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Gaslight Paula Alquist (Ingrid Bergman) é uma aspirante a cantora lírica com um trauma passado: o misterioso assassinato da sua tia Alice, ela também uma cantora de renome. Praticando (e curando-se do trauma) em Itália, Paula conhece Gregory Anton (Charles Boyer), um pianista, com quem casa. Só que Anton quer viver em Londres, e isso obriga Paula a voltar à casa que quis esquecer. Uma vez lá, Paula começa a sentir-se a esquecer incidentes, a perder objectos e a ter gestos que não recorda. Tudo contribui para que duvide cada vez mais da sua sanidade, o que não passa de um plano do seu marido, que deseja enlouquecê-la.

Análise:

Filmada antes, em 1940, por Thorold Dickinson na Inglaterra, a peça “Gas Light” (1938), de Patrick Hamilton, levou a MGM a apostar num remake dirigido por um dos seus nomes de proa, o clássico George Cukor. Thriller psicológico, fazendo-nos pensar naquilo a que habitualmente chamamos hitchcockiano, “Meia Luz” beneficiou das presenças de Ingrid Bergman e Joseph Cotten, dois actores emprestados à MGM por David O. Selznick, curiosamente dois nomes fortes da filmografia de Alfred Hitchcock.

O filme acompanha a história de Paula Alquist (Ingrid Bergman), uma promissora cantora lírica, que vemos, no início abandonar Londres deixando para trás a tragédia que lhe vitimou a tia Alice Alquist, uma estrela internacional, sem que o assassino tivesse sido encontrado. Agora em Itália, Paula trabalha com o maestro Guardi (Emil Rameau), quando se apaixona com o pianista Gregory Anton (Charles Boyer). Os dois decidem casar repentinamente, e por capricho dele, que sempre quis viver em Londres, Paula acede em voltar à velha casa da tia, agora sua por herança. Mas uma vez chegados à nova casa, tudo muda, Paula começa a perder objectos e a não se lembrar de coisas que aconteceram há pouco tempo, ou pelo menos disso a convence Gergory. Tudo contribui para Paula ficar cada vez mais nervosa, e reclusa em casa, onde a tremulação da luz a gás, e estranhos ruídos provindos de parte incerta, a fazem começar a acreditar estar a enlouquecer. Quem pensa de outra forma é Brian Cameron (Joseph Cotton), um detective que nunca esqueceu o caso da morte da tia de Paula, por ter sido admirador dela. Vigiando a casa de Paula e Gregory, Brian começa a suspeitar das estranhas idas e vindas de Gregory e da reclusão de Paula, até descobrir que aquele tenta enlouquecer Paula, para um dia ter a posse legal da casa, enquanto procura ainda as jóias desaparecidas da tia.

Conhecido inicialmente no Reino Unido como “The Murder in Thornton Square” – para evitar confusão com o filme inglês do mesmo nome de 1940 –, “Meia Luz” é uma rara entrada de Cukor no domínio do thriller psicológico. Filmando a preto e branco, e apostado na atmosfera sóbria e nevoeirenta sugerida por Londres, Cukor centra o filme num simples conceito: a progressiva perda de razão da protagonista, em função de uma série de pequenos incidentes, qualquer deles absolutamente insignificante de per si. E se o já citado Hitchcock disse um dia que um filme é tão bom quão bom for o seu vilão, Cukor parece concordar procurando um tipo de vilão diferente. O Anton de Charles Boyer parece-nos genuinamente apaixonado por Paula, não nos fazendo nunca desconfiar que o casamento possa ter segundas intenções. E legalizado o acto, vemo-lo tratar a esposa com condescendência, é certo, mas sem aparente maldade, a ponto de mesmo nós não percebermos nas primeiras incidências que elas são já um plano para Paula começar a duvidar de si própria. O golpe de Anton torna-se assim um golpe de paciência para que vão contribuindo diversos episódios, alguns provocados, outros quase fortuitos.

Situações como o broche perdido, o relógio de Anton que surge na bolsa de Paula (a sugestão de cleptomania), ou os quadros desaparecidos, são exemplos das manipulações pacientes de Anton. Por outro lado, a insolência da empregada Nancy (uma brilhante Angela Lansbury, então apenas com 18 anos) parece ter saído melhor que a encomenda – tanto a Anton, quanto a Cukor – no projecto de tornar Paula mais insegura e medrosa. Colapsos como o do recital de piano vêm só ajudar, tanto à nossa simpatia pela protagonista, como ao destruir da sua reputação aos olhos dos seus pares, para gáudio do marido, que entretanto já percebemos ser um sinistro sádico, de razões desconhecidas. Icónica torna-se a imagem da diminuição da luz alimentada a gás, espelho daquilo que Paula poderia estar a imaginar, e que por isso dá nome à obra.

Claro que nada disto resultaria nas mãos de actores menos competentes, e aqui há a realçar a riqueza da paleta de emoções transmitidas por Ingrid Bergman. Mais que em qualquer outro dos seus filmes até então, em “Meia Luz” sentimos que é por ela que vemos o filme. Vemo-la alegre, triste, duvidosa, medrosa, aflita, dorida e, por fim, ao descobrir a verdade, irada e vingativa. Por ela sentimos o filme, e graças a ela podemos evoluir de situação em situação, de estado de espírito em estado de espírito. Para além da sublime interpretação de Angela Lansbury devemos ainda destacar Charles Boyer, desconcertante pela forma como mantém a frieza num plano maquiavélico onde parece conseguir tratar a esposa com uma ternura completamente falsa. Por fim, por curiosidade, destaque-se a vizinha interpretada por May Whitty, no papel da abelhuda algo cómica, ela própria uma personagem tipicamente hitchcockiana.

Eficaz, bem construído, com um certo toque noir, mas também gótico – note-se o papel da casa (ricamente decorada), e o peso do passado (numa história que tem uma morta num papel central) –, e com interpretações notáveis – em particular Bergman e Landsbury –, “Meia Luz” não é privado de falhas a nível do argumento. Por exemplo não se percebe porque Anton, casado com Paula, e portanto dono da casa, precisaria de um plano tão rebuscado para algo tão simples como procurar jóias no sótão. Igualmente, não se entende como os meses que leva para enlouquecer Paula não chegam para a dita busca. Por fim, a presença e obstinação do personagem de Joseph Cotten parece algo forçada.

Com a MGM a falhar na sua criminosa pretensão de destruir todas as cópias do filme precedente, o seu “Meia Luz” foi bem sucedido, e muito apreciado pela crítica. O filme foi nomeado para sete Oscars da Academia e venceria dois, Melhor Direcção Artística a Preto e Branco e Melhor Actriz, no primeiro Oscar da carreira de Ingrid Bergman. A estes troféus junta-se ainda o Globo de Ouro para Melhor Actriz.

Graças a este filme, o termo “gaslighting” entrou no léxico da psicologia como a situação de abuso psicológico que leva a vítima a duvidar de si própria.

Ingrid Bergman, Charles Boyer e Anglea Landsbury em "Meia Luz" (Gaslight, 1944), de George Cukor

Produção:

Título original: Gaslight; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1944; Duração: 109 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 4 de Maio de 1944 (EUA), 26 de Março de 1946 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: George Cukor; Produção: Arthur Hornblow Jr.; Argumento: John Van Druten, Walter Reisch, John Balderston [a partir da peça “Gas Light” de Patrick Hamilton]; Música: Bronislau Kaper, Daniele Amfitheatrof (música adicional) [não creditado]; Fotografia: Joseph Ruttenberg [preto e branco]; Montagem: Ralph E. Winters; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Cenários: Edwin B. Willis; Figurinos: Irene; Caracterização: Jack Dawn; Efeitos Especiais: Warren Newcombe; Efeitos Visuais:.

Elenco:

Charles Boyer (Gregory Anton), Ingrid Bergman (Paula Alquist), Joseph Cotten (Brian Cameron), May Whitty (Miss Thwaites), Angela Lansbury (Nancy), Barbara Everest (Elizabeth), Emil Rameau (Maestro Guardi), Edmund Breon (General Huddleston), Halliwell Hobbes (Mr. Muffin), Tom Stevenson (Williams), Heather Thatcher (Lady Dalroy), Lawrence Grossmith (Lord Dalroy), Jakob Gimpel (pianista).