medici – a Contessina de’ Medici (Diane Cilento) e o cardeal Giovanni de’ Medici (Adolfo Celi), futuro papa Leão X –, Michelangelo volta ao Vaticano, e trabalha longamente nos frescos, num empreendimento mais monumental ainda, e que leva anos, para desespero do papa que quer ver a obra pronta. Com o artista a colapsar de fadiga a certa altura, coloca-se a hipótese de o trabalho ser terminado por Rafael (Tomas Milian). O trabalho continua, mas o esforço e guerra leva o papa a terminar a encomenda, depois de mais uma violenta discussão com Michelangelo. Com o conselho de Rafael, Michelangelo procura o papa para mostrar humildade, encontrando-o ferido e à beira da derrota. Ainda assim, o papa consegue mais dinheiro para Michelangelo terminar os frescos. Quando o papa parece em fase terminal, é a vez de Michelangelo o exortar a terminar o seu trabalho, dando novo alento ao papa que estava já acamado. Os ventos de guerra mudam, e Roma é salva, com o papa a inaugurar a nova capela, e a garantir a Michelangelo a encomenda do seu monumento fúnebre. Mas pede-lhe que, antes disso, pinte um Julgamento Final para o altar.

Embora tenha o livro de Irving Stone na sua base, o filme de Carol Reed está longe de olhar para toda a vida de Michelangelo. Ao invés, procura apenas um dos capítulos do livro, para nos trazer um único episódio (ainda que demorado) dessa vida: a concepção dos frescos do tecto da Capela Sistina, no Vaticano, a qual terá levado cerca de quatro anos. E para o fazer, tendo 140 minutos de duração, Carol Reed incide principalmente em dois aspectos sucintos: as próprias pinturas, que vamos vendo ganhar forma ao longo do filme; e a relação entre Michelangelo e o papa Júlio II, o homem que encomenda a obra e que, por mais de uma vez, tem de impor a sua autoridade para obrigar o pintor a ser fiel à sua conclusão, quando este teimava que era essencialmente escultor e um trabalho de pintura era para ele algo menor.

Para além de obra épica, com banda sonora orquestral a condizer – de Alex North, com peças corais de Franco Potenza – onde não falta a tradicional intermission, e com uma codafinal musical em fundo negro, “A Agonia e o Êxtase” introduz ainda um elemento adicional. É precedido de um documentário de cerca de doze minutos e meio, onde, com narração em off vamos vendo a Roma actual e aprendendo sobre as obras que o mestre italiano nos deixou, documentário esse que não esteve sempre presente em todas as versões do filme.

Apercebendo-nos desde logo que estamos numa visita guiada à obra de Michelangelo, o filme lança-nos de imediato no ponto fulcral, a citada encomenda. Esta resulta, também imediatamente, num teimoso braço de ferro, que faz Michelangelo ver o papa – conhecido como o papa guerreiro, pelo número de batalhas que teve de travar quando os Estados Papais estavam a ser atacados por várias potências europeias – como um tirano que o aprisionava a algo que ele não queria. Mesmo que nós o pensemos nos diálogos acesos entre artista e soberano, a verdade é que, conhecendo o resultado, não deixamos de pensar desde logo que o tempo deu razão ao papa, e perdoamos-lhe os excessos tal como suspiramos de alívio ao ver Michelangelo aceitar a incumbência.

Fica então a tal relação a dois, com um Michelangelo irascível, pronto a destruir a sua própria obra só para se sentir independente, nunca parco em afrontas ao seu mecenas, e um Júlio II manipulador, intransigente nas suas ambições, mas também paciente para com a insolência do artista, sabendo talvez que mais importante que questiúnculas pessoais ou orgulhos feridos, era a obra que queria deixar à humanidade, ela mesma uma prova de divindade. Por isso, e pelo tal teste do tempo que se citou atrás, o papa vai aos poucos ganhando a nossa simpatia, e também a do escultor, que só tarde começa a perceber que aquele sempre o tratou com respeito, e como o maior e mais sincero dos seus admiradores. Não se pode deixar de ver no filme uma alegoria à relação pai-filho, onde conflitos, temosias e incompreensões de mútuas, não deixam de ser partes de um processo de evolução e aprendizagem conjunta, que nas suas constantes revelações se vai demonstrando como prova de amor.

Como é apanágio destes filmes, não faltam os muitos figurantes, guarda-roupas fabulosos, algumas paradas militares, e muitas imagens de faustosas paisagens, mesmo que algumas tenham apenas uma função poética e não narrativa. Impedido de filmar no Vaticano, pois necessitava de construir andaimes na Capela Sistina, Carol Reed recorreu aos estúdios de Dino De Laurentiis, onde construiu a sua própria Capela, como esta era antes da intervenção de Michelangelo, para aí podermos admirar o estaleiro de obras, e a lenta evolução do trabalho, até ao resultado final.

Se a ideia de dar vida à concepção de uma das obras mais emblemáticas da criação artística humana era já de si ganhadora, é, ainda assim, o confronto entre Charlton Heston e Rex Harrison – que, consta, se odiavam mutuamente –, em interpretações apaixonadas e carismáticas, que constitui o cerne do filme de Carol Reed.

“A Agonia e o Êxtase” acabou por não recuperar na bilheteira o dinheiro investido, tendo sido criticado, quer pela interpretação pesada de Heston, quer pela história pouco entusiasmante. Acabou nomeado para cinco Oscars em categorias técnicas, não vencendo nenhum. Venceria sim o David di Donatello para Melhor Filme Estrangeiro, atribuído pela indústria italiana.

Destaque ainda, para a presença no elenco – no papel do não menos famoso pintor Rafael Sanzio –, de Tomas Milian, um actor de culto nalguns dos mais famosos westerns spaghetti da década de 60.

Charlton Heston e Rex Harrison em "A Agonia e o Êxtase" (The Agony and the Ecstasy, 1965), de Carol Reed

Produção:

Título original: The Agony and the Ecstasy; Produção: International Classics; País: EUA / Itália; Ano: 1965; Duração: 140 minutos; Distribuição: Twentieth Century Fox; Estreia: 16 de Setembro de 1965 (RFA), 1 de Novembro de 1965 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Carol Reed; Produção: Carol Reed [não creditado]; Argumento: Philip Dunne [a partir do livro homónimo de Irving Stone]; Música: Alex North, Franco Potenza (Música Coral); Orquestração: Alexander Courage; Fotografia: Leon Shamroy [filmado em CinemaScope e em Todd-AO, cor por DeLuxe]; Montagem: Samuel E. Beetley; Design de Produção: John DeCuir; Direcção Artística: Jack Martin Smith; Cenários: Dario Simoni; Figurinos: Vittorio Nino Novarese; Caracterização: Amato Garbini; Efeitos Visuais: L.B. Abbott, Emil Kosa Jr., Art Cruickshank [não creditado]; Direcção de Produção: Giorgio Zambon.

Elenco:

Charlton Heston (Michelangelo Buonarroti), Rex Harrison (Papa Júlio II), Diane Cilento (Contessina de’Medici), Harry Andrews (Bramante), Alberto Lupo (Francesco Maria della Rovere, duque de Urbino), Adolfo Celi (Cardeal Giovanni de’ Medici (Papa Leão X)), Venantino Venantini (Paris De Grassis), John Stacy (Sangallo), Fausto Tozzi (Capataz), Maxine Audley (Mulher), Tomas Milian (Rafael).

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