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A Walk in the Spring Rain Roger Meredith (Fritz Weaver), um professor universitário, decide usar o seu ano sabático para viajar com a esposa Libby (Ingrid Bergman) até às Smoky Mountains, no Tennessee, para viverem numa casa campestre, onde ele escreverá um livro científico. Só que, se Roger cedo se sente deslocado e incapaz de produzir trabalho de que se orgulhe, Libby descobre que a vida junto da natureza lhe traz uma inesperada felicidade. Esta é, em muito, aumentada, pelo caseiro Will Cade (Anthony Quinn), que desde logo se apaixona por Libby, e lho faz saber, ainda que os seus modos rudes do campo façam pensar que nada possa haver em comum entre os dois.

Análise:

Pelas mãos do produtor Stirling Silliphant, “Chuva na Primavera”, realizado por Guy Green, seria o último filme de Ingrid Bergman, para um grande estúdio de Hollywood, desta vez a Columbia Pictures. Era ainda a reunião da actriz com Anthony Quinn, com quem contracenara em “A Visita” (The Visit, 1964), de Bernhard Wicki, agora num drama romântico de meia-idade. O filme, rodado em paisagens naturais no Great Smoky Mountains National Park (na fronteira entre os Estados de North Carolina e Tennessee), ficou ainda célebre por ter as cenas de luta coreografadas por Bruce Lee, um amigo de longa data de Silliphant.

A história de “Chuva na Primavera” fala-nos do casal de meia idade Roger (Fritz Weaver) e Libby Meredith (Ingrid Bergman). Ele é um professor universitário que vai aproveitar a licença sabática para escrever um livro científico, pelo que decide viajar, com a esposa, para o meio do nada, onde, livre de distracções – e da filha (Katherine Crawford), que quer os pais como babysitters do neto –, possa escrever em paz. O retiro acaba por surpreender o casal, pela facilidade com que Libby se sente na vida no campo, como se tivesse descoberto uma nova vocação. Com eles, sempre solícito, e mais presente do que o quereriam, está Will Cade (Anthony Quinn), o caseiro da propriedade, que surge diariamente para pequenos reparos e recados. Se, no início, a simplicidade de Will e a sua constante presença, tanto divertem como incomodam o casal, aos poucos, Libby vai gostando mais da sua companhia, em pequenos passeios pela propriedade e conversas sobre coisas simples da natureza. Só que, embora casado, Will propõe o seu amor a Libby, e embora esta ache que tal não passa de um capricho, sente-se atraída por este homem menos sofisticado, mas mais atencioso que o seu marido, que a faz acreditar que ainda é jovem, com um mundo de escolhas à sua frente. A descoberta da relação por parte do cínico filho de Will (Tom Holland) gera a confusão, e em luta com o pai, ele morre. O funeral é um acordar para Libby que decide deixar Will, e partir com o marido, que entrara em depressão, sentido a mulher fugir-lhe e sem inspiração para escrever o seu livro. De regresso a Nova Iorque, resta a Libby ser avó, como a vemos nos últimos momentos, a ir buscar o neto à escola, tal como a filha anteriormente pedira.

Com alguns traços de modernidade, na forma como as cenas urbanas são filmadas, e a música contemporânea é usada – se bem que gozada pelos protagonistas na sua viagem de carro –, quando “Chuva na Primavera” chega ao seu cenário campestre torna-se rapidamente um filme clássico, filmado «à antiga», ainda que já estejamos em 1970. Há, aliás, transição de linguagens cinematográficas que os Estados Unidos viviam nessa altura, quase que um espelho do que irá acontecer na história do filme, onde o que está em causa é a vida (ou as suas opções) após uma certa idade.

Se o retiro campestre pode sugerir a promessa de uma segunda lua-de-mel, como um renascer da relação, a qual se definira nos instantes imediatamente anteriores como uma rebeldia ao papel pré-destinado pela sociedade – isto é, Roger e Libby não quiseram ser simplesmente avós, e foram assertivos perante a sua filha de que a vida deles estava antes de serem um acessório da dela – essa promessa não se concretiza, quando Roger se fecha no seu mundo mental (o bloqueio de escrita do livro que o deveria fazer famoso), deixando Libby a redescobrir-se sozinha.

E é aí que triunfa Will Cade, a personagem de Anthony Quinn. Rude, simples, intrusivo, e de certo modo risível, para os gostos sofisticados de Roger e Libby, Will sabe o que quer, é feliz com o que pode obter, e não perde tempo a procurá-lo. Desse modo, Will não só decide que quer Libby, como lho diz claramente, retirando-a do seu elemento natural, feito de convenções sociais e – agora – dos constrangimentos da sua idade. Com Will, no mundo que está a descobrir, Libby não tem idade, isto é, rejuvenesce, e não se deixa definir por mais que aquilo que lhe era imposto. Essa redescoberta liberdade é como um sonho, ou uma fantasia, inebriante, mas perigosa, algo que Libby percebe no choque de realidade que é a morte do filho de Will. O final mostra-nos que são as convenções sociais a vencer, e Libby resigna-se ao papel que lhe deram, o de avó, demasiado velha para viver nova paixão.

Por essa razão, o título – e com ele a canção homónima que escutamos no início e final do filme – fala-nos desse episódio que é apenas uma fantasia momentânea, um acreditar de uma segunda Primavera, que o filme acaba por destruir com o seu final. Filmado em bonitas paisagens naturais, quase que bebendo os ensinamentos do western sobre a grandeza do espaço aberto, e as possibilidades metafóricas que ele nos dá, “Chuva na Primavera” é também um veículo para Ingrid Bergman e Anthony Quinn se recriarem vestindo novas peles. Ela, longe dos papéis de jovem diva apaixonante, ele, longe de ser o duro de filmes épicos. O resultado é uma obra serena, que se questiona a si mesma, e nos pergunta o quanto estamos presos a rótulos que a sociedade nos impôs, mesmo antes de termos nascido.

Ingrid Bergman e Anthony Quinn "Chuva na Primavera" (A Walk in the Spring Rain, 1970), de Guy Green

Produção:

Título original: A Walk in the Spring Rain; Produção: Pingree Productions; País: EUA; Ano: 1970; Duração: 98 minutos; Distribuição: Columbia Pictures Corporation; Estreia: 11 de Junho de 1970 (Austrália).

Equipa técnica:

Realização: Guy Green; Produção: Stirling Silliphant; Argumento: Stirling Silliphant [a partir de um romance de Rachel Maddux]; Música: Elmer Bernstein; Canção-Título: Elmer Bernstein, Don Black; Fotografia: Charles Lang [filmado em Panavision, cor por Eastmancolor]; Montagem: Ferris Webster; Direcção Artística: Malcolm C. Bert; Cenários: Morris Hoffman; Figurinos: Donfeld (Ingrid Bergman); Caracterização: Ben Lane, John O’Gorman (Ingrid Bergman).

Elenco:

Anthony Quinn (Will Cade), Ingrid Bergman (Libby Meredith), Fritz Weaver (Roger Meredith), Katherine Crawford (Ellen Meredith), Tom Holland (Rapaz), Virginia Gregg (Ann Cade), Mitchell Silberman (Bucky).