Etiquetas

, , , , , , , , , , , , , , , , ,

Die dritte GenerationNos escritórios da sua empresa, P. J. Lurz (Eddie Constantine), um industrial de Berlim, informa a sede americana de que as vendas dos sistemas de segurança informática estão em queda, mas que ele tem um plano. Já a sua secretária, Susanne Gast (Hanna Schygulla), recebe uma mensagem código, e toca a reunir o grupo de pretensos de terroristas a que pertence, e que quer causar o pânico atacando bancos e rebentando bombas. O que eles não sabem é que o seu líder, August Brem (Volker Spengler), recebe ordens e financiamento do próprio Lurz, já que o seu plano é usar o terrorismo para fazer as vendas da sua empresa subir.

Análise:

Estreado no Festival de Cannes, e depois, comercialmente em França, muitos meses antes da sua estreia no país natal, “A Terceira Geração” é uma comédia negra escrita, produzida, realizada e filmada por Rainer Werner Fassbinder, usando a sua habitual equipa de produção, e muitos dos actores que habitualmente entravam nos seus filmes. O título refere-se à terceira geração de alemães do pós-guerra, aqueles que ele satiriza no filme, o que lhe valeu uma forte contestação na Alemanha Ocidental.

P. J. Lurz (Eddie Constantine), um industrial de Berlim informa a sede americana de que as vendas dos sistemas de segurança informáticos da companhia estão em queda, mas que ele tem um plano. Enquanto isso, Susanne Gast (Hanna Schygulla), a sua secretária, recebe uma mensagem «O mundo como vontade e ideia», código do grupo de extremistas a que pertence, após o que convoca os membros do grupo para um encontro. Gerhard Gast (Hark Bohm), o inspector-geral da polícia, e sogro de Susanne, informa Lurz de que está a ser vigiado, depois leva Susanne a casa para um jantar de família, mas não sem antes terem sexo num motel. No apartamento de Rudolf Mann (Harry Baer), o grupo terrorista reúne. Estes, além de Susanne, são: August Brem (Volker Spengler), o chefe; Edgar Gast (Udo Kier), um compositor e marido de Susanne; Hilde Krieger (Bulle Ogier), uma professora de História e feminista; Petra Vielhaber (Margit Carstensen), uma dona de casa insatisfeita, casada com o bancário Hans (Jürgen Draeger); e o próprio Rudolf, empregado numa loja de música. Com August desgostoso com a presença de Ilse Hoffman (Y Sa Lo), uma tóxico-dependente, o grupo ganha ânimo com a chegada de Paul (Raúl Gimenez), treinado militarmente em África, que fica com Hilde, depois de a violar. Mas os problemas continuam, com Petra a deixar o marido, para ficar com Rudolf, e com a chegada de dois amigos de Ilse, Franz Walsh (Günther Kaufmann, com o nome de personagem tantas vezes usado pelo próprio Fassbinder), perito em explosivos, e antigo amante de Ilse, e Bernhard von Stein (Vitus Zeplichal), aristocrata de sensibilidade intelectual, constantemente ridicularizado pelos outros.

Só que, sem que o grupo saiba, August, trabalha para Lurz, e todo o plano terrorista serve apenas para subir as vendas da companhia de Lurz, o qual financia o grupo, que começa a ser entregue às autoridades graças às denúncias de August. O primeiro é Paul, morto num restaurante, com Edgar a ver o seu pai presente. O grupo entra em pânico, e é feito um assalto a um banco para conseguir dinheiro para fugir, durante o qual Petra mata o marido. Com o propósito de arranjarem novas identidades, Petra, Rudolf and Hilde são sorteados para roubar documentos (com Rudolf a urinar-se no processo). À chegada, Franz encontra Ilse morta com uma overdose. A polícia investiga a morte de Ilse, e só Bernhard é deixado a responder às perguntas de Gerhard Gast, mas ele não sabe nada sobre o grupo, e não é de grande ajuda. Após o interrogatório, Bernhard resolve seguir August, e vê-o receber dinheiro de Lurz, percebendo que este é o traidor de que se fala desde a morte de Paul. Para se livrar de Franz, August envia-o ao local onde Ilse fora enterrada, alertando as autoridades, que matam Franz, com Bernhard a chegar tarde para o avisar e a ser apanhado por Gast, para morrer depois, caindo de uma escadaria. Quanto a Petra, August envia-a com uma bomba, com a qual ela é morta pela polícia. Os outros, aproveitando um carnaval, disfarçam-se, e raptam Lurz, obrigando-o a filmar uma mensagem de resgate, o que ele faz divertido, pensando que ainda é tudo parte do plano que ele financiou.

Elogiado pelo seu tom sarcástico, pelo engenho de toda a trama, e pela forma humorística de tratar a política, satirizando acontecimentos e atitudes de uma forma que quase não se consegue compreender, “A Terceira Geração” é, em simultâneo, um dos mais difíceis filmes de Fassbinder, naquilo que alguém um dia escreveu ser o resultado de juntar Jerry Lewis com Robert Bresson.

Esta trama de fundo político é filmada por Fassbinder do modo a que nos habituara. Isto é, em espaços fechados – maioritariamente interiores –, com uma câmara por vezes quase escondida enquanto os actores entram e saem de campo, com diálogos rapidíssimos – às vezes roçando a cacofonia, a que se junta o permanente ruído de fundo de serviços noticiosos de rádio ou televisão – que, de tão elaborados e exaustivos são também vagos, e aparentemente supérfluos. A história de “A Terceira Geração” é bastante simples. Mas ao ser diluída em inúmeros diálogos, uma multitude de confrontos de personagens, um grande número de situações, nem sempre importantes, e uma série de momentos em que o surrealismo se apodera da linha narrativa (veja-se por exemplo o o comportamento do grupo às acusações da violência de Paul, ou o comportamento de Bernhard quando interrogado por Gast, após a morte de Ilse), essa história fica fragmentada à primeira impressão, tal como o são as vidas das personagens, uma vez que o particular parece ofuscar o todo.

Mas esse todo é uma sátira, onde as empresas, os bancos, os intelectuais revolucionários, a polícia, etc., são todos ridicularizados por posições mesquinhas, egoístas e completamente desprovidas de bom senso ou preocupação social (bastaria o número de preocupações de carácter sexual entre as diversas personagens, para perceber o quanto o seu lado animal toma mais preponderância que as grandes ideias que dizem defender). Afinal, logo no início é dito como a falta de terrorismo é debilitante para quem quer lucrar com a aplicação de medidas autoritárias de segurança. A isso os supostos terroristas respondem com querelas internas, leituras intelectuais e nenhum sentido de realidade. A nível pessoal os paradoxos não podiam ser maiores. O líder do grupo, August, é o seu traidor. Hilde, a feminista, embarca numa relação onde é usada por Paul. Susanne tem uma relação secreta sado-masoquista com o seu sogro, o austero inspector-chefe. Bernhard é gozado por ler Bakunin, etc. numa prova de que tudo é decadente, e ninguém está à altura daquilo a que se propõe.

Mostrando a sua mestria na mise-en-scène, Fassbinder filma como se nos fizesse crer que estamos no teatro, em longos planos-sequências, onde a coreografia de movimentos (geralmente de muitas personagens) e réplicas – porque todos interrompem todos e interagem com todos – é prodigiosa.

O filme é, claramente, uma visão do seu autor sobre o estado da Alemanha em 1979, onde a terceira geração ainda era castigada pelos pecados dos seus pais e avós, não fazendo mais que protestar de forma vã, ora presa a preocupações burguesas vindas do mundo capitalista, ora a ideais absurdos. O resultado foi a ira em muitas salas de cinema, contando-se que, em Hamburgo um exibidor foi espancado até à inconsciência e em Frankfurt foi atirado ácido ao ecrã de uma sala de cinema.

Margit Carstensen e Günther Kaufmann em "A Terceira Geração" (Die dritte Generation, 1979), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Die dritte Generation; Produção: Filmverlag der Autoren / Pro-ject Filmproduktion / Tango Film; Produtor Executivo: Harry Baer; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1979; Duração: 105 minutos; Distribuição: New Yorker Films (EUA); Estreia: 13 de Maio de 1979 (Festival de Cannes, França), 30 de Maio de 1979 (França), 5 de Fevereiro de 1982 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Rainer Werner Fassbinder; Argumento: Rainer Werner Fassbinder; Música: Peer Raben; Fotografia: Rainer Werner Fassbinder [cor por Eastmancolor]; Montagem: Juliane Lorenz; Design de Produção: Raúl Gimenez; Direcção Artística: Volker Spengler; Cenários: ; Caracterização: Anni Nöbauer; Efeitos Especiaisde Pirotecnia: Fred Bräutigam, Joachim Schulz, Lothar Tropp; Direcção de Produção: Harry Baer.

Elenco:

Harry Baer (Rudolf Mann), Hark Bohm (Gerhard Gast), Margit Carstensen (Petra Vielhaber), Eddie Constantine (P. J. Lurz), Jürgen Draeger (Hans Vielhaber), Raúl Gimenez (Paul), Claus Holm (Avô Gast), Günther Kaufmann (Franz Walsch), Udo Kier (Edgar Gast), Bulle Ogier (Hilde Krieger), Lilo Pempeit (Mãe Gast), Hanna Schygulla (Susanne Gast), Volker Spengler (August Brem), Y Sa Lo (Ilse Hoffmann), Vitus Zeplichal (Bernhard von Stein), Rainer Werner Fassbinder (Dobragem de Voz de Raúl Gimenez) [não creditado], Hans Georg Panczak (Dobragem de Voz de Eddie Constantine) [não creditado].

Anúncios