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Regeneration Siegfried Loraine Sassoon (James Wilby), é um soldado, escritor e poeta inglês, condecorado na Primeira Guerra Mundial, que numa polémica carta aberta ao The Times, questiona as opções militares dos Aliados, apelando ao fim da guerra. Por temer o efeito desta carta na opinião pública, as autoridades decidem que o melhor a fazer é desacreditá-lo, enviando-o para o hospital militar psiquiátrico de Craiglockhart, na remota Escócia. Aí, Sassoon trava amizade com o seu médico, o capitão William Rivers (Jonathan Pryce), com os acesos debates entre ambos a mostrar que as fronteiras entre sanidade e trauma podem não ser as que à partida se definem.

Análise:

Produção anglo-canadiana, pouco conhecida fora de portas, com a chancela da BBC, e filmagens na Escócia, “Regeneration” é um filme realizado pelo escocês Gillies MacKinnon – mais habituado a filmar para televisão que para cinema –, adaptando um livro de Pat Barker. Versando sobre a Primeira Guerra Mundial, o filme não se centra tanto sobre a guerra em si, mas nos efeitos desta naqueles que nela sofreram e colapsaram psicologicamente, num tempo em que a próprio conceito de tratamento psicológico dava os seus primeiros passos.

“Regeneration” conta a história da figura real Siegfried Loraine Sassoon (James Wilby), um soldado, escritor e poeta inglês, condecorado na Primeira Guerra Mundial, que escreveu uma carta aberta no The Times, criticando as opções militares dos Aliados, e apelando ao fim da guerra. Por essa razão, e por se temer o efeito das suas ideias na opinião pública e na moral da tropas ainda em luta, Sassoon foi enviado para o hospital psiquiátrico Craiglockhart War Hospital, na Escócia, onde a sua reputação deveria ser abalada para que as suas palavras não fossem levadas a sério. Aí, Sassoon conhece e trava amizade com o seu médico, o capitão William Rivers (Jonathan Pryce) que, embora discordando dele, percebe que Sassoon está longe de estar louco e merece toda a sua compreensão. Em paralelo, enquanto Sassoon se torna amigo do também poeta Wilfred Owen (Stuart Bunce), assistimos à recuperação do tenente Billy Prior (Jonny Lee Miller), no início mudo e amnésico, mas que vai recuperando as faculdades, à medida que vai recuperando o gosto por uma vida normal, nas escapadelas com a sua nova conhecida Sarah (Tanya Allen). Por fim Sassoon é enviado de novo para a frente de guerra, da qual continuará a escrever a Rivers, o qual não está mais seguro da sua própria saúde, por ter vivido tantos traumas dos seus pacientes. Prior e enviado para casa, e Sassoon sobrevive à guerra, já Owen não tem a mesma sorte do amigo.

Com a guerra como pano de fundo, que é como quem diz, como apontamentos visuais que vão surgindo para sublinhar os estados de espírito (e os pesadelos) dos protagonistas – com tudo o que esta tem de morte, lama, desolação, terror, paranóia e privação de sanidade –, “Regeneration” situa-se no Craiglockhart War Hospital, num antigo palácio escocês, onde oficiais a recuperar de traumas psicológicos recebem a melhor das atenções. Aí vemos, desde aqueles ainda a viver em choque, completamente alienados da realidade, aos que, como Sassoon, não têm mais razão para lá estar que qualquer outra pessoa. Exemplo é o próprio capitão Rivers, que se queixa de gaguez e de tiques nervosos, e a quem é diagnosticado stress por simpatia, ele que vemos a dada altura num diferente cenário de guerra – os tratamentos quase sádicos do Dr. Yealland (John Neville), que usa e abusa dos electrochoques como forma de terapia.

Nessa fronteira entre sã revolta contra a guerra e sadia forma de a encarar, evoluem diferentes personagens, com Sassoon como exemplo de que há sempre muito de político no que se define como louco ou saudável. Poeta e escritor, Sassoon assume-se como não-pacifista, apenas revoltado com a forma como a guerra foi conduzida, e parece ser mantida por interesses alheios à sua conduta. Por um lado temendo pelos seus homens, por outro criticando todos os esforços de guerra, Sassoon é incompreendido por todos – tanto os que nem tentam, vendo nele apenas um empecilho, como pelos que tentam, como o sincero capitão Rivers. À parte disso, é na amizade com Wilfred Owen que Sassoon encontra algum conforto, com os dois homens a partilhar um laço que é o de denunciar a guerra, exorcizando-a nos seus escritos.

Lado a lado, vemos a história de Billy Prior, a início mudo e amnésico, aos poucos procurando uma nova realidade (e sanidade), nos prazeres comuns, como o cortejar de uma rapariga, e sempre revoltado, pela sua condição, pela guerra e pelo tratamento, não vendo no pessoal médico mais que inimigos. Curiosos são os seus debates com Rivers, nos quais a sua ausência sonhos, ou o facto de que os oficiais conseguem ter pesadelos mais elaborados que os soldados rasos, é aceso tema de debate.

Com a paisagem húmida e nevoeirenta da Escócia como dominante, e filmado de um modo quase académico, “Regeneration” é um filme que se define nos diálogos, sendo levado pela força das interpretações, nomeadamente a de Jonathan Pryce. É nos diversos episódios que os traumas, o desespero, a tristeza, e acima de tudo a incerteza, vêm à luz do dia, num mundo em que ninguém consegue estar já certo do que é mais são: o trauma, ou a afirmada imunidade de quem parece não sofrer com a tragédia da guerra.

O filme, que tem ainda o atractivo extra de lançar um olhar sobre a relação e motivações artísticas de dois dos mais prestigiados poetas britânicos que escreveram sobre a Primeira Guerra Mundial – Siegfried Sassoon e Wilfred Owen – acabou por ser consagrado no circuito independente, com menções e nomeações nos BAFTA, nos British Independent Film Awards e nos Genie Awards, “acabando por passar ao lado no circuito comercial, talvez até pelo tema difícil, e que tanto embaraçou as autoridades no seu tempo.

“Regeneration” foi lançado no ano seguinte nos Estados Unidos com o título “Behind the Lines”.

Produção:

Título original: Regeneration [Título alternativo: Behind the Lines]; Produção: Rafford Films / Norstar Entertainment / BBC Films / The Scottish Arts Council Lottery Fund; Produtores Executivos: Saskia Sutton, Mark Shivas; Co-Produtores Executivos: Eddie Dick, Kathy Avrich-Johnson; País: Reino Unido / Canadá; Ano: 1997; Duração: 109 minutos; Distribuição: Artificial Eye (Reino Unido), Alliance Communications Corporation (EUA); Estreia: 21 de Novembro de 1997 (Reino Unido).

Equipa técnica:

Realização: Gillies MacKinnon; Produção: Allan Scott, Peter R. Simpson; Produtor em Linha: Eric Coulter; Argumento: Allan Scott [a partir do romance homónimo de Pat Barker]; Música: Mychael Danna; Orquestração: Peter Breiner; Fotografia: Glen MacPherson [cor por DeLuxe]; Montagem: Pia Di Ciaula; Design de Produção: Andy Harris; Direcção Artística: John Frankish; Figurinos: Kate Carin; Caracterização: Barrie Gower; Efeitos Especiais: Kevin Draycott, Steve Breheney; Direcção de Produção: .

Elenco:

Jonathan Pryce (Capitão William Rivers), James Wilby (Segundo Tenente Siegfried Sassoon), Jonny Lee Miller (Segundo Tenente Billy Prior), Stuart Bunce (Segundo Tenente Wilfred Owen), Tanya Allen (Sarah), David Hayman (Major Bryce), Dougray Scott (Capitão Robert Graves), John Neville (Dr. Yealland), Paul Young (Dr. Brock), Alastair Galbraith (Capitão Campbell), Eileen Nicholas (Miss Crowe), Julian Fellowes (Timmons), David Robb (Dr. McIntyre), Kevin McKidd (Callan), Rupert Procter (Capitão David Burns), Angela Bradley (Enfermeira Alison), Finlay McLean (Huntley), Jeremy Child (Balfour Graham), Jenny Ryan (Madge), Andrew Woodall (Willard), Russell Barr (Soldado de Sassoon), Kate Donnelly (Lizzie), Lee Brown (Logan), Joel Strachan (Martin), Bob Docherty (Homem no Bar), James McAvoy (Anthony Balfour).