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DespairNa Alemanha dos anos 30 do século passado, durante a ascensão do nazismo, Hermann Hermann (Dirk Bogarde) é um industrial, do ramo do chocolate, filho de imigrantes russos, e casado com a meio pateta Lydia (Andréa Ferréol). Com a depressão na bolsa norte-americana, as dificuldades económicas crescem, e Hermann teme perder a sua fábrica, ao mesmo tempo o seu comportamento começa a dar-se obsessões, imaginando ver-se a si próprio e tendo ciúmes da esposa com o primo desta, Ardalion (Volker Spengler). Ao fazer um seguro de vida, Hermann decide que a solução está em fingir a própria morte, usando o corpo do desempregado Felix, (Klaus Löwitsch) que ele acha que se lhe parece.

Análise:

Partindo do livro homónimo de Vladimir Nabokov, trabalhado pelo dramaturgo Tom Stoppard, Rainer Werner Fassbinder teve em “Despair” (cujo subtítulo “Eine Reise ins Licht” significa “Uma viagem para a luz”), uma tentativa de chegar a um patamar internacional, trabalhando com um elenco multinacional, num filme falado em inglês, numa co-produção com produtoras francesas, que levaria mesmo a que o filme estreasse em Cannes.

A acção ocorre na Alemanha dos anos 1930, com as crises económicas e políticas em pano de fundo, e fortes menções ao crescimento do nazismo. Filho de imigrantes russos, e fugido da Primeira Guerra Mundial, Hermann Hermann (Dirk Bogarde) dirige uma fábrica de chocolate, a qual está à beira do colapso, culpa da crise internacional saída do crash da bolsa de Wall Stret. Hermann é casado com Lydia (Andréa Ferréol), numa relação fortemente carnal, onde ele assume que gosta que ela seja pateta e não o acompanhe intelectualmente. Menos agradado fica com as constantes presenças do primo desta, o pintor Ardalion (Volker Spengler), com quem ela terá mesmo uma relação incestuosa. Com o stress a dominá-lo, Hermann começa a ter episódios em que se vê a si próprio de fora, como se fosse duas pessoas. A ideia de fazer um seguro de vida, e o encontro com o desempregado Felix, (Klaus Löwitsch) que ele acha que é extremamente parecido consigo, dá-lhe uma ideia: simular a sua morte, matando Felix, para depois receber o dinheiro da apólice. Hermann executa o plano, com o conhecimento de Lydia, e foge para a Suíça. Só que a polícia não é enganada, pois nenhuma semelhança há entre Felix e Hermann, e percebendo o plano, procura Hermann, vindo a encontrá-lo depois, de pensão em pensão, na Suíça.

Se há filme de Fassbinder em que o simbolismo metafórico é evidente, ele é “Despair”, onde a ascensão do nazismo é trazida para a frente da narrativa (com constantes referências às mudanças políticas, cartazes de Adolf Hitler, cenas das SA a brutalizarem propriedades de judeus, etc.) e equiparada ao tal desespero que vai crescendo no personagem principal – que é imigrante. Nele dá-se uma crescente esquizofrenia, que leva a uma alienação do bom senso. Tal começa com os problemas económicos na fábrica, e passa para a sua obsessão com a ideia de ter um duplo, tanto por se sentir a observar-se (e ser observado) a si mesmo, como por encontrar alguém que ele acha que é esse doppelgänger. No seu percurso temos a crise económica da Alemanha do período da República de Weimar, o aburguesamento alienante das classes altas, a esquizofrenia e demência com o advento do nacionalismo nazi, e a ideia de fuga, passando mesmo pela necessidade do assassínio.

Com Bogarde a compor um Hermann afectado e algo teatral, há sempre muito de exagerado – à boa maneira de Fassbinder –, onde toda a gente (a simplória Lydia, o obtuso Ardalion, etc.) parece viver num mundo à parte, algures entre o sonho e o pesadelo. Essa característica, aliada às alucinações (e comportamentos) de Hermann – que até tem a sua ideia no cinema, onde se está a ver a si próprio –, dão ao filme uma certa aura de surrealismo. Tal não significa que, principalmente para os padrões de Fassbinder, “Despair” não tenha um guião bastante cuidado onde os vários pontos da trama assassina de Hermann são bem cosidos. Note-se todo o enredo da suposta viagem de Ardalion, paga por Hermann, que levará a uma carta falando no dinheiro, que depois Hermann apresenta ao seu segurador (Bernhard Wicki), como prova de que está a ser chantageado, procurando um futuro suspeito, ao mesmo tempo que justifica o levantamento do dinheiro, com que supostamente pagaria a Felix.

Ao dedicar o filme a Antonin Artaud, Vincent van Gogh e Unica Zürn, todos terminando a vida em suicídio – por isso também, como pela sua obra, modelos de um romantismo do desespero –, Fassbinder parece referir-se a essa viagem para a luz (que nos Alpes suíços chega a parecer literal, para depois o vermos num quarto escurecido), como uma viagem para o além, ou, pelo menos uma luz num sentido irónico, já que todo o filme é repleto de ironia. Destaque – e incógnita – é mesmo a sequência final, quando ao ser preso, Hermann diz que é apenas o actor de um filme, e desaparecerá de seguida, quase lembrando o final de “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard, 1950), de Billy Wilder, onde a personagem de Norma Desmond (Gloria Swanson) caminha em direcção a uma hipotética câmara, de onde imagina uma janela para um estrelato inexistente.

Com referências no texto a Dostoievski, Fassbinder parece citar um certo modo de estar do grande drama russo do século XIX, ao mesmo tempo que pisca o olho às novelas policiais do século XX. Essa mistura de estilos vê-se ainda esteticamente, com um certo acenar ao melodrama americano, sem descurar o cinema de autor de França e Itália (note-se mesmo o uso de Dirk Bogarde e Andréa Ferréol nos papéis principais), por sua vez, o tom é irónico, entre o pesado e o ligeiro, com toques de surrealismo, num argumento escorreito, tudo isto demonstrando que Fassbinder, mais que nunca, misturava e testava muitas coisas diferentes no mesmo filme. Talvez por isso mesmo “Despair” não tenha agradado a gregos ou troianos, tornando-se um filme pouco cotado na filmografia do autor.

Volker Spengler, Dirk Bogarde e Andréa Ferréol em "Despair" (Despair - Eine Reise ins Licht, 1978), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Despair – Eine Reise ins Licht; Produção: Bavaria Atelier / Bavaria Film / Filmverlag der Autoren / NF Geria Filmgesellshaft GmbH / Société Française de Production (SFP); Produtor Executivo: Lutz Hengst; País: França /República Federal Alemã (RFA); Ano: 1969; Duração: 121 minutos; Distribuição: Filmverlag der Autoren (RFA), Gala Film Distributors (Reino Unido), Sandrew Film & Teater AB (Suécia), New Line Cinema (EUA); Estreia: 19 de Maio de 1978 (Festival de Cannes, França). 19 de Maio de 1978 (RFA).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Peter Märthesheimer; Argumento: Tom Stoppard [a partir no livro de Vladimir Nabokov]; Música: Peer Raben; Fotografia: Michael Ballhaus [cor por Eastmancolor]; Montagem: Rainer Werner Fassbinder [como Franz Walsch], Juliane Lorenz; Design de Produção: Rolf Zehetbauer; Direcção Artística: Jochen Schumacher, Herbert Strabel; Cenários: Kathrin Brunner, Jochen Schumacher, Herbert Strabel; Figurinos: Dagmar Schauberger; Caracterização: Peter Knöpfle, Anni Nöbauer.

Elenco:

Dirk Bogarde (Herman), Andréa Ferréol (Lydia), Klaus Löwitsch (Felix), Volker Spengler (Ardalion), Armin Meier (Silverman / Sargento Brown / Foreman), Peter Kern (Müller), Adrian Hoven (Inspector Schelling), Alexander Allerson (Mayer), Hark Bohm (Médico), Roger Fritz (Inspector Braun), Gottfried John (Perebrodov), Y Sa Lo (Elsie), Lilo Pempeit (Secretária Schmidt), Ingrid Caven (Gerente do Hotel), Voli Geiler (Primeira Senhoria), Isolde Barth (Segunda Senhoria), Bernhard Wicki (Orlovius).

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