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Arch of Triumph Em Paris, em 1938, cheira a início de guerra, com muitos exilados dos territórios sob alçada nazi a refugiarem-se na capital francesa. Um deles é o médico checo Dr. Ravic (Charles Boyer), que ali exerce ilegalmente, quando uma noite reconhece o seu torturador das S.S. Ivon Haake (Charles Laughton). Ravic sabe que tem de matar Haake, mas entretanto conhece a jovem Joan Madou (Ingrid Bergman), e os dois vivem um romance toldado pelo medo da deportação, a qual acontece, quando Ravic é envolvido numa investigação por simples coincidência circunstancial. Ravic volta, mais tarde, e os seus propósitos mantêm-se. Já a relação com Joan não voltará a ser a mesma.

Análise:

Com um argumento escrito inicialmente por Irwin Shaw, que acabou por nem ser creditado, quando a produção preferiu uma história com mais forte componente amorosa, “O Arco do Triunfo” é um drama de amor passado em tempo de guerra, realizado por Lewis Milestone a partir do romance homónimo de Erich Maria Remarque – o mesmo autor de quem Milestone tinha adaptado o célebre “A Oeste Nada de Novo” (All Quiet on the Western Front, 1930) –, filmado na França do pós-guerra, que lembra um pouco o mítico “Casablanca”, não tivesse ele também a presença de Ingrid Bergman.

A acção decorre nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, quando muitos refugiados deixavam a Alemanha e Áustria, para se encontrarem em Paris. Um deles é o exilado checo Dr. Ravic (Charles Boyer), que pratica medicina ilegalmente, quando encontra fortuitamente o seu antigo torturador nazi Ivon Haake (Charles Laughton), que Ravic se dispõe a matar. As coisas complicam-se quando Ravic conhece a jovem em apuros Joan Madou (Ingrid Bergman), os dois enamoram-se, mas um incidente que ocorre no hotel de Ravic fá-lo alvo da polícia, e ele é preso e deportado. Ravic consegue voltar, como prometido, mas muitas semanas depois, e Joan tem agora outro amante (Stephen Bekassy), que ela buscou por protecção, mas não ama. Aos repelões, o par volta a aproximar-se, mas se Ravic, por um lado, recrimina Joan por não ter coragem de deixar o seu novo amante, por outro sabe que precisa de matar Haake, o que lhe pode valer nova prisão e deportação. Finalmente Ravic leva a cabo o seu plano, matando Haake, enquanto a guerra rebenta. Por seu turno, e tal como havia dito várias vezes, Joan, ao tentar deixar o amante acaba atingida a tiro por este. Ravic é chamado para a salvar, mas é demasiado tarde, sendo depois disso encarcerado, desta vez definitivamente.

Com uma rough cut de quase quatro horas, que acabou numa versão final de apenas duas, muito das decisões editoriais de “O Arco do Triunfo” passaram pela forte crítica da MPAA à violência no filme. Das cenas de tortura à morte de Haake, muito no filme de Milestone era inicialmente cru e com fortes toques de sadismo, algo impensável pelos padrões da altura. Linhas narrativas foram cortadas completamente, e personagens desapareceram, embora a restauração mais recente (levando o filme aos 133 minutos actuais) tenha trazido alguns elementos de volta, incluindo, por exemplo, algumas cenas com a personagem de Ruth Warrick, que tinha sido completamente apagada da versão que estreou nos cinemas em 1948.

Mas, condicionalismos editoriais à parte, o que me mais marcará “O Arco do Triunfo” é um contexto que relembra “Casablanca” (1942), de Michael Curtiz. Novamente com Ingrid Bergman no papel da mulher torturada entre decisões de amor e dever, o filme é quase que uma versão ao espelho do de Curtiz. Se, em “Casablanca”, a história de amor surge como que redime as personagens, que vão preferir mais altos ideais – com os ecos da guerra em pano de fundo –, em “O Arco do Triunfo” esses mesmos ideais e ecos de guerra (neste caso, não por ser distante, mas por ainda não ser ter iniciado), parecem não ser mais que um empecilho do romance, diminuindo e destruindo vidas.

Embora, no papel, tenhamos também um triângulo amoroso, uma das suas arestas é-nos completamente alheia. Joan Madou procura Alex, tanto por segurança, como por não poder suportar mais a dor de voltar a perder Ravic, o homem que ela verdadeiramente ama, mas que está sempre a um passo de voltar a ser preso. Quanto a Ravic, a sua vontade de vingança é mais forte que o seu amor por Joan. Pelo meio há muitas recaídas. Procurando-a, ou voltando a deixar o ciúme enfurecê-lo contra ela; querendo-a, ou querendo protege-la da sina que o espera, Ravic vai sentir sempre que tem uma missão: matar Haake – o sanguinário torturador nazi (num papel que Charles Laughton parece encarnar com prazer) – que, como se diz a dada a altura, em cada regresso à Alemanha é responsável pela morte de muitos inocentes.

Descrevendo-nos uma Paris enervada com a perspectiva da guerra, onde tantos vivem no pânico de serem deportados, e outros na alienação dos clubes nocturnos, o filme mostra-nos ainda outros ecos, como o da Espanha de Franco, com espanhóis em Paris, alegres pela vitória do Generalíssimo, que correm o ajudar, para despeito de Ravic e do seu fiel amigo russo Morosov (numa simpática prestação de Louis Calhern, como o antigo tenente-coronel da Rússia czarista, que agora foge da Guerra Civil Espanhola, e vive como porteiro de um clube nocturno).

Mas, obviamente, o que perdura em “O Arco do Triunfo” é a história de um amor condenado à partida, entre as personagens de Ingrid Bergman e Charles Boyer – curiosamente o par de “À Média Luz” (Gaslight, 1944), de George Cukor –, o qual começa num encontro fortuito onde Ravic vê Joan a contemplar o suicídio. Amor em tempo de pré-guerra, a história de Ravic e Joan é sempre ensombrada por essa guerra iminente, por crimes, medos de deportação e as dores inerentes a essas mais que previsíveis separações. Se, por um lado, Ravic é obstinado no seu propósito, a Joan de Bergman surpreende pela capacidade de mudança. Ela é frágil e temerosa num momento, para ser manipuladora e calculista no seguinte, com Bergman acrescentando muita textura a uma personagem que nos mantém sempre inquietos e algo perplexos.

Seja como for, pelos avanços e recuos da história, pela necessidade de colagem a “Casablanca”, e pela disparidade de temas que o filme tenta conter, numa estrutura final que se suspeita muito ferida das suas várias reedições, “O Arco do Triunfo” torna-se um objecto algo difícil, e que parece nunca atingir completamente o patamar a que se propôs. Destaca-se por fim uma estética muito devedora do noir, então muito em voga, e onde a luz e a sombra são, muitas vezes, usadas como definição do cenário.

O filme teve um remake feito para televisão, em 1988, realizado por Waris Hussein, e protagonizado por Anthony Hopkins e Lesley-Anne Down.

Ingrid Bergman em "O Arco do Triunfo" (Arch of Triumph, 1948), de Lewis Milestone

Produção:

Título original: Arch of Triumph; Produção: Enterprise Productions / Arch of Triumph Inc.; Produtores Executivos: Charles Einfeld [não creditado], David L. Loew [não creditado]; País: EUA; Ano: 1948; Duração: 133 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 17 de Fevereiro de 1948 (EUA), 19 de Abril de 1949 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Lewis Milestone; Produção: David Lewis; Produtor Associado: Otto Klement; Argumento: Lewis Milestone, Harry Brown, Irwin Shaw [não creditado] [a partir do livro homónimo de Erich Maria Remarque]; Música: Louis Gruenberg; Direcção Musical: Rudolph Polk; Fotografia: Russell Metty [preto e branco]; Montagem: Duncan Mansfield; Design de Produção: William Cameron Menzies; Direcção Artística: William Flannery; Cenários: Edward G. Boyle; Figurinos: Marion Herwood Keyes, Edith Head (Vestidos de Ingrid Bergman); Caracterização: Gustaf Norin; Efeitos Especiais: Louis Hopper [não creditado]; Efeitos Visuais: Mario Castegnaro; Direcção de Produção: Joseph C. Gilpin.

Elenco:

Ingrid Bergman (Joan Madou), Charles Boyer (Dr. Ravic), Charles Laughton (Ivon Haake), Louis Calhern (‘Coronel’ Boris Morosov), Ruth Warrick (Kate Bergstroem), Roman Bohnen (Dr. Veber), J. Edward Bromberg (Gerente do Hotel em Verdun), Ruth Nelson (Madame Fessier), Stephen Bekassy (Alex), Curt Bois (Criado Tatuado), Art Smith (Inspector), Michael Romanoff (Capitão Alidze).

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