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Die Ehe der Maria Braun No dia do casamento de Maria (Hanna Schygulla) e Hermann Braun (Klaus Löwitsch), em plena Segunda Guerra Mundial, a Alemanha está a ser bombardeada, e o noivo tem apenas meio-dia e uma noite para passar com a mulher, antes de regressar à frente de batalha. Finda a guerra, Hermann não volta e todos o crêem morto. Maria tem de fazer pela vida trabalhando num bar de americanos, onde conhece e se torna amante de Bill (George Byrd), de quem vem a engravidar. Só que, entretanto, Hermann regressa, para ver Maria nos braços de outro. Da zaragata que se segue, Bill é morto por Maria, e Hermann assume-se como culpado, sendo preso. Do lado de fora, Maria promete a Hermann que será sua quando ele for libertado, mesmo que até lá tenha de fazer o necessário para garantir estabilidade económica.

Análise:

Partindo da escrita do projecto para televisão “Die Ehen unserer Eltern” (O Casamento dos Nossos Pais), Rainer Wener Fassbinder, trabalhando com Peter Märthesheimer e Pea Fröhlich, criou, com um orçamento acima do habitual, um filme que se tornava uma quase alegoria da Alemanha do pós-guerra. Gorada a presença da estrela Romy Schneider, Fassbinder trouxe de volta a diva dos seus primeiros filmes, Hanna Schygulla, com quem já não trabalhava há quatro anos.

Em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, Maria (Hanna Schygulla) e Hermann Braun (Klaus Löwitsch) casam-se, sob um pesado bombardeamento. Finda a cerimónia, Hermann, um soldado, é chamado de volta à frente de guerra, e Maria não tem notícias dele durante muito tempo, pelo que, com a guerra terminada, todos acreditam que Herman morreu. Para ganhar a vida, Maria começa a trabalhar num bar frequentado por soldados americanos. Aí inicia uma relação com Bill (George Byrd), que lhe dá todo o tipo de ajuda, e de quem Maria engravida. Só que, entretanto, Hermann regressa para encontrar a esposa na cama de outro. Na luta que se segue, Maria acaba por defender Hermann, ferindo Bill mortalmente, mas no julgamento Hermann dá-se por culpado e é preso, enquanto Maria vem a abortar. Conhecendo o industrial Karl Oswald (Ivan Desny), Maria começa a trabalhar como sua assistente. De assistente, Maria passa a amante de Oswald, que lhe dá meios para subir na vida, e na sua empresa, enquanto ela assegura a Hermann que quando ele sair da prisão recomeçarão a vida juntos, e tudo o que acontecer até lá é apenas um meio para tornar essa vida possível. Mas Oswald sabe da existência de Hermann e visita-o na prisão, prometendo-lhe metade da sua herança, desde que ele não volte para Maria depois de libertado. Quando Hermann é libertado, Maria não o encontra à sua espera, pois este prefere emigrar para ganhar a sua fortuna no Canadá, e assim merecer a esposa. Entretanto, Oswald morre e Hermann regressa. Na leitura do testamento a Maria e Hermann é revelado o acordo entre este e Oswald, no qual ele deixou metade da sua fortuna a cada um dos dois. Quando os executores do testamento abandonam o local, dá-se uma enorme explosão, na qual Maria morre.

Lidando com um drama na pessoa da titular Maria Braun (Hanna Schygulla no auge da sua beleza), é claro, no filme de Fassbinder, que a verdadeira protagonista é a Alemanha do pós-guerra, e todas as transformações e adaptações por que passa, no lamber das feridas e entrar em novas realidades. Dos soldados que não voltam, à constante presença americana, do regatear de bens essenciais às relações amorosas entre mulheres e soldados (quantas vezes a troco de outros interesses), passando depois pelo estabilizar de Maria, novas profissões, adaptação à realidade industrial e, finalmente a prosperidade económica, é quase como se Maria fosse a Alemanha, sofrendo e evoluindo com ela, por vezes prostituindo-se, mas sempre na esperança de um futuro melhor e mais digno, que era a promessa do tal casamento interrompido, para mais tarde ser reiniciado.

A própria forma como o filme começa é sintomática. Com um bombardeamento a fazer fugir o juiz da paz, que é agarrado e atirado ao chão por Hermann, para que acabe de assinar os papéis, enquanto tudo à volta são escombros de destruição, mostra um casamento que começa com o pior dos presságios, e por isso está destinado a não correr bem.

Com valores de produção acima daqueles a que estava habituado, Fassbinder faz um filme longo, onde dá atenção ao detalhe em termos de cenografia e guarda-roupa (Hanna Schygulla surge sempre ricamente vestida – e despida – e maquilhada), sem descurar cuidados nos ambientes, e locais, mesmo que estes sejam uma pilha de escombros. No seu centro, o filme apresenta a titular Maria Braun, uma mulher que vemos emergir de uma jovem frágil e insegura, a mulher de negócios, manipuladora e dominante. Maria aprende com a experiência – veja-se como se compromete a trabalhar no bar, apenas a servir bebidas, para terminar na empresa de Oswald, principalmente como sua amante – e aprende a usar a sua sexualidade para obter aquilo que quer. Mas fá-lo com uma inocência muito própria. Nunca negando que tudo o que faz é por Hermann, a quem, de certo modo, no seu íntimo, sempre se mantém fiel, Maria confessa que os seus sentimentos, primeiro por Bill, depois por Oswald, também são sinceros. Esse desprendimento de morais, que é ao mesmo tempo uma honestidade sentimentos que a permite amar vários homens, e manter-se fiel aos seus princípios, fá-la destacar-se. Por isso, Senkenberg (Hark Bohm), o adjunto de Oswald, a inveja e teme, e por isso Willi (Gottfried John), o marido da sua amiga Betti (Elisabeth Trissenaar), embora a tenha como adversária, vê nela aquilo que queria que a esposa fosse. Da inocência e fragilidade inicial à segurança e sensualidade do domínio da sexualidade da sua Maria, Hanna Schygulla brilha, e é o centro do filme em cada cena em que surge.

Por tudo isso, “O Casamento de Maria Braun” é um conto de uma reconstrução, com tudo o que esta tem de compromisso, descoberta e remodelar de caminhos, muitas vezes à custa dos próprios princípios, mas sempre na confiança e esperança de se voltar àquilo que era o propósito inicial. Enriquecido com toda uma série de pequenas histórias e situações em torno da trama principal (os soldados americanos, a luta por rações, o casamento de Betti, o amante da mãe de Maria, as tensões laborais nas fábricas de Oswald, etc.), o filme lança um olhar acutilante para a Alemanha dos anos 50, de costas viradas para a sua congénere oriental, e de olhos postos num futuro que não sabia se poderia alcançar, quando encostada nas lutas entre poderes económicos mais elevados.

O filme foi o maior sucesso internacional de Fassbinder, fazendo parte do que se chamou a trilogia BRD – composta também por “Lola” (1981) e “A Saudade de Veronika Voss” (Die Sehnsucht der Veronika Voss, 1982) – que tinha como motivo a reconstrução da RFA a partir de uma certa alienação das novas gerações, que é, ela própria o leitmotiv do Novo Cinema Alemão. Então já empenhado a preparar a sua obra magna televisiva “Berlin Alexanderplatz” (1980), Fassbinder ressentiu-se da exigência da produção, e mais ainda do facto de Michael Fengler ter vendido os direitos de autor do filme, o estragou a longa relação entre ambos.

Hanna Schygulla em "O Casamento de Maria Braun" (Die Ehe der Maria Braun, 1978), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Die Ehe der Maria Braun [Título inglês: The Marriage of Maria Braun]; Produção: Albatros Filmproduktion / Fengler Films / Filmverlag der Autoren / Tango Film / Trio Film / Westdeutscher Rundfunk (WDR); País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1978; Duração: 120 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 22 de May de 1978 (Festival de Cannes, França), 20 de Fevereiro de 1979 (RFA), 13 de Maio de 1980 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Wolf-Dietrich Brücker, Volker Canaris, Michael Fengler (Albatros-Produktion); Co-Produção: Hanns Eckelkamp; Argumento: Pea Fröhlich, Peter Märthesheimer [a partir de uma ideia de Rainer Werner Fassbinder]; Música: Peer Raben; Fotografia: Michael Ballhaus [cor por Fujicolor]; Montagem: Rainer Werner Fassbinder [como Franz Walsch], Juliane Lorenz; Design de Produção: Norbert Scherer; Cenários: Arno Mathes, Hans-Peter Sandmeier, Andreas Willim; Figurinos: Barbara Baum; Caracterização: Anni Nöbauer; Direcção de Produção: Harry Baer, Martin Häussler.

Elenco:

Hanna Schygulla (Maria Braun), Klaus Löwitsch (Hermann Braun), Ivan Desny (Karl Oswald), Gisela Uhlen (Mãe), Elisabeth Trissenaar (Betti Klenze), Gottfried John (Willi Klenze), Hark Bohm (Senkenberg), George Eagles [como George Byrd] (Bill), Claus Holm (Médico), Günter Lamprecht (Hans Wetzel), Anton Schiersner (Avô Berger), Lilo Pempeit (Senhora Ehmke), Sonja Neudorfer (Enfermeira da Cruz Vermelha), Volker Spengler (Revisor do Comboio), Isolde Barth (Vevi), Bruce Low (Americano na Conferência), Günther Kaufmann (Americano no Comboio), Karl-Heinz von Hassel (Advogado de Acusação), Kristine de Loup (Notário), Hannes Kaetner (Juiz da Paz), Michael Ballhaus (Advogado), Barbara Baum, Peter Berling (Bronski), Rolf Bührmann (Director da Prisão), Rainer Werner Fassbinder (Pedinte), Martin Häussler (Repórter), Horst-Dieter Klock (Homem com Carro), Georg Kuhn, Norbert Scherer (Director da Prisão), Andreas Willim.

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