Etiquetas

, , , , , , , , , ,

Die Sehnsucht der Veronika Voss Em 1955, Veronika Voss (Rosel Zech), uma famosa actriz de cinema da UFA, no tempo do Terceiro Reich, está agora votada ao esquecimento. Vivendo ainda da nostalgia do passado, Veronika vai conhecer casualmente o jornalista desportivo Robert Krohn (Hilmar Thate), um homem que a ajuda numa noite de tempestade, sem saber quem ela é. Tal facto leva-a a interessar-se por ele, e perante a insistência de Veronika, os dois começam uma relação. Fascinado por tal figura tão fora do normal, Robert vai começar a investigar a vida de Veronika, descobrindo que esta vive na dependência de morfina que lhe é dada pela manipuladora Dra. Katz (Annemarie Düringer).

Análise:

Penúltimo filme de Rainer Werner Fassbinder, e último estreado em vida do realizador, “A Saudade de Veronika Voss”, interpretado por Rosel Zech, foi o terceiro da chamada trilogia BRD (com BRD a significar Bundesrepublik Deutschland, isto é: República Federal Alemã – RFA), sucedendo aos consagrados “O Casamento de Maria Braun” (Die Ehe der Maria Braun, 1978) e “Lola” (1981), filmes centrados em personagens femininas, que através das suas histórias poucos ortodoxas nos davam a conhecer um pouco as dores da RFA do pós-guerra.

Em Munique, em 1955, Veronika Voss (Rosel Zech) é uma actriz de cinema outrora popular, mas que agora não consegue voltar a agarrar um papel. Ao encontrar o repórter desportivo Robert Krohn (Hilmar Thate), fica surpreendida porque ele não a reconhece, o que a faz voltar a procurá-lo. Veronika e Robert passam a noite juntos e, embora Robert viva com a namorada Henriette (Cornelia Froboess), vai-se deixando seduzir cada vez mais pelo lado etéreo de diva de Veronika, começando a investigar a sua vida. É aí que Robert descobre que Veronika é refém da psicóloga Dra. Marianne Katz (Annemarie Düringer), que lhe satisfaz a dependência de drogas, para a ter para si, extorquindo-lhe a sua fortuna. Robert pede então a Henriette que procure a Dra. Katz como paciente, fazendo-se passar por milionária. Esta começa logo a receitar-lhe opiáceos, mas ao perceber que é tudo um logro provoca a morte de Henriette por atropelamento. Quando Robert chega com a polícia é demasiado tarde, pois com a ajuda de Veronika, a Dra. Katz já se livrou de todas as provas. Por fim, resta à psicóloga convencer Veronika a passar-lhe o resto dos seus bens, matando-a de seguida com comprimidos. A Robert não resta senão ver os criminosos festejar a vitória.

Livremente baseado na vida da antiga actriz alemã Sybille Schmitz, “A Saudade de Veronika Voss” é levemente reminiscente de “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard, 1950), de Billy Wilder, pela ideia da antiga actriz cada vez mais alienada da realidade e que ainda sonha voltar aos dias de glória, aliciando para o seu meio um jornalista que se vai deixando enredar na aura envolvente daquela mulher tão hipnótica quanto fantasiosa.

Desta vez, sem um pingo de humor, e a preto e branco, para nos tornar a paisagem alemã mais distante, evocativa dos filmes da própria Schmitz, Fassbinder foca-se na vida de alienação daqueles que perderam tudo (neste caso a fama e reconhecimento) com o fim da Alemanha nazi. É o caso de Veronika Voss, incrédula por não ser já uma estrela, e deixando-se perder no mundo da dependência de morfina, e assim tornando-se mais uma das heroínas trágicas do vasto panteão do realizador alemão. E com ela, Fassbinder traz-nos ainda os novos oportunistas, cínicos que vivem à custa dos mais fracos, e que agora não são nazis, mas outro tipo de abutres, sem humanidade, como é o caso da Dra. Katz e seus cúmplices.

Com um pé na nostalgia e outro na incerteza dos novos tempos, “A Saudade de Veronika Voss” é mais um conto de desespero, solidão e alienação, como o são a maioria dos contos de Fassbinder, dedicados a personagens incompreendidas de quem facilmente todos podem abusar, principalmente emocionalmente. Nesta paisagem, destoa o citado jornalista desportivo que procura fazer a diferença, trazendo interesse genuíno por uma mulher que ele nunca poderá compreender, mas que lhe permite um olhar para uma podridão de certas camadas da sociedade que se escondem sob aparências benevolentes.

Com uma banda sonora que usa em parte canções country norte-americanas, e uma Rosel Zech que consegue conferir plenamente a aura trágica da sua personagem, o filme tem sido admirado como um dos mais melancolicamente negros e bem conseguidos de Fassbinder.

Rosel Zech em "A Saudade de Veronika Voss" (Die Sehnsucht der Veronika Voss, 1982), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Die Sehnsucht der Veronika Voss; Produção: Laura Film / Tango Film / Rialto Film / Trio Film / Maran Film / Süddeutscher Rundfunk (SDR); Produtor Executivo: Harry Baer; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1982; Duração: 104 minutos; Distribuição: Filmverlag der Autoren (RFA); Estreia: 18 de Fevereiro de 1982 (RFA), 5 de Novembro de 1982 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Thomas Schühly, Bertram Vetter (SDR); Co-Produção: Rainer Werner Fassbinder, Horst Wendlandt; Argumento: Rainer Werner Fassbinder, Pea Fröhlich, Peter Märthesheimer; Música: Peer Raben; Fotografia: Xaver Schwarzenberger [preto e branco]; Montagem: Juliane Lorenz; Design de Produção: Rolf Zehetbauer; Direcção Artística: Walter E. Richarz; Figurinos: Barbara Baum; Caracterização: Gerd Nemetz, Anni Nöbauer.

Elenco:

Rosel Zech (Veronika Voss), Hilmar Thate (Robert Krohn), Cornelia Froboess (Henriette), Annemarie Düringer (Dra. Marianne Katz), Doris Schade (Josefa), Erik Schumann (Dr. Edel), Peter Berling (Produtor / Dicker Mann), Günther Kaufmann (G.I. / Dealer), Sonja Neudorfer (Vendedora), Lilo Pempeit (Chehm), Volker Spengler (Primeiro Realizador), Herbert Steinmetz (Jardineiro), Elisabeth Volkmann (Grete), Hans Wyprächtiger (Chefe de Redacção), Peter Zadek (Segundo Realizador), Johanna Hofer (Senhora Idosa), Rudolf Platte (Senhor Idoso), Armin Mueller-Stahl (Max Rehbein).

Anúncios