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Joan of ArcNo início do século XV, quando ainda se combate a Guerra dos Cem Anos, que vai dividindo a França, uma donzela de Lorraine começa a falar de uma voz de Deus que lhe diz como vencer a guerra. Ela é Joana (Ingrid Bergman), cujo carisma leva o governador de Vaucouleurs (George Coulouris) a levá-la a conhecer o Delfim de França (José Ferrer), que ela convence a atacar Orleães, após o que, o coroa Rei de França, para despeito dos inimigos de Inglaterra e Borgonha que a apelidam de feiticeira, e querem a sua cabeça, a bem das suas pretensões territoriais.

Análise:

Depois de Maria Falconetti, em “A Paixão de Joana d’Arc” (La Passion de Jeanne d’Arc, 1928), de Carl Theodor Dreyer, mas antes de Jean Seaberg, em “Santa Joana” (Saint Joan, 1957), de Otto Preminger, e de Florence Delay, em “O Processo de Joana d’Arc” (Procès de Jeanne d’Arc, 1962), de Robert Bresson, Ingrid Bergman deu vida à heroína francesa do século XV, que ajudou a virar a Guerra dos Cem Anos, morrendo como mártir na fogueira, por uma inexplicável devoção religiosa. Com realização de Victor Fleming, o filme foi (na época) uma super-produção, como as que marcariam a ostentação colorida de Hollywood nos anos vindouros, onde o cuidado com o realismo – quer temático quer cénico – deixava muito a desejar.

Com a personagem titular no centro do filme, Joana d’Arc (Ingrid Bergman) é-nos mostrada já adulta, e ciente de que tem por missão salvar França, no que a família discorda, por medo de a perder. Inamovível, Joana chama o governador da região (George Coulouris), e convence-o imediatamente de que deve visitar o Delfim de França (José Ferrer), para o convencer a atacar Orleães, e assumir o trono de França como seu. Na visita ao palácio, recebida como anedota, Joana, com o seu carisma, impressiona o Delfim, e este acede aos seus pedidos, acreditando que Deus fala à donzela. Segue-se o ataque, e embora com pesadas baixas, e o ferimento de Joana, as suas tropas obtêm a vitória. O Delfim é coroado como Charles VII, rei de toda a França, mas cresce a acusação de bruxaria sobre Joana, com as forças de Inglaterra e da Borgonha a conspirarem contra ela. Charles, contente com a coroa, desiste da guerra, e permite que Joana seja capturada pelo Conde do Luxemburgo (J. Carrol Naish). Segue-se o longo julgamento de Rouen, dirigido pelo corrupto Conde-Bispo de Beauvais (Francis L. Sullivan), e onde Joana é acusada de feitiçaria, e condenada a morrer na fogueira.

Pouco conhecido, é o facto de que o melodrama de tema histórico “Joana d’Arc” – já com a tradição no cinema de ser uma das mais dolorosas histórias já filmadas – tem origem no teatro, na peça de Maxwell Anderson “Joan of Lorraine” (1946), na qual uma companhia de actores encena a história de Joana d’Arc, e que o próprio Anderson adaptaria para o grande ecrã. Esse facto dá ao filme uma extrema concisão, fazendo-o girar em torno de apenas alguns momentos (a revelação de Joana; a viagem para Chinon; o encontro com o Delfim; a batalha de Orleães; e a captura e julgamento de Joana). Tudo o resto é acessório, e é sempre nesses momentos em que Ingrid Bergman toma o ecrã, que o filme avança e se revela.

Depois da tradição estabelecida por Dreyer no seu filme de 1928, Joana D’Arc passou ao cinema como matéria de melodrama operático, centrado na paixão da personagem titular. E é uma história de «paixão» no sentido bíblico, onde o martírio de Joana tem muitos paralelos no de Jesus Cristo (de uma anunciação a uma morte em nome de Deus). Por essa razão, mais que os factos históricos ou a descrição de uma época, também Fleming percebeu que o seu foco teria de ser a personalidade de Joana, com uma Ingrid Bergman no topo da sua carreira, cavalgando sucesso após sucesso, recebendo mais uma nomeação aos Oscars da Academia.

Com uma fotografia fulgurante, e muitos cenários com fundo em tela pintada, que conferem à imagem um grau pictórico irrealmente belo, o filme de Fleming sofre, no entanto, das amarras à sua fonte teatral. Com longos monólogos e discursos teatralmente inflamados sobre Deus e patriotismo, fica sempre a ideia de estarmos perante algum tipo de propaganda, numa produção demasiado estática, apenas salva pela interpretação comovente de Ingrid Bergman.

De facto, sem termos uma presença mística acentuada – se excluirmos as cenas em que vemos Joana a meditar, iluminada por uma luz que lhe chega de cima – tudo parece centrar-se na fé da donzela, que, sem razão aparente, se convence, e convence todos à sua volta, a lutar por uma França independente de poderes externos, e acabando traída por aquele que coloca no trono (o Delfim), que vê na nova posição militar, um ponto de obter a paz, mesmo que à custa daquela que o ajudou. Com a peça central a ser o julgamento final – que ocupa mais de 40 minutos do filme –, nota-se que não há grande necessidade de combater argumentos, mas apenas mostrar a inocência (no sentido lato) de Joana, nas suas boas intenções e coração puro (para não falar da beleza exuberante de Ingrid Bergman, aqui com um corte de cabelo masculino).

Não obstante a boa recepção pela crítica, oito nomeações aos Oscars e três estatuetas (Direcção Artística, Fotografia, e Oscar Honorário para o produtor Walter Wanger – recusado pelo produtor, por o filme não ser nomeado na categoria de Melhor Filme), “Joana d’Arc” foi acolhido mais friamente pelo público, acabando por ser um prejuízo para Wanger. Depois do fracasso do anterior “O Arco do Triunfo” (Arch of Triumph, 1948), restaria a Ingrid Bergman uma terceira colaboração com Alfred Hitchcock, antes de resolver mudar de vida.

“Joana d’Arc” seria o último filme realizado por Victor Fleming.

Produção:

Título original: Joan of Arc; Produção: Walter Wanger Productions [como Sierra Pictures]; País: EUA; Ano: 1948; Duração: 145 minutos; Distribuição: RKO Radio Pictures; Estreia: 11 de Novembro de 1948 (EUA), 27 de Outubro de 1949 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Victor Fleming; Produção: Walter Wanger; Argumento: Maxwell Anderson, Andrew Solt [a partir da peça de teatro “Joan of Lorraine” de Maxwell Anderson]; Música: Hugo Friedhofer; Direcção Musical: Emil Newman; Fotografia: Joseph A. Valentine [filmado em RKO-scope, cor por Technicolor]; Montagem: Frank Sullivan; Direcção Artística: Richard Day; Cenários: Joseph Kish, Casey Roberts; Figurinos: Dorothy Jeakins, Barbara Karinska, Raoul Pene Du Bois; Caracterização: Jack P. Pierce; Efeitos Visuais: Jack Cosgrove, John P. Fulton; Direcção de Produção: Norman A. Cook [não creditado].

Elenco:

Em Domrémy, terra natal de Joana em Lorraine, Decembro de 1428:
Ingrid Bergman (Joana d’Arc), Selena Royle (Isabelle d’Arc, a Mãe), Robert Barrat (Jacques d’Arc, o Pai), James Lydon (Pierre d’Arc, Irmão Mais Novo), Rand Brooks (Jean d’Arc, Irmão Mais Velho), Roman Bohnen (Durand Laxart, O Tio).
Em Vaucouleurs, Fevereiro de 1429:
Irene Rich (Catherine le Royer, Uma Amiga), Nestor Paiva (Henri le Royer, Marido de Catherine), Richard Derr (Jean de Metz, Um Cavaleiro), Ray Teal (Bertrand de Poulengy, Um Escudeiro), David Bond (Jeun Fournier, Pároco de Vaucouleurs), George Zucco (Polícia de Clervaux), George Coulouris (Sir Robert de Baudricourt, Governador de Vaucouleurs).
A Corte de Charles VII em Chinon, Março de 1429:
John Emery (Jean, Duke d’Alençon, Primo de Charles), Gene Lockhart (Georges de la Trémoille, Conselheiro-mor do Delfim), Nicholas Joy (Regnault de Chartres, Arcebispo de Rheims e Chanceler da França), Richard Ney (Charles de Bourbon, Duque de Clermont), Vincent Donohue (Alain Chartier, Poeta da Corte), José Ferrer (O Delfim, Charles VII, Depois Rei de França).O Exército na Batalha de Orleães, Maio de 1429:
Leif Erickson (Dunois, Bastardo de Orleães), John Ireland (Jean de la Boussac (St. Severe), Um Capitão), Henry Brandon (Gilles de Rais, Um Capitão), Morris Ankrum (Poton de Xaintrailles, Um Capitão), Tom Brown Henry (Raoul de Gaucourt, Um Capitão), Gregg Barton (Louis d’Culan, Um Capitão), Ethan Laidlaw (Jean d’Aulon, Escudeiro de Joana), Hurd Hatfield (Father Pasquerel, Capelão de Joana), Ward Bond (La Hire, Um Capitão).
O Inimigo:
Frederick Worlock (John de Lancaster, Duquee of Bedford, Regente de Inglaterra), Dennis Hoey (Sir William Glasdale), Colin Keith-Johnston (Filipe o Bom, Duque de Borgonha), Mary Currier (Jeane, Condessa do Luxemburgo), Ray Roberts (Lionel of Wandomme, Um Capitão de Borgonha), J. Carrol Naish (John, Conde do Luxemburg, Captor de Joana).
O Julgamento em Rouen, de 21 de Fevereiro a 20 de Maio de 1431:
Francis L. Sullivan (Bispo Pierre Cauchon of Beauvais, O Condutor do Julgamento), Shepperd Strudwick (Padre Jean Massieu, O Defensor de Joana), Taylor Holmes (Bispo de Avranches), Alan Napier (Earl de Warwick), Philip Bourneuf (Jean d’Estivet, Acusador), Aubrey Mather (Jean de La Fontaine), Herbert Rudley (Thomas de Courcelles, Acusador), Frank Puglia (Nicolas de Houppeville, Juiz), William Conrad (Guillaume Erard, Acusador), John Parrish (Jean Beaupere, Juiz), Victor Wood (Nicolas Midi, Juiz), Houseley Stevenson (Cardeal de Winchester), Jeff Corey (Carcereiro), Bill Kennedy (Thierache, Carrasco), Cecil Kellaway (Jean Le Maistre, Inquisidor of Rouen).

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