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In einem Jahr mit 13 MondenElvira (Volker Spengler) é uma mulher transsexual a braços com problemas de identidade, que lhe custam relação atrás de relação. Deixada pelo amante Christoph (Karl Scheydt), e deixando-se humilhar publicamente quando procura sexo casual, Elvira encontra conforto na amiga Zora (Ingrid Caven). É com ela, que Elvira vai revisitar pontos-chave do seu passado, como o matadouro onde conheceu Anton, ou o convento onde foi educada, como Erwin, depois de abandonada pela mãe. A sua busca leva-a a procurar Anton (Gottfried John), hoje um especulador imobiliário, e o homem por quem decidiu um dia mudar de sexo.

Análise:

Dizer que “In a Year of 13 Moons” é um dos filmes mais pessoais de Rainer Werner Fassbinder parece algo redundante numa filmografia centrada no mundo idiossincrático do seu autor. Mesmo o facto de, neste filme, Fassbinder, para além da realização e guião, assinar produção, fotografia, montagem e direcção artística, não chega para explicar o porquê daquela afirmação. Mas não é necessário entrar muito na história, para percebermos que estamos num mundo que muito diz ao autor, e como se não bastasse, é uma forma de lidar com a morte de Armin Meier, amante de Fassbinder que se suicidara pouco tempo antes.

O filme mostra-nos os últimos dias de Elvira (Volker Spengler), uma mulher transsexual que continua em busca de algo que não encontra na sua vida. Vemo-la ser espancada num parque quando procurava sexo anónimo, e regressar a casa, onde o amante Christoph (Karl Scheydt) a está a deixar. Em baixo, Elvira é acolhida por Zora (Ingrid Caven), que se torna sua confidente. Elvira conta de como conheceu Anton Saitz (Gottfried John), o homem que a levou a querer mudar de sexo, e revisita o seu passado, primeiro no matadouro onde conheceu Anton, e depois no convento onde cresceu, como Erwin, abandonado pela mãe. Elvira acaba por procurar Anton, que é agora um especulador imobiliário, mas embora este a receba bem, a ligação não surte o efeito desejado. Confundida com a sua situação, Elvira volta a preferir roupas masculinas, e é nelas que tenta reunir-se à ex-mulher Irenre (Elisabeth Trissenaar) e filha Marie-Ann (Eva Mattes), as quais não compreendem esta mudança. Procurando, em vão, a ajuda de um seu amigo escritor (Gerhard Zwerenz), Elvira volta a casa, mais sozinha que nunca, e acaba por ser encontrada morta por amigos e familiares.

Num misto de realismo e surrealismo, Fassbinder dá-nos um conto doloroso, que se centra numa pessoa que mudou de sexo, não se sentindo ainda confortável com a decisão. São muitas as pistas sobre esta ideia, desde os avanços e retrocessos no modo de vestir, nas formas como se sente melhor ou pior com as suas escolhas, e principalmente nas motivações das suas decisões, que passaram por engravidar Irene, ter uma relação com Anton, fugir para Marrocos para a operação, voltar para ver que tinha perdido todos, e continuar uma busca infrutífera, onde as relações carnais são fraco substituto para uma solidão que não a abandona.

Feito de momentos, encontros e reencontros, “In a Year of 13 Moons” (cujo título fala de anos improváveis de que crenças astrológicas descrevem como dados a tragédias) avança como um mosaico, uma espécie de viagem abstracta, onde nem sempre podemos ligar tempos e espaços. Como se fosse sobretudo uma viagem por estados de espírito, onde as visitas (o parque, o matadouro, o convento, o suicida na cave, Anton no seu escritório surreal) não parecem reais, mas sim devaneios, pensamentos, ou fruto de imaginação. Há, nesse sentido, algo que nos recorda a atmosfera onírica de Fellini em “Fellini 8½” (8½, 1963), com o desfile da vida de Elvira/Erwin, em frente dos seus olhos, sem obedecer a regras cronológicas – note-se como no momento da sua morte, todas as personagens que conhecêramos surgem. Já a música, do recorrente “A Song for Europe” dos Roxy Music, ao Adagietto da quinta sinfonia de Mahler – esta, sempre associada a “Morte em Veneza” (Morte a Venezia, 1971), de Luchino Visconti – remete para um romantismo decadente de consequências trágicas.

Mas é tematicamente que o filme mais toca (ou incomoda), com uma personagem central que se assume como pessoa fracturada, que na sua transformação sexual não encontrou solução, antes tentou unir dois mundos, sentindo-se agora perdida entre ambos, vendo que perdeu mais do que ganhou, seja identidade, pessoas ou propósito de vida. Por essa razão o filme de Fassbinder é também um filme fracturado, onde todos os propósitos de Elvira/Erwin parecem condenados e infrutíferos, como uma viagem que se vira para o passado sempre que devia procurar uma solução de futuro.

Algo controverso – as sequências no matadouro são de uma violência gráfica pouco vista –, e nem sempre compreendido, “In a Year of 13 Moons” é o assumir, na fase mais madura do seu autor, de um cinema pessoal e único, quer na forma quer no conteúdo, fiel tanto ao seu lado mais experimental, como ao melodrama de raiz americana que Fassbinder tanto elogiava.

Volker Spengler em "In a Year of 13 Moons" (In einem Jahr mit 13 Monden, 1978), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: In einem Jahr mit 13 Monden; Produção: Tango Film/ Pro-ject Filmproduktion / Filmverlag der Autoren; Produtores Executivos: ; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1969; Duração: 124 minutos; Estreia: 17 de Novembro de 1978 (RFA).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Rainer Werner Fassbinder; Produtor Associado: ; Argumento: Rainer Werner Fassbinder; Música: Peer Raben; Fotografia: Rainer Werner Fassbinder [cor por Eastmancolor]; Montagem: Rainer Werner Fassbinder, Juliane Lorenz; Design de Produção: Franz Vacek; Direcção Artística: Rainer Werner Fassbinder; Figurinos: ; Caracterização: Jo Braun; Direcção de Produção: Isolde Barth.

Elenco:

Volker Spengler (Erwin / Elvira Weishaupt), Ingrid Caven (Rote Zora), Gottfried John (Anton Saitz), Elisabeth Trissenaar (Irene Weishaupt), Eva Mattes (Marie-Ann Weishaupt), Günther Kaufmann (J. Smolik, Motorista), Lilo Pempeit [como Lieselotte Pempeit] (Schwester Gudrun), Isolde Barth (Sybille), Karl Scheydt (Christoph Hacker), Walter Bockmayer (Seelenfrieda), Peter Kollek (Alcoólico), Bob Dorsay (Vagabundo), Gerhard Zwerenz (Burghard Hauser, Escritor), Rainer Werner Fassbinder (Dobragem de voz de Walter Bockmayer) [não creditado], Wolfgang Hess (Dobragem de voz de Bob Dorsay) [não creditado].

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