Etiquetas

, , , , , , ,

Goodbye AgainPaula Tessier (Ingrid Bergman) e Roger Demarest (Yves Montand) são um casal que já passou os 40 anos, e insistem em não casar, pois acreditam que uma relação deve ser livre de amarras institucionais. Só que, se Paula lamenta as repetidas ausências dele, Roger aproveita essa liberdade para um sem número de escapadelas com mulheres mais jovens. Quem se apercebe disso é o jovem Philip (Anthony Perkins), enamorado de Paula, e decidido a fazê-la perceber que ninguém no mundo se dedicaria tanto a ela quanto ele pode. A início incomodada, quando Paula percebe que Roger a trai, vai sentir que a atenção do jovem é tudo o que ela precisa.

Análise:

Filmando inteiramente em França (excepto um breve plano em Londres), depois de “Anastásia” (Anastasia, 1956), Anatole Litvak voltava a encontrar Ingrid Bergman, agora para um melodrama romântico a preto e branco semi-independente, e distribuído pela United Artists, numa adaptação do romance “Aimez-vous Brahms” da conhecida autora francesa Françoise Sagan.

Paula Tessier (Ingrid Bergman) é uma bem-sucedida decoradora de interiores de Paris, numa relação de cinco anos com o empresário Roger Demarest (Yves Montand), que ambos se orgulham de ser uma relação livre, sem as amarras das convenções sociais. Só que, sem que Paula saiba, Roger é um inveterado conquistador, que precisa de ter mulheres diferentes todas as semanas, pelo que os planos comuns são muitas vezes adiados à última da hora. É isso que vai perceber Philip Van der Besh (Anthony Perkins), o jovem e irresponsável filho de uma das clientes ricas de Paula (Jessie Royce Landis). Imediatamente apaixonado por Paula, Philip passa a segui-la por todo o lado, intrusivamente tentando que ela se interesse por ele. Quando Paula, finalmente, tem uma prova das traições de Roger, depois de mais uma vez ser abandonada para ele ir passar o fim-de-semana fora com uma amante, Paula cede à atenção de Philip, e os dois iniciam uma relação. Só que, aos poucos, Paula vai-se sentindo mais desajustada. É, por um lado, a irresponsabilidade de Philip, que desiste do trabalho para ficar em casa à espera de Paula, e, por outro, a diferença de idades, apontada entre dentes por todos os que vêem o casal. Com Roger cada vez mais farto das suas amantes que não lhe dão a profundidade sentimental que tinha com Paula, o casal vai-se reaproximar, e Roger, não querendo correr os riscos anteriores, pede Paula em casamento. O casamento ocorre e tudo parece ter terminado em bem, mas as novas alterações de planos de última hora que deixam Paula sozinha fazem-na perceber que Roger em nada mudou.

Quase que pegando na premissa de “Indiscreto” (Indiscreet, 1958), de Stanley Donen, “Mais uma Vez, Adeus” volta à ideia de uma mulher independente e solteira a entrar numa fase da vida em o casamento parece ter ficado para trás, e precisa de saber o que quer de facto para si. Só que, desta vez, em vez da comédia romântica de enganos inocentes ultrapassados, e final feliz esperado, temos um filme amargo, onde a resolução só aparentemente é a desejada – convencional sim, mas longe de ser uma felicidade sincera, afinal, como tantas vezes a vida nos ensina.

O filme faz-se da dinâmica entre três personalidades (não esquecendo o papel divertidamente proeminente de Jessie Royce Landis, mas sem consequências de peso para a trama). A primeira é Paula, a personagem de Ingrid Bergman, romântica, sofisticada e moderna, e já com 40 anos. Aceita uma relação sem amarras, mas lamenta ter de ficar sozinha, sabendo no seu íntimo que está a ser trocada por outras. O segundo é Roger, a personagem de Yves Montand, conquistador por natureza (numa interpretação bastante oca de quem se limita a ser francês para ter o mundo feminino a seus pés), gosta de Paula, mas gosta ainda mais do prazer da conquista, e tem sempre os olhos na próxima presa, à qual chama sempre Maisie, para não ter que memorizar nomes, numa total objectificação das suas parceiras. Por fim, Philip, a personagem de Anthony Perkins (então acabado de chegar ao estrelato pelas mãos de Hitchcock), é um jovem rico mimado, advogado porque a mãe quer, mas não se dando ao trabalho de aparecer no escritório muitas vezes, passando a perseguir Paula como uma criança teimosa, mas mostrando uma estranha acutilância para os estados de espírito dela, como se, na sua jovem idade, partilhasse já as agruras de uma longa solidão interior.

A história joga-se depois nas ruas e restaurantes de Paris (note-se como tantos dos planos – à entrada e saída de carros – parecem cartões de visita da cidade), e no guarda-roupa de Ingrid Bergman (novamente de Christian Dior – e note-se aqui quantas vezes Paula chega a casa para conversar dos seus vestidos com a empregada, ou quantas vezes estes são notados pelos seus pretendentes, numa tentativa descarada de fazer o público reparar nas obras de Dior), que de festa em festa, restaurante em restaurante ou local de trabalho em local de trabalho, é sempre perseguida por Philip, o qual chega a ser irritante por tantas intromissões fora de propósito (hoje isso seria caso de polícia). Mas, fazendo juz ao provérbio «água mole em pedra dura…», Paula e Philip estabelecem uma relação, e inicia-se aí a segunda parte do filme, aquela que faz dele um verdadeiro melodrama. Paula, solucionado o seu drama de constantes abandonos, e encontrando um homem que a venera e só tem olhos para ela, sente-se mal. Em paralelo, Roger, livre para viver quantas aventuras quiser, sente-se ainda pior. Quanto a Philip, conquistado mais um dos brinquedos (ele que foi habituado a ter sempre o que quis – era mais fácil à sua mãe dar-lhe tudo que dizer não), perde qualquer projecto ou ambição, passando a desgostar Paula.

A resolução – a reconciliação entre Paula e Roger – é do mais agri-doce que se viu até então em dramas românticos, e a felicidade da reconciliação e do tão almejado casamento conduzem apenas a lágrimas choradas em silêncio. Como diria Giuseppe Tomasi di Lampedusa na sua obra “Il Gattopardo” referindo-se à política: «Às vezes é preciso que algo mude, para que tudo fique na mesma». É essa a lição que Paula e Roger nos dão, mudando o seu estado civil, de acordo com o que deles se esperava, para que a relação possa ter uma razão de continuar, ainda que, de facto, tudo fosse ficar na mesma.

Elogiado pela elegância dos actores, cenografia e banda sonora – com a música de Brahms em destaque –, “Mais uma Vez, Adeus” foi bem recebido na Europa, mas mais friamente nos Estados Unidos. Percebia-se que, mesmo continuando a mostrar o seu bom gosto e elegância nos filmes em que participava, a estrela de Bergman desvanecia-se já, em termos de grande público. Com estreia em Cannes, o filme mereceu uma nomeação à Palma de Ouro, enquanto Perkins era consagrado com o prémio de Melhor Actor.

Anthony Perkins e Ingrid Bergman em "Mais uma Vez, Adeus" (Goodbye Again, 1961), de Anatole Litvak

Produção:

Título original: Goodbye Again; Produção: Argus Film / Mercury Productions; País: França / EUA; Ano: 1961; Duração: 115 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: Maio de 1961 (Festival de Cannes, França), 24 de Maio de 1961 (França).

Equipa técnica:

Realização: Anatole Litvak; Produção: Anatole Litvak, Robert Benjamin [não creditado], Arthur Krim [não creditado]; Argumento: Samuel A. Taylor [a partir do romance “Aimez-vous Brahms” de Françoise Sagan]; Música: Georges Auric; Letras: Dory Langdon; Fotografia: Armand Thirard [preto e branco]; Montagem: Bert Bates; Design de Produção: ; Direcção Artística: Alexandre Trauner; Figurinos: Jean Zay, Christian Dior (Ingrid Bergman); Caracterização: John O’Gorman, Georges Bouban; Direcção de Produção: Julien Derode.

Elenco:

Ingrid Bergman (Paula Tessier), Yves Montand (Roger Demarest), Anthony Perkins (Philip Van der Besh), Jessie Royce Landis (Mrs. Van der Besh), Pierre Dux (Maître Fleury), Jocelyn Lane [como Jackie Lane] (Primeira Maisie), Jean Clarke (Segunda Maisie), Michèle Mercier (Terceira Maisie), Alison Leggatt (Alice), Uta Taeger (Gaby), David Horne (Promotor Público), Peter Bull (Cliente), André Randall (Mr. Steiner), Diahann Carroll (Cantora do Night Club).