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Rage in Heaven Philip Monrell (Robert Montgomery), regressa a casa depois de longas viagens no estrangeiro, quando encontra fortuitamente o amigo de infância Ward Andrews (George Sanders), que insiste o acompanhe para passar uns dias na mansão dos Monrell. À chegada, os dois amigos descobrem que a mãe de Philip (Lucile Watson) contratou uma jovem assistente, para cuidar dela, a bela Stella Bergen (Ingrid Bergman), por quem ambos os rapazes ficam logo enamorados. Se a princípio Stella e Ward parecem sentir uma ligação, quando este tem de partir, Philip aproveita para a cortejar, e vem a casar com ela. Só que Stella vai descobrir um Philip dado a paranóias e ciúmes, que passa a ver Ward como grande rival e inimigo.

Análise:

Com problemas que passaram pela mudança de realizador (Robert B. Sinclair, por motivos de doença foi substituído logo no início por W. S. Van Dyke), a necessidade de gravar novos takes após a fotografia principal ter sido terminada (e já sem W. S. Van Dyke, a tarefa recaiu em Richard Thorpe), e suspeitas de que Robert Montegomery actuou sob chantagem, a MGM criou um thriller psicológico em jeito de film noir, algo não muito de acordo com a matriz da produtora. De fora, emprestados por David O. Selznick e pela Twentieth Century-Fox, chegavam, respectivamente, os europeus Ingrid Bergman e George Sanders, a actriz sueca no seu terceiro filme em Hollywood, o actor inglês cavalgando o recente sucesso do filme “Rebecca” (1940), de Alfred Hitchcock.

Com base no livro “Dawn of Reckoning” de James Hilton, “Tempestade” conta-nos a história de Philip Monrell (Montegomery), um homem da alta sociedade, de regresso a casa depois de longa e inexplicável ausência, que encontra o amigo de infância Ward Andrews (Sanders) – nome que ouvíramos ligado a um paciente psiquiátrico que fugira de uma instituição em França. À chegada à mansão familiar, Philip e Ward descobrem que a mãe (Lucile Watson) tem consigo uma jovem assistente, a bela estrangeira Stella Bergen (Bergman). Ambos os rapazes ficam enamorados de Stella, mas se ela parece criar um laço natural com o gentil Ward, a necessidade deste em viajar deixa campo aberto para Philip, que irá pedir a mão de Stella. Só que com o casamento chegam os ciúmes, e Philip – que entretanto descobrimos ser o doente psiquiátrico em França, onde dera o nome falso de Ward – começa a sentir-se paranóico com o amigo. Primeiro convida-o a ser engenheiro na fábrica que dirige, depois simula ausências para ver como a mulher se comporta, e finalmente explode afastando Ward para sempre. Só que, por mais que Stella lhe explique que tudo se passa na cabeça dele, Philip continua a assustá-la, e Stella decide fugir e procurar Ward. Desconfiando que os dois estejam juntos, Philip telefona a Ward para o convencer a visitá-lo para, alegadamente, tratar do divórcio. À chegada tudo corre bem, mas Ward não imagina que Philip tem um plano para se suicidar, incriminando Ward. O plano funciona, Philip morre, e a presença, impressões digitais e outras pistas congeminadas por Philip valem-lhe a condenação. Mas a chegada providencial do Dr. Rameau (Oskar Homolka), o médico que internara Philip em França, vem lançar luz sobre as suas motivações. Com a ajuda de Stella, o Dr. Rameau descobre o diário de Philip, onde este confessa todo o plano, e assim Ward é ilibado.

Alfred Hitchcock tinha começado a filmar nos Estados Unidos no ano anterior, e a sua marca ainda não era uma certeza incontornável. Mas há algo em “Tempestade” que lembra a obra de Hitchcock. O vilão elegante e bem falante interpretado por Robert Montgomery parece tirado de um filme do mestre inglês, bem como a história do crime perfeito, e das culpas por simpatia, relacionadas com o romance não concretizado de Ward e Stella (ambos castos, mas confessando que no fundo preferiam estar um com o outro).

O resultado é um conto amoral onde o protagonista é o mau da fita, pessoa pela qual não conseguimos sentir empatia. Essa presença de Montegomery, mau e sinistro desde o primeiro minuto torna-se uma das falhas do filme, um pouco também por uma interpretação muito unidimensional e caricatural. Tal torna todas as relações inverosímeis, quer o amor de Stella, quer a amizade com Ward. O próprio Sanders parece não conseguir agarrar bem o personagem, por e estar pouco talhado a papéis de «bom». Sobra Ingrid Bergman, já aqui talhada para o papel da vítima inocente, merecedora de todas as nossas simpatias. Mas o que mais castra a história será talvez o final apressado, com uma solução Deus ex Machina trazida pelo Dr. Rameau, que chega do nada para trazer a solução mágica, e o providencial diário, que funciona como uma conveniente confissão além-morte.

Distinguindo-se do melhor noir por não procurar o negrume urbano nem o simbolismo da decadência moral que devia partir logo da fotografia (aqui muito luminosa e neutra), “Tempestade” passou ao lado do grande público, como um filme menor, ainda que contenha bons momentos de tensão, como o são o prólogo inicial e a execução do tal crime perfeito.

Robert Montgomery, Ingrid Bergman e George Sanders e "Tempestade" (Rage in Heaven, 1941), de W. S. Van Dyke

Produção:

Título original: Rage in Heaven; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1941; Duração: 85 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 7 de Março de 1941 (EUA), 7 de Abril de 1942 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: W. S. Van Dyke, Robert B. Sinclair [não creditado], Richard Thorpe (retakes) [não creditado]; Produção: Gottfried Reinhardt; Argumento: Christopher Isherwood, Robert Thoeren, Edward Chodorov [não creditado] [a partir do livro de James Hilton]; Música: Bronislau Kaper, Mario Castelnuovo-Tedesco [não creditado], Eugene Zador [não creditado]; Fotografia: Oliver T. Marsh, George J. Folsey [não creditado] [preto e branco]; Montagem: Harold F. Kress; Design de Produção: Cedric Gibbons; Cenários: Edwin B. Willis; Figurinos: Adrian.

Elenco:

Robert Montgomery (Philip Monrell), Ingrid Bergman (Stella Bergen), George Sanders (Ward Andrews), Lucile Watson (Mrs. Monrell), Oskar Homolka (Dr. Rameau), Philip Merivale (Mr. Higgins), Matthew Boulton (Ramsbotham), Aubrey Mather (Clark), Frederick Worlock (Procurador-Geral), Francis Compton (Bardsley), Gilbert Emery (Mr. Black), Ludwig Hardt (Durand).