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Adam Had Four Sons Os Stoddard, uma família rica, composta de Adam (Warner Baxter), Molly (Fay Wray) e os quatro filhos menores Jack, David, Chris e Phillip espera a nova perceptora, a estrangeira Emilie Gallatin (Ingrid Bergman), que imediatamente ganha a estima de todos. Só que a tragédia bate à porta, com a morte súbita de Molly e a queda da bolsa que arruína Adam. Cortes têm de ser feitos, e Emilie é enviada de volta a casa. Uma década depois, a Primeira Guerra Mundial trouxe prosperidade a Adam, de novo rico. Por isso traz de volta Emilie, que encontra os quatro rapazes já adultos, três na guerra, o quarto a caminho, e um deles casado, com a manipuladora Hester (Susan Hayward), que vai trazer a dissenção à família.

Análise:

Baseado no livro “Legacy”, de Charles Bonner, publicado apenas no ano anterior, Gregory Ratoff voltava a dirigir Ingrid Bergman, num filme feito à sua medida, um melodrama familiar que era o segundo filme da actriz sueca em Hollywood. Em destaque estava ainda uma jovem Susan Hayward, também em início de carreira, mas a mostrar já a sua propensão para papéis de mulher forte e manipuladora.

Justificando termos uma protagonista com sotaque estrangeiro, “Os Quatro Filhos de Adão” fala-nos da chegada da perceptora estrangeira Emilie Gallatin (Ingrid Bergman), recebida com entusiasmo pelo casal Adam (Warner Baxter) e Molly Stoddard (Fay Wray) – que não a esperam tão jovem e bonita – para tomar conta dos seus quatro filhos: Jack, David, Chris e Phillip. O jeito da perceptora é irresistível, e todos em casa, jovens e adultos, se apaixonam por ela, tomando-a como membro da família. Só que a desgraça atinge os Stoddard, e Molly morre subitamente, ao mesmo tempo que a crise na bolsa arruína a família. Adam é forçado a enviar os filhos para escolas distantes, com dinheiro da prima rica Philippa (Helen Westley), a trocar a mansão familiar por um apartamento na cidade, e, por fim, a pedir a Emilie que regresse ao seu país, na promessa de a fazer voltar quando a situação mudar. E esta muda com a Primeira Guerra Mundial, que faz disparar a economia e volta a enriquecer Adam, que volta à sua antiga casa, agora restaurada e melhorada. Regressa então Emilie, para encontrar quatro rapazes já homens, três ainda a lutar na guerra, e o quarto, Phillip (Charles Lind), quase. Mas a maior surpresa vem de David (Johnny Downs), que surge casado com a manipuladora Hester (Susan Hayward), a qual antagoniza imediatamente Emilie, fazendo-lhe ver que é ela agora quem manda. De seguida, com David distante numa missão militar, seduz Jack (Richard Denning). Quando Adam percebe que Jack tem uma mulher consigo, confronta-o, mas Emilie, percebendo o perigo, surge como sendo ela, salvando Hester. Só que Hester consegue cada vez menos esconder as aparências, e David vem a descobrir, e em fúria parte numa missão arriscada, que pode ter sido mesmo tentativa de suicídio. A quase-tragédia leva o pânico na família, e Jack acaba por contar a verdade ao pai, o qual finalmente percebe o quanto Emilie sofria para manter a família junta, percebendo então que a ama.

Ao jeito dos folhetins românticos de apelo para toda a família, “Os Quatro Filhos de Adão” traça-nos uma história completamente a preto e branco, onde os bons (toda a família, Emilie incluída) são mesmo bons – afáveis, simpáticos, altruístas, amando-se todos sinceramente – e a má (Hester) é mesmo má – invejosa, manipuladora, mentirosa, traidora, uma verdadeira serpente no paraíso de Adam, disposta a colocar todos contra todos. Com Ingrid Bergman no seu segundo filme em Hollywood – depois de “Intermezzo” (Intermezzo: A Love Story, 1939), também de Ratoff, ainda filmaria na Suécia “Noite de Tentação” (Juninatten, 1940), de Per Lindberg, antes do seu regresso «definitivo» aos Estados Unidos – a ideia foi aproveitar a sua aura de anjo para criar uma personagem que personificasse o bem, a abnegação e sacrifício por uma família que nem sequer era a sua. Bergman acaba com um papel que a limita, mantendo-a sempre num registo muito fixo, destacando-se apenas nas interacções com Susan Hayword – essa sim, uma força imensa que «rouba» o filme em pouca cenas – mostrando-nos nelas uma Emilie bem mais versátil talvez por revelar.

Com a acção a decorrer de 1907 a 1918, o filme limita-se a cumprir pontos de inflexão de argumento: chegada de Emilie, morte de Molly; partida de Emilie; regresso de Emilie; apresentação de Hester; traição de Hester; revelação de Adam, como se bastasse cumprir esses pontos, sem espaço para desenvolver as personagens e trazer textura – leia-se: realismo – a cada uma delas. Ao que consta, foram cortados cerca de 25 minutos de filme para a edição final, o que pode justificar como várias situações nos surgem hoje muito secas. Por exemplo, como seria credível que uma mulher jovem e bela como Emilie esperasse quase uma década no seu país, para voltar a ser chamada (para mais, quando os seus pupilos eram já adultos), tendo mantido a sua vida (outros trabalhos, possível carreira, namoros, propostas de casamento) no congelador até lá. Essa mesma «pressa» não nos deixa acreditar que houvesse alguma hipótese de romance entre Emilie e Adam. E mesmo que esta tivesse maliciosamente sido sugerida por Hester, nada na química das duas personagens o faria adivinhar. Também a história paralela de Phillip e Vance (June Lockhart) parece forçada e apressada, não obstante o carisma trazido pela jovem actriz.

Convém, por outro lado, lembrar que estávamos em 1940, com a Segunda Guerra Mundial a decorrer, e muitos sectores da sociedade norte-americana a querer participar. Daí que não estranhe a atmosfera feliz com que a guerra do filme é anunciada, e principalmente a ênfase que se dá ao crescimento económico devido à guerra, numa piscadela de olhos à entrada na nova guerra. A isto acrescente-se vários dos diálogos onde as crianças fazem Emilie dizer que é um privilégio poder viver nos Estados Unidos, por comparação com o lugar de onde ela terá vindo. Afinal, com piscadela de olho bíblica e tudo, “Os Quatro Filhos de Adão” é um filme para toda a família, com o esperado desenlace feliz, onde ninguém, por um momento, tem dúvidas de quem são os bons, e onde os americanos são vistos como os heróis, modelo para o mundo, esperando que de vez em quando venha uma guerra para pôr tudo nos eixos. De lá para cá, pouco mudou.

Susan Hayward, Johnny Downs e Ingrid Bergman em "Os Quatro Filhos de Adão" (Adam Had Four Sons, 1941), de Gregory Ratoff

Produção:

Título original: Adam Had Four Sons; Produção: Columbia Pictures Corporation; País: EUA; Ano: 1941; Duração: 80 minutos; Distribuição: Columbia Pictures Corporation; Estreia: 18 de Fevereiro de 1941 (EUA), 10 de Janeiro de 1942 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Gregory Ratoff; Produção: Robert Sherwood; Produtor Associado: Gordon Griffith; Argumento: William Hurlbut, Michael Blankfort [a partir de livro “Legacy” de Charles Bonner]; Música: W. Franke Harling, Rudy Schrager [não creditado]; Direcção Musical: C. Bakaleinikoff; Fotografia: J. Peverell Marley [preto e branco]; Montagem: Francis D. Lyon; Design de Produção: David S. Hall; Direcção Artística: Rudolph Sternad; Cenários: Howard Bristol; Figurinos: David Kidd; Caracterização: Robert J. Schiffer [não creditado].

Elenco:

Ingrid Bergman (Emilie Gallatin), Warner Baxter (Adam Stoddard), Susan Hayward (Hester Stoddard), Fay Wray (Molly Stoddard), Helen Westley (Prima Philippa), Richard Denning (Jack Stoddard (mais velho)), Johnny Downs (David Stoddard (mais velho)), Robert Shaw (Chris Stoddard (mais velho)), Charles Lind (Phillip Stoddard (mais velho)), Billy Ray (Jack Stoddard (jovem)), Steven Muller (David Stoddard (jovem)), Wallace Chadwell (Chris Stoddard (jovem)), Bobby Walberg (Phillip Stoddard (jovem)), June Lockhart (Vance), Pietro Sosso (Otto), Gilbert Emery (Dr. Lane), Renie Riano (Fotógrafa).

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