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Rembrandt Em 1642, em Amsterdão, Rembrandt van Rijn (Charles Laughton) é um pintor reverenciado, no auge da sua carreira, dedicado à sua esposa Saskia, cuja morte prematura o vem abalar profundamente. Azedo com o mundo, Rembrandt não tolera o facto de os seus mecenas não entenderem a sua arte e exigirem coisas diferentes. Provocando-os, Rembrandt arrisca-se a perder as encomendas, e em breve o pintor está falido, para desespero da sua nova companheira, a antiga empregada Geertje (Gertrude Lawrence), que o quer convencer a seguir ordens. Mas a luz chega na forma da também empregada Hendrickje (Elsa Lanchester), que vem trazer ao pintor nova alegria de trabalhar, e modo de vencer os credores.

Análise:

Rembrandt van Rijn (1606 – 1669), o pintor holandês nascido em Leida, expoente do barroco do norte da Europa, e considerado um dos maiores pintores de sempre, foi já alvo de várias recriações no cinema, sendo uma das mais notáveis a de Alexander Korda, em 1936, na Inglaterra, num filme que reunia o realizador com o actor Charles Laughton, depois de ambos terem colaborado noutra recriação histórica: o famoso “A Vida Privada de Henrique VIII” (The Private Life of Henry VIII, 1933).

Iniciando-se em 1642, com Rembrandt (Charles Laughton) no auge da sua fama, o filme mostra-nos o seu primeiro revés, na morte da sua esposa Saskia, deixando-o amargo e desafiante daqueles que patrocinam a sua arte. A revelação do quadro “The Nightwatch” é um exemplo, com o pintor, não só a defraudar aqueles que encomendaram o quadro, como ainda a afrontá-los por palavras. Rembrandt acaba por tomar por amante sua empregada Geertje (Gertrude Lawrence, actriz de teatro com uma rara aparição no cinema), que o ajuda a criar o fillho Titus (John Bryning), mas a forma como ela o incita a pintar por encomenda, quando Rembrandt se quer libertar de amarras, cria um conflito intransponível. É já falido, e abandonado por Geertje, e depois de tentar um regresso a Leida, onde nem a família nem os antigos amigos já o querem de volta, que Rembrandt se apaixona por Hendrickje (Elsa Lanchester), ela também sua empregada, que vai engendrar um plano para que Rembrandt consiga usufruir das suas vendas, antes que o Estado confisque os quadros, e assim dar nova motivação ao pintor, que vive novamente anos felizes. A morte prematura de Hendrickje é novo revés. O filme termina em 1669, com um Rembrandt envelhecido, mas sempre arguto, e reverenciado como o maior pintor de todos os tempos.

Realizado e produzido por Alexander Korda – então um dos nomes mais sonantes do cinema inglês – com argumento de June Head e Lajos Biró, a partir de uma história de Carl Zuckmayer, “Rembrandt”, tal como acontecera com “A Vida Privada de Henrique VIII”, é um filme que procura, essencialmente, cumprir um certo imaginário, entronizando uma figura quase mítica (agora o pintor flamengo, como antes o rei inglês), dado vida, na tela, a imagens que todos conhecemos da pintura. Tal como no filme de 1933, também aqui Charles Laughton tem como principal missão «ser» o personagem titular, aparentando-o a cada pose, não descuidando os famosos chapéus e turbante do pintor, a ponto de em muitos dos planos do filme nós podermos relembrar este ou aquele quadro.

A nível de argumento, o filme procura mostrar um Rembrandt no auge das suas capacidades, mas em choque com a sua sociedade, por esta não entender que ele queria revolucionar a arte e não seguir fórmulas gastas. A esse conflito, Rembrandt vai responder sobranceiramente (a analogia do pedinte é um dos momentos mais fortes do filme), irritando os seus mecenas e incorrendo em diversas dívidas que lhe tolhem os movimentos. Pelo meio assistimos ainda à relação entre Rembrandt e as mulheres. A primeira (Saskia), que não chegamos a ver, mas da qual ouvimos uma lindíssima elegia do pintor, a segunda, a quase hárpia Geertje, que viu na relação uma subida na vida, mas cujas amarras coincidem com a fase mais negra da vida de Rembrandt, e a terceira, Hendrickje, com quem ele não pode casar, mas que, com a sua graça natural e dedicação genuína ao artista, consegue devolvê-lo aos seus melhores dias. Destaque-se que esta foi interpretada por Elsa Lanchester, esposa de Charles Laughton, com o par a deixar-nos uma dúzia de parcerias em filme, onde a química era claríssima e sempre vibrante.

Pelo lado negativo deve dizer-se que “Rembrandt” é um filme demasiado estático, baseando-se demais em longos discursos teatrais, elaboradamente ricos, é certo, mas desajustados em muitos momentos. O filme estrutura-se em quatro ou cinco momentos (o início com morte de Saskia e funeral; os conflitos entre Geertje, Rembrandt e os credores; a ida a Leida; a chegada e planos de Hendrickje, com nova felicidade para o pintor; e o epílogo, na velhice), nos quais pouco acontece e, além de vermos Rembrandt agir e pensar, pouco mais evolui. Algo estranha é a introdução do texto inicial que o descreve como um fracasso no seu tempo, para depois vermos como no filme tantos o tratam como o maior pintor de sempre.

Por tudo isto, não se esperando grande rigor histórico (o estúdio do pintor é uma enorme sala marmoreada, no palácio que tem por casa!), o filme vale pela presença sempre electrizante de Charles Laughton, que ainda por cima se consegue parecer imenso com o grande pintor holandês.

Charles Laughton em "Rembrandt" (1936), de Alexander Korda

Produção:

Título original: Rembrandt; Produção: London Film Productions; País: Reino Unido; Ano: 1936; Duração: 84 minutos; Distribuição: London Film Productions (Reino Unido), United Artists; Estreia: 9 de Novembro de 1936 (Reino Unido), 25 de Janeiro de 1937 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alexander Korda; Produção: Alexander Korda; Argumento: June Head, Lajos Biró [não creditado] [a partir de uma história de Carl Zuckmayer]; Música: Geoffrey Toye; Direcção Musical: Muir Mathieson; Fotografia: Georges Périnal [preto e branco]; Montagem: Francis D. Lyon; Design de Produção: Vincent Korda; Figurinos: John Armstrong; Caracterização: Stuart Freeborn; Efeitos Especiais: Ned Mann; Efeitos Visuais: W. Percy Day; Direcção de Produção: David B. Cunynghame.

Elenco:

Charles Laughton (Rembrandt van Rijn), Gertrude Lawrence (Geertje Dirx), Elsa Lanchester (Hendrickje Stoffels), Edward Chapman (Fabrizius), Walter Hudd (Banning Cocq), Roger Livesey (Pedinte Saul), John Bryning (Titus), Sam Livesey (Leiloeiro), Herbert Lomas (Gerrit van Rijn, Pai de Rembrandt), Allan Jeayes (Doutor Tulp), John Clements (Flinck), Raymond Huntley (Ludwick), Abraham Sofaer (Menasseh), Lawrence Hanray (Heertsbeeke), Austin Trevor (Marquis de Grand Coeur), Henry Hewitt (Jan Six), Gertrude Musgrove (Agelintje, Rapariga na Estalagem), Richard Gofe (Titus – criança), Basil Gill (Adrien van Rijn, Irmão de Rembrandt), Barry Livesey (Camponês), James Carney (Camponês), Jack Livesey (Viajante), John Turnbull (Padre), Edmund Willard (Van Zeeland).