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Bolwieser Xaver Bolwieser (Kurt Raab), é um chefe de estação ferroviária de uma aldeia da Alta Baviera. Casado de fresco com Hanni (Elisabeth Trissenaar), Xaver não consegue estar um segundo longe dela, a qual, por sua vez tem uma relação mais fria com o seu estado de recém-casada. Fora do quarto, Xaver embebeda-se para mostrar aos amigos que não é dominado pela mulher. Esta ressente-se e fica cada vez mais enfadada com o casamento. Quando reencontra o velho amigo Frank Merkl (Bernhard Helfrich), Hanni convida-o para gerir os negócios da família, o que é apenas um passo para se tornar seu amante. Confrontado com a realidade, Xaver prefere fechar os olhos, a essa e a todas as futuras traições da esposa que já não o respeita.

Análise:

Novamente centrando um filme em Kurt Raab, que já fora o protagonista de “Satan’s Brew” (Satansbraten, 1976), Rainer Werner Fassbinder adaptou para televisão um livro de Oskar Maria Graf, de 1931, no que seria mais um trabalho de tendência teatral, que explorava a natureza e falhas do matrimónio, tema caro a Fassbinder em tantos dos seus filmes. Como curiosidade acrescente-se que Kurt Raab – habitualmente em papéis de homem fraco e patético nos filmes de Fassbinder, para além de colaborador como director artístico em quase todos eles – teve neste filme problemas com o autor alemão, que levaram ao fim da amizade entre ambos, e da colaboração que vinha desde o início da carreira do realizador.

“A Mulher do Chefe da Estação” fala-nos de Xaver Ferdinand Maria Bolwieser (Kurt Raab), o chefe de uma estação ferroviária da Baviera nos anos 20, terrivelmente enamorado da sua esposa, a bela Hanni (Elisabeth Trissenaar). Só que Xaver é fraco, submisso à esposa, e dominado por ela. Sempre que sai com os amigos, Xaver embebeda-se, só porque eles gozariam com ele se não o fizesse, sendo depois recriminado pela esposa que começa a desprezá-lo pelas suas fraquezas, cada vez mais entediada com a sua vida de casada. Tudo começa a mudar com a chegada de Frank Merkl (Bernhard Helfrich), amigo de infância de Hanni, com quem ela estabelece a gestão da economia familiar, pressionando Xaver para dar impulso ao bar da estação. Uma coisa leva a outra e Hanni e Merkl tornam-se amantes, o que gera escândalo, levando Xaver a vir a público jurar que é tudo mentira. De seguida, Hanni torna-se amante do cabeleireiro Schafftaler (Udo Kier), o que leva aos ciúmes de Merkl, que se sente trocado. Por tal, Merkl conta tudo a Xaver, o qual, mais uma vez finge aceitar as traições da esposa. Escandalizado, Merkl torna público o seu caso com Hanni, mostrando como Xaver antes mentira para a defender.

Levemente inspirado em “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, “A Mulher do Chefe da Estação” é um ensaio sobre um casamento em conflito, quando as personalidades dos dois cônjuges criam uma situação de submissão e dependência que o torna uma verdadeira anedota. Reportando-se aos anos pré-nazismo, o filme mostra-nos um casal provinciano de classe média laboral, num meio fechado, com uma esposa dominante, e um marido que tanto a deseja, como bebe para mostrar aos amigos que não é dominado por ela. Tudo leva a que o desprezo dela por ele aumente, e a partir daí abrem-se as portas para que Hanni ceda a aventuras extra-conjugais que a retirem do marasmo, e de um marido que ela vê como fraco.

Filmado em estúdio, “A Mulher do Chefe da Estação” carrega os traços distintivos da realização de Fassbinder, e da fotografia de Michael Ballhaus, como os espaços fechados (mesmo o bar, com as cenas de dança e a transfiguração visual de uma Hanni como diva dos anos 20, parece um cubículo), os enquadramentos através de espelhos ou vidros e entre peças de mobiliário, ou plantas. Temos os habituais close-ups e as interpretações algo intensas, como se fosse a decadência, e os excessos sentimentais em que o ser humano pode cair que interessam a Fassbinder, e não tanto o realismo do desenvolvimento de um acontecimento. A fotografia algo escura dá-nos uma atmosfera elusiva, da qual vamos adivinhando os episódios mais que testemunhando factos. Mas acima de tudo, é o retrato de cinismo, hipocrisia, fraqueza (no assumir de consequências) que marca o filme, tornando-o mais um capítulo do ensaio de Fassbinder sobre as fraquezas humanas.

“A Mulher do Chefe da Estação” foi inicialmente uma mini-série televisiva de cerca de três horas, condensada depois para o formato de cinema.

Elisabeth Trissenaar em "A Mulher do Chefe da Estação" (Bolwieser, 1977), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Bolwieser; Produção: Bavaria Atelier / Bavaria Film; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1977; Duração: 110 minutos; Distribuição: Filmverlag der Autoren (RFA), TeleCulture (EUA); Estreia: 31 de Julho de 1977 (RFA), 8 de Dezembro de 1988 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Herbert Knopp, Willi Segler; Argumento: Rainer Werner Fassbinder [a partir do livro “Die Ehe des Herrn Bolwieser” de Oskar Maria Graf]; Música: Peer Raben; Fotografia: Michael Ballhaus, Horst Knechtel [cor por Eastmancolor]; Montagem: Ila von Hasperg, Rainer Werner Fassbinder [como Franz Walsch], Juliane Lorenz; Design de Produção: Kurt Raab; Figurinos: Monika Altmann; Caracterização: Fritz Seyfried, Brigitte Raupach-Goeckel; Direcção de Produção: Harry R. Sokal.

Elenco:

Elisabeth Trissenaar (Hanni Bolwieser), Kurt Raab (Xaver Ferdinand Maria Bolwieser, O Chefe da Estação), Bernhard Helfrich (Franz Merkl), Udo Kier (Schafftaler), Volker Spengler (Mangst), Karl-Heinz von Hassel (Windegger), Armin Meier (Scherber), Gustl Bayrhammer (Neidhard, Pai de Hanni), Peter Kern (Treuberger), Willy Harlander (Stempflinger), Hannes Kaetner (Lederer), Doris Mattes (Zeugin), Lilo Pempeit [como Liselotte Pempeit] (Frau Käser), Elma Karlowa (Enfermeira), Gerhard Zwerenz (Ferryman).

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