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Universos Paralelos - 15 - Riddick e o multiverso de David Twohy

A partir de amanhã, Segunda-feira, dia 18 de Março, temos online mais um Universos Paralelos, da autoria do António Araújo (Segundo Take), do José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e do Tomás Agostinho (Imaginauta). É o décimo quinto episódio do programa.

O tema é o universo Riddick, na ficção científica de acção em planetas estranhos, como criada por David Twohy. O episódio poderá ser encontrado aqui:
podcast

 

Riddick e o multiverso de David Twohy

Vin Diesel e David Twohy em foto promocional

O virar do milénio viu nascer “Eclipse Mortal” (Pitch Black, 2000), um pequeno filme de ficção científica de terror que, apesar de não primar pela originalidade, popularizou o seu inesperado herói — ou, melhor dizendo, anti-herói — Riddick. Naquele que pode ser considerado o filho bastardo de “Aliens: O Recontro Final” (Aliens, James Cameron, 1986) e “Nova Iorque, 1997” (Escape From New York, John Carpenter, 1981), a dupla de escritores irmãos Jim e Ken Wheat criaram em colaboração com o realizador David Twohy um protagonista de recorte mitológico e personalidade amoral praticamente irremediável. Esta personagem catapultou velozmente e furiosamente o novato Vin Diesel para o estrelato, levando-o a novas paragens.

Cartaz promocional de "As Crónicas de Riddick" (The Chronicles of Riddick, 2004), de David Twohy

Contudo, dado o sucesso do modesto filme de baixo-orçamento, a Universal Pictures não perdeu a oportunidade de propor uma sequela ao realizador e à recém-brilhante estrela. Quatro anos depois, o par aproveitou a oferta e, ao invés de criarem uma banal sequela no registo do primeiro filme, apontaram as miras a uma trilogia de acção épica de âmbito e ambição alargadas — prova disso é a comparação feitas pelos próprios autores à obra de J. R. R. Tolkien em que “Eclipse Mortal” estaria para a nova planeada trilogia como “O Hobbit” esteve para “O Senhor dos Anéis”. Além da louvável ambição artística — normalmente ausente de mega-produções de Hollywood — e da vontade de mostrar algo diferente, “As Crónicas de Riddick” (The Chronicles of Riddick, 2004) não consegue escapar às comparações com “Duna” (Dune, David Lynch, 1984), tanto nas suas intenções de expansão megalómana de universo como no que respeita à sua estética retro, afundando-se na bilheteira e sendo vilipendiado pela crítica.

Apesar da máquina promocional colocada em andamento com o relançamento de “Eclipse Mortal” em DVD como “As Crónicas de Riddick: Eclipse Mortal”, forçando o sentimento de pertença a uma saga, um videojogo, “Escape from Butcher Bay” (2004), e uma curta-metragem de animação para fazer a ponte entre os dois filmes, “The Chronicles of Riddick: Dark Fury” (Peter Chung, 2004) — inexplicavelmente apenas disponibilizado depois da estreia do novo filme —, a Universal Pictures perdeu fé no projecto perante o fiasco comercial e cedeu os direitos da saga a Vin Diesel, entretanto produtor com capital próprio investido na produção de “As Crónicas de Riddick”, garantindo uma pequena participação do actor em “Velocidade Furiosa – Ligação Tóquio” (The Fast and the Furious: Tokyo Drift, Justin Lin, 2006), o terceiro capítulo de outra saga da produtora à qual o actor se tinha até então recusado a voltar.

Imagem de "Riddick: Blindsided" (2013) de Bonner Bellew

Talvez reconhecendo que o ponto alto do ambicioso segundo capítulo é a sequência da fuga da escaldante lua prisão Crematoria, mais próxima do espírito do original, e limitado pelo orçamento mais reduzido, agora sem o apoio de um grande estúdio, Twohy e Diesel decidiram recuperar a estimada personagem num terceiro tomo intitulado Riddick – A Ascensão (Riddick, 2013) que retoma o caminho lógico sugerido pelo primeiro capítulo, não trilhado, no entanto, pelo filme seguinte. Dividindo opiniões, o filme foi encarado por alguns como o regresso à forma de “Eclipse Mortal” e por outros como um retrocesso que encurralou a saga que nunca o chegou a ser.

Vin Diesel como Riddick

A existência de director’s cut para cada um dos três filmes — com alterações mais significativas nos dois últimos — revela um conflito entre intenções artísticas e a realidade comercial de promover e vender ficção científica no grande ecrã. Independentemente da qualidade (ou falta dela), o hipotético sucesso de “As Crónicas de Riddick” podia ter aberto as portas a mais e mais ambiciosos filmes do género — o que seria sempre positivo. Desta forma, sobra-nos apenas o debate sobre o que podia ter sido, bem como a nossa relação com o que efectivamente foi.

António Araújo, Dezembro 2018.

 

Fontes primárias

Cinema

  • Eclipse Mortal (Pitch Black, David Twohy, 2000)
  • As Crónicas de Riddick (The Chronicles of Riddick, David Twohy, 2004)
  • Riddick – A Ascensão (Riddick, David Twohy, 2013)

Televisão

  • Into Pitch Black (M. David Melvin, 2000)

Curtas-metragens

  • Pitch Black: Slam City (Brian Murray e David Twohy, 2000)
  • Crónicas de Riddick – Fúria Negra (The Chronicles of Riddick: Dark Fury, Peter Chung, 2004)
  • Riddick: Blindsided (Bonner Bellew, 2013)

Videojogos

  • The Chronicles of Riddick: Escape from Butcher Bay (2004)
  • The Chronicles of Riddick: Assault on Dark Athena (2009)
  • Riddick: The Merc Files (2013)

Fontes secundárias

Bibliografia

  • Lauria, Frank (2004) Pitch Black. Nova Iorque, NY: St. Martin’s Paperbacks
  • Foster, Alan Dean (2004) The Chronicles of Riddick. Nova Iorque, NY: Del Rey Books