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CasablancaEm Casablanca, durante a Segunda Guerra Mundial, refugiam-se todos os que pretendem deixar a Europa ocupada pelos nazis, para viajar para os Estados Unidos. Local de encontro é o Rick’s Café Americain, do americano Rick Blaine (Humphrey Bogart), onde se bebe, joga e se esquece a guerra, enquanto se procura dinheiro, um visto, ou passagens aéreas para Lisboa. Quando aí chega o activista da resistência Victor Laszlo (Paul Henreid) e a sua esposa Ilse Lund (Ingrid Bergman), os ânimos aquecem politicamente, com o chefe da polícia francesa, o capitão Louis Renault (Claude Rains) e o representante do Reich, o major Heinrich Strasser (Conrad Veidt), a fazer-lhe marcação cerrada. Para piorar, Ilse é a mulher que um dia abandonou Rick quando este fugia de Paris, e que agora lhe reentra na vida para pedir ajuda para o seu marido.

Análise:

Quem diz que amor e guerra são realidades imiscíveis, nunca viu “Casablanca”, o filme que faz da primeira pano de fundo para uma das mais conhecidas histórias de amor do cinema mundial. Tal veio a acontecer num filme que inicialmente poucos acreditariam estar fadado para tanto sucesso. Embora produzido como série A (dado o elenco e equipa de profissionais de primeira categoria), o filme teve uma produção algo apressada, passando por peripécias de escrita que levaram os guionistas a sair a meio para trabalhar num projecto mais aliciante – de que voltaram depois –, e a entrada na guerra a levar a uma estreia aos soluços (estreado em Novembro e relançado em Janeiro) para tentar aproveitar a precipitação dos acontecimentos entre 1941 e 1942. Há mesmo um ambiente de film noir, onde os cenários (quase sempre em estúdio) e a iluminação parca e distintiva como modo de criar atmosfera e destacar espaços e personagens, eram sintoma tanto de opção estética como de alguma economia de meios que acompanhava essas produções – note-se até a presença de actores como Sydney Greenstreet e Peter Lorre, que transitavam com Bogart do noir “A Relíquia Macabra” (The Maltese Falcon, 1941), de John Huston.

A história de “Casablanca” leva-nos à cidade do mesmo nome, no norte de Marrocos, como entreposto de alguma liberdade durante a Segunda Guerra Mundial, onde pessoas de todas as nacionalidades se reuniam, procurando a obtenção de um visto que lhes permitisse chegar a Lisboa, e daí para qualquer parte do mundo fora da influência nazi. O centro da vida na cidade é o Rick’s Café Americain, propriedade do norte-americano Rick Blaine (Humphrey Bogart), que procura fazer negócio, aproveitando-se das longas esperas de quem chega à cidade, e dando-se bem com o complacente chefe de polícia francês, o capitão Louis Renault (Claude Rains). A morte de oficiais alemães a caminho de Casablanca faz apertar a vigilância, com a chegada do major alemão Heinrich Strasser (Conrad Veidt), que logo centra atenções na vinda para a cidade de Victor Laszlo (Paul Henreid), um conhecido activista da liberdade nos terrenos ocupados. Este chega acompanhado da esposa, a bela Ilsa Lund (Ingrid Bergman), que para surpresa de todos, é uma ex-amante de Rick. Laszlo precisa de viajar para os Estados Unidos para continuar a sua luta, mas Strasser e Renault garantem-lhe que tal não acontecerá. Resta-lhe esperar convencer Rick a dar-lhe livre-trânsitos que vieram para à sua posse. Só que Rick, magoado com Ilse, não está disposto a tal. Um novo encontro, no qual Ilse conta como estava já casada com Laszlo antes de conhecer Rick, leva-a a sucumbir, contando toda a história e declarando querer ficar agora com ele. Logo de seguida Lazlo faz a Rick a proposta de deixar sair Ilse. Resta a Rick convencer Renault, dizendo-lhe que vai fugir com Ilse, e que quer que ele prenda Laszlo por tentar comprar os livre-trânsitos. Com Ilse a pensar que só Laszlo viajará, este a crer que só Ilse o fará, e Renault a pensar que vem prender Laszlo, encontram-se todos no café, e Rick surpreende os três, ao aprisionar Renault e decidir que fica para trás, deixando Laszlo partir com Ilse, convencendo-a no processo que é o melhor para todos.

É difícil acrescentar algo sobre “Casablanca” que não tenha sido já repetido até à exaustão, quando este é um filme em que cada cena é conhecida de todos (e tantas vezes referida noutros filmes), e se perde a conta à quantidade de citações que entraram no léxico de qualquer cinéfilo: «Here’s looking at you, kid!»; «Round up the usual suspects!»; «Play it Sam, play “As Time Goes By”»; «We’ll always have Paris»; «Louis, I think this is the beginning of a beautiful friendship», etc. Para a história, “Casablanca” é ainda o filme que reuniu Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, que por um momento protagonizaram o par ideal de Hollywood – ele o habitual duro, de aparência cínica, mas com coração de ouro revelado apenas a quem tinha a sorte de passar todas as barreiras; ela a beleza irrepreensível, levemente exótica, de natureza boa, mas sofredora capaz de sacrificar tudo por causas mais nobres.

E é de causas que se faz a história de “Casablanca”, num momento em que a cidade é vista como esperança de fuga, ou local de desespero por quem dela não consegue sair. Entre o cinismo de Rick (que prefere esquecer o mundo, e viver a sua rotina em paz) e o de Renault (que apenas quer sobreviver, fingindo pactuar com quem estiver no comando, mesmo que sejam os nazis, enquanto vai usando o seu poder de dar vistos para obter favores das mulheres que o procuram), vemos o idealismo de Victor Laszlo, um quase auto-proclamado mártir, disposto a morrer pelos que querem ser livres, e por isso admirado por Ilse. Só que, na luta pela obtenção de vistos, e pela fuga dos nazis, intromete-se algo bem mais prosaico, uma história de um amor interrompido, e desde então inominável (onde a simples menção do tema musical “As time goes by” é motivo para uma explosão de raiva de Rick).

A partir de então estabelece-se um estranho triângulo amoroso. Rick, que por acidente se torna detentor de livres-trânsito, sente ter nas mãos o destino do casal Ilse-Laszlo. Pode destruí-los ou salvá-los, mas quer Ilse para si. Ilse sente ser a chave, e dar-se a Rick pode ser a solução para salvar Laszlo. Já Laszlo, que viu sempre as causas como algo acima de si próprio (por exemplo recusa obter liberdade a troco da delação para os nazis) percebe que por elas pode perder a mulher que ama e que não sabia ter em tempos sido de outro. Por entre a cacofonia de sons e pessoas, muitas peripécias e alguns tiros que constituem a vida colorida (mesmo a preto e branco) dos bazares de Casablanca, do café e casino de Rick, não esquecendo as já costumeiras rusgas policiais, só porque sim (a supracitada frase «Round up the usual suspects!», é ela própria um exemplo do cinismo e conformismo com que tudo então decorria, tendo sido a inspiradora do filme “Os Suspeitos do Costume” (The Usual Suspects, 1995), de Bryan Singer), é da dinâmica entre estas três pessoas – de facto entre Rick e Ilse – que tudo se decidirá.

Com Michael Curtiz ao comando, um realizador talhado para grandes produções e filmes de aventuras, há sempre um equilíbrio entre o drama e algo mais leve. Diálogos acutilantes («seria necessário um milagre para o tirar de Casablanca, e os nazis proibiram os milagres»), e sequências como o regatear no bazar, os golpes do carteirista, ou o casal idoso a praticar inglês, são prova dessa boa disposição, tão discreta quanto importante, num filme onde todos os momentos e todas as personagens são importantes e emblemáticas, com Bogart e Bergman em grande destaque, é certo – ele um veterano consagrado que se tornava agora um ícone romântico, ela a jovem sueca que ao quinto filme em Hollywood passava a diva –, mas também os vilões Rains e Veidt, o trágico Lorre, ou Greenstreet e Sakall, todos emprestam um colorido e carisma inesquecíveis.

Mas é sempre a Rick que voltamos. Duro e cínico no início (embebedando-se com a chegada de Ilse, para a maltratar quando ela se tenta explicar), vamos vendo como a sua reputação tem muito que se lhe diga. Paradigmático é o exemplo do casal búlgaro Annina e Jan (Joy Page e Helmut Dantine) que precisa de dinheiro para um visto, a ponto de Annina estar pronta a dar-se a Renault. Por ver em Jan um homem que sofrerá só porque é amado, Rick sente essa dor na que sofre por ter sido deixado, e fá-los ganhar ao jogo, para desapontamento de Renault, só para ver Ilse colocar-se na mesma posição, dependente de si, como Annina estava de Renault. Resta-lhe «pensar pelos dois» como Ilse lhe pede, o que o leva ao sacrifício máximo, ficar, mesmo quando Ilse já se propusera a deixar Laszlo por si. Num jogo de sacrifícios em que todos estão disponíveis para ceder muito para salvar alguém, é Rick quem tem a última palavra, num dos mais comoventes momentos, esse que Woody Allen na sua peça passada ao cinema “Play it Again, Sam”, via como o zénite do sacrifício romântico, o gesto de amor mais altruísta possível.

Fosse por qual destes elementos, ou por todos eles, a que não devemos deixar de juntar o sentimento de revolta que se vivia em 1942 contra o nazismo (e a sequência do hino francês no café de Rick é um exemplo inesquecível), “Casablanca” foi um sucesso imediato, e a sua estrela não pararia de brilhar. O filme acabou por vencer os Oscars de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento Adaptado, num total de oito nomeações. Não deixou, no entanto, de ter os seus detractores, entre eles Umberto Eco, que achava as transformações das personagens completamente ridículas. Controversa foi a inclusão do filme nas tentativas de colorização feitas no final do século passado, resultando numa versão muito contestada, e hoje completamente esquecida. A preto e branco, como Curtiz o pintou, teremos sempre Casablanca.

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em "Casablanca" (1942), de Michael Curtiz

Produção:

Título original: Casablanca; Produção: Warner Bros.; Produtor Executivo: Jack L. Warner; País: EUA; Ano: 1942; Duração: 102 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 26 de Novembro de 1942 (EUA), 17 de Maio de 1945 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Michael Curtiz; Produção: Hal B. Wallis; Argumento: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch Casey Roinson [Casey Robinson] [a partir da peça “Everybody Comes to Rick’s” de Murray Burnett e Joan Alison]; Música: Max Steiner; Canções: M. K. Jerome, Jack Scholl; Direcção Musical: Leo F. Forbstein; Orquestração: Hugo Friedhofer; Fotografia: Arthur Edeson [preto e branco]; Montagem: Owen Marks; Direcção Artística: Carl Jules Weyl; Cenários: George James Hopkins; Figurinos: Orry-Kelly; Caracterização: Perc Westmore; Efeitos Especiais: Lawrence W. Butler, Willard Van Enger; Direcção de Produção: .

Elenco:

Humphrey Bogart (Rick Blaine), Ingrid Bergman (Ilsa Lund), Paul Henreid (Victor Laszlo), Claude Rains (Capitão Louis Renault), Conrad Veidt (Major Heinrich Strasser), Sydney Greenstreet (Signor Ferrari), Peter Lorre (Ugarte), S. Z. Sakall (Carl Sakall), Madeleine Lebeau (Yvonne), Dooley Wilson (Sam), Joy Page (Annina Brandel), John Qualen (Berger), Leonid Kinskey (Sascha), Curt Bois (Carteirista).