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The Bells of St. Mary's St. Mary’s é uma paróquia e colégio dirigido por freiras, que recebe um novo padre, o irlandês O’Malley (Bing Crosby), homem pragmático e algo mundano, que vem avaliar se o velho edifício merece ser salvo, ou se deve ser encerrado, enviando-se as crianças para outra escola longe dali. Quem quer fazer tudo para salvar St. Mary’s são as freiras, lideradas pela irmã Benedict (Ingmar Bergman), que têm como principal arma a fé. Por isso rezam para que Horace P. Bogardus (Henry Travers), o construtor que acabou de erigir um imponente edifício junto à escola, não só não as expulse considerando a escola em decadência, como veja a luz e lhes dê o novo edifício para nova escola. Será entre o bom senso de O’Malley e o rigor de Benedict, que as soluções para a escola e alunos irão ser encontradas.

Análise:

Produzido para a RKO, pela Rainbow Productions de Leo McCarey – um dos realizadores mais bem sucedidos do seu tempo em Hollywood – o qual produziu e realizou o filme a partir de uma ideia sua, “Os Sinos de Santa Maria” une Ingrid Bergman (novamente cedida por David O. Selznick) e Bing Crosby, no que se pretendia uma história simples e comovente para toda a família, onde os valores morais e religiosos estão a par do bom senso que Hollywood vendia como sendo o modelo americano.

O filme fala da chegada do padre O’Malley (Bing Crosby) à paróquia de St. Mary’s para ajudar ao colégio dirigido pelas freiras da irmandade onde a madre superiora é a bem jovem Irmã Benedict (Ingrid Bergman). A forma de estar descontraída e algo mundana do padre contrasta com as regras rígidas das freiras, como se vê logo no episódio do feriado dado às crianças no dia da sua chegada, para crítica da irmã Benedict. Essa diferença vai subsistir no modo como o padre O’Malley recebe uma nova aluna – Patricia (Joan Carroll) –, a filha de Mary Gallagher (Martha Sleeper), uma mulher com uma vida pouco recomendável, cuja história de amor perdido comoveu o padre. Com peripécias como o treino de pugilismo de um dos garotos (Richard Tyler), o reencontro de Mary com o marido perdido (William Gargan), e a educação complicada de Patricia, o ponto fulcral é a decadência do edifício da escola, assolado pela investida do construtor Horace P. Bogardus (Henry Travers), que quer o terreno para um parque de estacionamento, enquanto as freiras rezam para que ele veja a luz e lhes ceda o seu novo edifício para que se torne a nova escola. Intervenção divina ou não, será O’Malley a convencer o médico de Bogardus (Rhys Williams) a dar-lhe um susto com a sua saúde, para que este queira passar de avarento a generoso. O plano resulta, não sem que antes a própria irmã Benedict seja diagnosticada com tuberculose e tenha de ser enviada para longe da escola que tanto ama.

É nítido desde o início do filme, que “Os Sinos de Santa Maria” é uma obra que procura trazer uma boa disposição a toda a família, num gosto moralista, de piscadela de olho religiosa, onde tudo o que vai prevalecer são os bons sentimentos com que Hollywood quer inspirar a sociedade norte-americana que saía agora da dolorosa Segunda Guerra Mundial.

Se no início há uma leve sugestão de conflito, no modo como a empregada Mrs. Breen (Una O’Connor – uma das mais divertidas actrizes-tipo de Hollywood do seu tempo), explica entre meias-palavras como o antecessor de O’Malley sofreu tanto com as freiras que saiu em cadeira de rodas, esse antever de conflito logo se revela inexistente. Há, claro, uma diferença de abordagem entre o padre – um irlandês, pragmático, mundano, apreciador de boxe e receptivo a fechar a escola por um bom negócio – e as freiras comandadas pela jovem, mas carismática, irmã Benedict. É da parte das freiras que chega o contraponto espiritual ao bom senso do pragmatismo bem-intencionado que se promove no filme para o espectador. Por isso elas não abdicam do rigor na educação, acreditam no milagre que lhe dará uma nova escola, e são intolerantes para com desvios – seja a luta das crianças, ou a vida devassa da mãe de Patricia.

Mas, como não podia deixar de ser num filme deste género, os conflitos são apenas no papel. Padre e freiras tornam-se logo amigos, e cedo vemos a irmã Benedict a ensinar boxe a um dos seus pupilos só para mostrar a O’Malley que está à sua altura. Tudo isto é polvilhado com algum humor, sempre daquele humor bonitinho e redondo, para pais e filhos, como a sequência do gato que brinca com o chapéu do padre. Pelo meio passamos por vários números musicais, pois seria impossível pensar Bing Crosby num filme sem cantar, e ouvimos Ingrid Bergman a cantar em sueco. De destaque é ainda – quase como um filme dentro do filme – o pequeno teatro improvisado pelas crianças de St. Mary’s, que recriam de modo muito original e perfeitamente orgânico, a natividade.

Por fim, temos as duas narrativas principais: a história de Patricia, e o edifício de Bogardus. A primeira, filha de mãe abandonada, e que – embora não seja explícito, é mais que óbvio nas trocas de olhares – se prostitui para poder criar a filha. Como se quer num filme feito para nos fazer sentir bem, ela reencontra o marido, ambos ficam imediatamente felizes como se os quinze anos de abandono tivessem sido quinze minutos de distracção, e todos ficam perfeitamente felizes. Quanto à segunda, por artifício cómico, o padre convence Bogardus – que no ano seguinte se tornaria o bonacheirão anjo de “Do Céu Caíu uma Estrela” (It’s a Wonderful Life, 1946) de Frank Capra – que dar é mais compensador que enriquecer, e de um minuto para o outro, o cioso milionário torna-se o mais generoso dos homens, de fazer inveja a qualquer Ebenezer Scrooge.

Claro que muito no filme parece não fazer sentido: O médico de Bogardus dispõe-se a enganá-lo sobre a sua saúde para o tornar uma pessoa boa; o mesmo médico e O’Malley, para não entristecer a irmã Benedict quanto à sua saúde, dispõem-se a mentir, congeminando uma espécie de “expulsão” de tudo o que ela sempre amou, que obviamente lhe faria mais mal animicamente que saber que tinha que se curar de uma doença. Mas no final tudo acaba em bem, e os espectadores saiem a acreditar que todos podemos ser pessoas boas, e ajudar os outros a tornarem-se tal. Era isso que a fábrica de sonhos de Hollywood precisava então de dizer.

Com a sua mensagem de bondade, a associação à época natalícia e as excelentes interpretações – sóbrias, simples, mas perfeitas – de Crosby e Bergman, ainda que criticado de se parecer muito com “O Bom Pastor” (Going My Way, 1944), do mesmo McCarey, e onde Bing Crosby fora já o padre O’Malley – “Os Sinos de Santa Maria” foi um enorme sucesso de bilheteira. O filme venceu o Oscar de Melhor Som, e recebeu ainda mais sete nomeações, entre as quais as de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor (Crosby) e Melhor Actriz (Bergman), no que era a terceira nomeação consecutiva da actriz sueca.

Ingrid Bergman em "Os Sinos de Santa Maria" (The Bells of St. Mary’s, 1945), de Leo McCarey

Produção:

Título original: The Bells of St. Mary’s; Produção: Rainbow Productions; País: EUA; Ano: 1945; Duração: 121 minutos; Distribuição: RKO Radio Pictures; Estreia: 6 de Dezembro de 1945 (EUA), 19 de Dezembro de 1946 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Leo McCarey; Produção: Leo McCarey; Argumento: Dudley Nichols [a partir de uma história de Leo McCarey]; Música: Robert Emmett Dolan; Fotografia: George Barnes [preto e branco]; Montagem: Harry Marker; Direcção Artística: William Flannery, Albert S. D’Agostino [não creditado]; Cenários: Darrell Silvera; Figurinos: Edith Head; Efeitos Especiais: Vernon L. Walker.

Elenco:

Bing Crosby (Padre Chuck O’Malley), Ingrid Bergman (Irmã Mary Benedict), Henry Travers (Horace P. Bogardus), William Gargan (Joe Gallagher, Pai de Patsy), Ruth Donnelly (Irmã Michael), Joan Carroll (Patricia ‘Patsy’ Gallagher), Martha Sleeper (Mary Gallagher, Mãe de Patsy), Rhys Williams (Dr. McKay), Richard Tyler (Eddie Breen), Una O’Connor (Mrs. Breen).