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Cactus FlowerToni Simmons (Goldie Hawn) decide suicidar-se quando o seu amante – um dentista muito mais velho que ela e que ela crê casado – falha o jantar do aniversário deles. Mas é salva pelo vizinho Igor Sullivan (Rick Lenz), que logo se sente atraído por ela, e o incidente leva o amante, Dr. Julian Winston (Walter Matthau) a arrepender-se, e a propor-lhe casamento, prometendo divorciar-se imediatamente. Só que há um problema. Ele não é casado, e apenas diz ser para evitar o casamento. Só que Toni agora quer conhecer Mrs. Winston para ter a certeza de que já não há amor no casal. Tal leva Julian a pedir à sua enfermeira, Miss Dickinson (Ingrid Bergman) que assuma o papel de sua esposa.

Análise:

Em 1969, Ingrid Bergman voltava a filmar em Hollywood, o que já não fazia há mais de duas décadas, uma vez que os seus últimos filmes «americanos» tinham sido rodados na Europa, ela que nos sete anos anteriores trabalhara apenas em televisão, e num filme inglês e noutro sueco. A obra que mereceu este regresso a Hollywood foi o filme “A Flor do Cacto”, um filme baseado na peça homónima da Broadway que estava a fazer um enorme sucesso (mais de mil representações desde que estreou em 1965, com Lauren Bacall, Barry Nelson e Brenda Vaccaro como protagonistas), a qual era, por sua vez, a adaptação da peça francesa “Fleur de cactus” de Pierre Barillet e Jean-Pierre Grédy. Realizado por Gene Saks, o filme contava com argumento de I. A. L. Diamond, conhecido pelas bem-sucedidas parcerias com Billy Wilder.

A história começa quando Toni Simmons (Goldie Hawn), uma jovem de 21 anos, desgostosa porque o amante casado, o dentista Dr. Julian Winston (Walter Matthau), falha o compromisso de vir jantar com ela em noite de aniversário, decide suicidar-se com gás, não sem antes enviar uma carta para o consultório do amante. Os planos saem gorados, porque o vizinho Igor Sullivan (Rick Lenz), sente o cheiro a gás e arromba a casa para salvar a moça. No dia seguinte, quando o dentista sabe do sucedido sente-se culpado por estar constantemente a afastar a rapariga, e pede-a em casamento. Só que, durante todo tempo em que estiveram juntos, ele dissera que era casado, sem o ser, e agora precisa inventar um divórcio. Sentindo-se culpada, Toni quer conhecer a inexistente senhora Winston, e o dentista, para manter a farsa, tem de inventar uma esposa que se queira divorciar dele. A escolhida é a sua enfermeira, Stephanie Dickinson (Ingrid Bergman), mulher solteira que cuida há tantos anos do patrão, que nutre afecto inconfessado por ele. Quando Toni conhece Miss Dickinson, descobre, sem que necessite ser dito, que ela ama o dentista, e sente-se ainda pior. Então o Dr. Julian inventa que a esposa tem um amante, e tem de fornecer um, na forma de um dos seus pacientes, Harvey Greenfield (Jack Weston). Uma saída a quatro corre mal, e Toni sente ainda mais pena da falsa esposa do seu amante. Os desencontros sucedem-se, com Miss Dickinson a receber uma estola que o Dr. Julian oferecera a Toni, e decidir que é tempo de viver a sua vida, aceitando um convite de um embaixador que a corteja há algum tempo. Obviamente, todos se vão reencontrar no mesmo bar, onde Miss Dickinson acaba a noite com Igor, o que causa ciúmes tanto ao Dr. Julian quanto a Toni. Por fim, cansada de tanta farsa, Miss Dickinson despede-se do consultório, e conta toda a verdade a Toni. Esta, por fim compreende tudo e repudia o dentista quando este chega com mais mentiras, preferindo ficar com Igor. Já o Dr Julian, passada a confusão, percebe que tudo era uma ilusão, e quem ele tem mais pena de perder não é Toni, mas Miss Dickinson, e o par assume finalmente o seu amor.

Com um argumento de I. A. L. Diamond, o estilo de comédia ligeira, sem pudores, e de réplicas rápidas e mordazes, e a presença de Walter Matthau, “A Flor do Cacto” é quase que um filme perdido de Billy Wilder, cuja inspiração parece estar bem presente. É nele que se pensa à medida que a história avança, tanto pelo tipo de comédia de enganos e identidades falsas, como pelo estilo de diálogos e formas de representar. Neste capítulo, destaca-se Goldie Hawn, então no seu primeiro papel a sério no cinema, e cujo jeito descontraído, meio louco, meio sério, lembra a inocência divertida da Shirley MacLaine dos filmes do mesmo Wilder.

E há que não esquecer que esta é a primeira comédia descarada de Ingrid Bergman, e se, décadas antes, outra sueca, ao passar do mudo ao sonoro, mereceu a tagline «Garbo talks!», este filme merecia ser publicitado com «Bergman dances!», pois não só a actriz sueca – aparentemente séria e dramática em metade do filme – se mostra à vontade no humor, como tem a sequência de humor físico mais inesquecível do filme, quando inventa passos de dança hilariantes.

Curioso é o facto de, pela terceira vez quase consecutiva, um filme de Ingrid Bergman ter no centro da trama uma mulher solteira a perder a esperança de vir a casar (ela própria), e um solteirão assim quer permanecer – Cary Grant em “Indiscreto” (Indiscreet, 1958) e Yves Montand em “Mais Uma Vez, Adeus” (Goodbye Again, 1961) – sendo que, no primeiro caso, o homem também finge ser casado para não ter que explicar porque não quer casar. Mas desta vez, a mentira é pasto para o gerar de confusões onde cada mentira gera mais duas ou três, e o esforço do mentiroso – a personagem de Walter Matthau – conduz a uma complicação de situações. Com Miss Dickinson a descobrir que afinal deve procurar a alegria de viver longe da prisão que é esperar em vão ser notada pelo patrão, e com Toni a compadecer-se da «rival» para, através das mentiras e encenações do amante perceber que não é ele que ela quer, o filme é um gerar de situações cómicas onde não se deve desprezar os contributos do vizinho solícito Igor Sullivan de Rick Lenz, ou do desajeitado machista Harvey Greenfield de Jack Weston.

Como seria de espera em I. A L. Diamond, todas as personagens são espirituosas, têm sempre resposta pronta, e passam pelas situações com uma superioridade que roça o cinismo (ou uma bem disposta loucura), e nenhum momento se perde sem levar à construção de um todo coeso e sempre bem concreto.

Apesar de parecer um filme um pouco fora de época – numa altura em que Hollywood já procurava temas mais actuais e uma forma mais ácida e controversa de enfrentar a actualidade – “A Flor do Cacto” é uma verdadeira homenagem aos clássicos da comédia de décadas antes, quando esta era feita de insinuações e provocações veladas, em histórias inocentes e bem intencionadas.

O filme foi um enorme sucesso de bilheteira, e garantiu a Goldie Hawn o Oscar de Melhor Actriz Secundária.

Goldie Hawn, Walter Matthau, Jack Weston e Ingrid Bergman em "A Flor do Cacto" (Cactus Flower, 1969), de Gene Saks

Produção:

Título original: Cactus Flower; Produção: Columbia Pictures Corporation / Frankovich Productions; Produtores Executivos: ; País: EUA; Ano: 1969; Duração: 104 minutos; Distribuição: Columbia Pictures Corporation; Estreia: 16 de Dezembro de 1969 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Gene Saks; Produção: M. J. Frankovich; Argumento: I. A. L. Diamond [a partir da adaptação para o palco por Abe Burrows, baseada na peça de Pierre Barillet e Jean-Pierre Grédy]; Música: Quincy Jones; Fotografia: Charles Lang [cor por Eastmancolor]; Montagem: Maury Winetrobe; Design de Produção: Robert Clatworthy; Cenários: Edward G. Boyle; Figurinos: Moss Mabry, Guy Verhille; Caracterização: John O’Gorman (Ingrid Bergman); Coreografia: Miriam Nelson; Direcção de Produção: William J. O’Sullivan.

Elenco:

Walter Matthau (Dr. Julian Winston), Ingrid Bergman (Stephanie Dickinson), Goldie Hawn (Toni Simmons), Jack Weston (Harvey Greenfield), Rick Lenz (Igor Sullivan), Vito Scotti (Señor Arturo Sanchez), Irene Hervey (Mrs. Durant), Eve Bruce (Georgia), Irwin Charone (Mr. Shirley, Gerente da Loja de Discos), Matthew Saks (Sobrinho de Miss Dickinson).