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Nos anos 1930, a Espanha vive uma cruel guerra civil, que envolve também tropas de outras nacionalidades. Se os nacionalistas são apoiados pela Alemanha e Itália, os republicanos são ajudados por voluntários de muitos países, numa aventura romântica pela liberdade. Um deles é Robert Jordan (Gary Cooper), um norte-americano, que é enviado às montanhas, pelo seu general, para rebentar uma ponte estratégica. Para tal, Robert tem de contar com a ajuda de um grupo guerrilheiro, onde se encontra a bela Maria (Ingrid Bergman), por quem Robert se vai imediatamente apaixonar.

Análise:

A partir do famoso romance de Ernerst Hemingway (publicado em 1940, e vencedor de um Pulitzer), o qual, tal como o seu protagonista, também esteve em Espanha durante a guerra civil, Sam Wood realizou para a Paramount “Por Quem os Sinos Dobram”, uma história de amor em tempo de guerra, que mostrava, pela primeira vez a cores a beleza de Ingrid Bergman, acabada de sair do sucesso de “Casablanca” (1942), de Michael Curtiz, e agora a contracenar com outro actor consagrado de Hollywood, Gary Cooper.

A história de “Por Quem os Sinos Dobram” conta-nos a passagem de Robert Jordan (Gary Cooper) – um romântico aventureiro norte-americano, disposto a lutar pela liberdade onde isso for necessário – pela Guerra Civil Espanhola, lutando como guerrilheiro pelo lado republicano. Enviado pelo general Golz (Leo Bulgakov) numa missão arriscada de rebentar com uma ponte na montanha, Robert é guiado pelo velho Anselmo (Vladimir Sokoloff), para fazer contacto com a guerrilha de Pablo (Akim Tamiroff), que o deverá ajudar na missão. Aí, Robert descobre várias coisas: Pablo é um cobarde que não será grande ajuda; o grupo é liderado, de facto, por Pilar (Katina Paxinou), uma assertiva mulher de armas; e entre eles está uma bela jovem, Maria (Ingrid Bergman), que atrai o seu interesse. Ao sentir-se demovido no grupo, Pablo vai tramar contra os restantes, roubando cavalos, deixando-os dependentes da ajuda de outro grupo, de El Sordo (Joseph Calleia), o qual acaba emboscado antes do ataque final. Descobrindo que o ataque republicano já foi previsto pelos nacionalistas, Robert envia mensagem para que ele seja cancelado, mas sente-se na obrigação de fazer a sua parte, e armadilhar a ponte. No dia planeado, com o regressado Pablo a querer ajudar, Robert e os seus homens põem o plano em prática, conseguindo rebentar a ponte, mas com pesadas baixas, entre elas o próprio Robert, que morre a disparar para deixar Maria e os outros escapar.

Com o título do livro e do filme retirado de um poema de John Donne (cujos versos são citados no início), “Por Quem os Sinos Dobram” afirma-se à partida como um hino ao valor da vida humana, algo bem caro na literatura de Hemingway. Tal (isto é, o filme) surge em plena Segunda Guerra Mundial, com a mensagem clara de que o nazismo e o fascismo são o inimigo, e o comunismo soviético um aliado, não faltando a sobranceria da superioridade norte-americana, com os espanhóis do filme a ficarem surpreendidos por na América não se morrer por se ser republicano.

Mas, a exemplo do que sucedera com “Casablanca”, e embora o filme de Sam Wood seja nalguns momentos um filme de acção, com muito das acções de guerrilha detalhadas, é a componente romântica que o imortaliza. Com Ingrid Bergman pela primeira vez a cores no grande ecrã, aqui de cabelo curto e pele escurecida para parecer uma morena espanhola (algo que não parece nunca, mas que pouco importa), a história de “Por Quem os Sinos Dobram” evolui em torno de dois pólos: a dinâmica do grupo guerrilheiro – que é como quem diz, as traições de Pablo, e o pulso de ferro de Pilar – e o romance entre Robert e Maria. Este é ainda mais pungente pelas características que o rodeiam: uma missão destinada ao fracasso – como pressagiado nas leituras a cigana Pilar –, o curto tempo que têm juntos – apenas três dias – e o passado de Maria, que conta penosamente como foi humilhada e violada às mãos dos nacionalistas que lhe mataram os pais. Essa componente fatídica, com a omnipresente Pilar a servir de guia e conselheira, obriga a uma urgência que é ela mesmo a lembrança de como tudo é na vida humana é fugaz, e de que, mais que o tempo, é a força dos sentimentos que importa.

Guerra à parte, o filme distingue-se pela força colocada nos sentimentos dos protagonistas, e pelo seu compromisso a um amor livre sem grilhões, onde a montanha à luz das estrelas é o altar que une o casal, e onde as dores e pessimismos são motivação para uma liberdade de sentimentos que, se ambos procuram, é também abençoada por Pilar, que adivinha o fim trágico que os espera, e quer que eles celebrem o que têm ainda de bom pela frente.

Mas enquanto Robert, Maria, e, a seu modo, Pilar (veja-se o seu monólogo emotivo sobre o quanto a fealdade lhe pôde roubar), vivem os momentos com sinceridade e intensidade, outros preferem outras vias. É o caso de Pablo, colocando a sua sobrevivência acima de tudo e todos, provocando, rindo, fugindo, traindo, e mesmo no final, quando volta para se redimir, matando alguns dos seus, para garantir que haja cavalos para todos. Personagem trágico, à sua maneira, Pablo é o exemplo de como a guerra e a dor quebram um homem, que vemos evoluir de um bárbaro guerreiro, a um cobarde. É também a antítese do ideal de companheirismo e espírito de sacrifício que dominam o filme e são caros na obra de Hemingway.

Filmado como uma grande produção, com exteriores em cenários naturais da Califórnia e Nevada, cor Technicolor, e uma faustosa banda sonora onde não faltou uma abertura ao filme e uma «intermission» (sendo a primeira banda sonora de um filme de Hollywood a ser editado na íntegra em disco), “Por Quem os Sinos Dobram” foi imaginado como grande aposta da Paramount, acabando por receber nove nomeações aos Oscars, entre as quais a de Melhor Filme, Melhor Actor (Cooper) e Melhor Actriz (Bergman), tendo vencido apenas o de Melhor Actriz Secundária (Paxinou). Foi ainda o mais lucrativo filme do ano. Com 170 minutos, o filme foi posteriormente truncado a 135 minutos, para ser mais tarde restaurado nas versões que passaram a DVD, já com 168 minutos. Curioso é o facto de a maioria do elenco ter origem no leste da Europa, para com os seus fortes sotaques passarem por exóticos espanhóis, algo que é um pouco difícil de aceitar. Em compensação, pela minúcia nas sequências de acção e profundidade de fotografia nos exteriores, o filme é, ainda hoje, um portento visual.

Segundo consta, e como o próprio Ernest Hemingway confessou, o livro foi escrito a pensar em Ingrid Bergman como Maria, razão pela qual o escritor que ela fosse a escolhida, mesmo quando Vera Zorina tinha sido anteriormente contratada para o papel. Em conversa com a actriz, Hemingway ter-lhe-á explicado que teria de cortar o cabelo para o filme, ao que ela terá respondido «por este papel até cortava a cabeça.»

“Por Quem os Sinos Dobram” foi banido em Espanha até 1978, mesmo que o argumento tenha seja fortemente branqueado de referências políticas – os nomes Franco, lealistas ou falangistas nunca surgem –, algo que terá sido imposto pelo realizador Sam Wood, que embora tivesse ficado ligado aos maiores sucessos dos Irmãos Marx, era conhecido pela sua faceta extremamente conservadora.

Ingrid Bergman em "Por Quem os Sinos Dobram" (For Whom the Bell Tolls, 1943), de Sam Wood

Produção:

Título original: For Whom the Bell Tolls; Produção: Paramount Pictures; Produtor Executivo: Buddy G. DeSylva [não creditado]; País: EUA; Ano: 1943; Duração: 165 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 14 de Julho de 1943 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Sam Wood; Produção: Sam Wood; Argumento: Dudley Nichols [a partir de romance homónimo de Ernest Hemingway]; Música: Victor Young; Orquestração: Leo Shuken, George Parrish; Fotografia: Ray Rennahan [cor por Technicolor]; Montagem: John F. Link Sr., Sherman Todd; Design de Produção: William Cameron Menzies; Direcção Artística: Hans Dreier, Haldane Douglas; Cenários: Bertram C. Granger; Caracterização: Wally Westmore; Efeitos Visuais: Gordon Jennings, Jan Domela, Irmin Roberts; Direcção de Produção: Lonnie D’Orsa [não creditado].

Elenco:

Gary Cooper (Robert Jordan), Ingrid Bergman (María), Katina Paxinou (Pilar), Akim Tamiroff (Pablo), Arturo de Córdova (Agustín), Vladimir Sokoloff (Anselmo), Mikhail Rasumny (Rafael), Fortunio Bonanova (Fernando), Eric Feldary (Andres), Victor Varconi (Primitivo), Joseph Calleia (El Sordo), Lilo Yarson (Joaquin), Alexander Granach (Paco), Adia Kuznetzoff (Gustavo), Leonid Snegoff (Ignacio), Leo Bulgakov (General Golz), Duncan Renaldo (Lt. Berrendo), Frank Puglia (Captain Gomez), Pedro de Cordoba (Coronel Miranda), Michael Visaroff (Oficial Ajudante), Martin Garralaga (Capitão Mora), Jean Del Val (Franco-atirador), John Mylong (Coronel Duval), Feodor Chaliapin Jr. (Kashkin).