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Capitaine Conan Em Setembro de 1918, as tropas francesas lutam na Macedónia contra os búlgaros, no final da Primeira Guerra Mundial. Aí destaca-se o capitão Conan (Philippe Torreton), e o seu bando de guerrilheiros, capazes de uma guerra suja, corpo a corpo, em missões que mais ninguém arriscaria. Terminada a guerra, as tropas regressam a Bucareste, mas para os homens de Conan a paz é mais difícil que a guerra. Quando o tenente Norbert (Samuel Le Bihan), amigo de Conan, é chamado tomar um lugar nos tribunais militares para castigar maus comportamentos, este só aceita por perceber que só conseguindo pequenas penas para alguns poderá salvar outros de castigos piores.

Análise:

Com o armistício da Primeira Guerra Mundial em Novembro de 1918, muitas tropas francesas ficaram ainda anos estacionados no Leste da Europa, dada instabilidade que se previa na fronteira russa, depois de a revolução soviética transformar por completo o país. É a partir dessa realidade que, com base num livro de Roger Vercel, o experiente realizador francês Bertrand Tavernier explorou esses tempos e realidades, com o tema dos soldados que vivem a guerra e não se adaptam à paz.

“Capitão Conan” mostra-nos a infantaria francesa na frente macedónia contra os búlgaros, durante a Primeira Guerra Mundial, onde assistimos às missões das tropas do Capitão Conan (Philippe Torreton), um quezilento e carismático comandante especialista em raids inesperados, onde entra nas linhas inimigas para assaltos sangrentos. Conhecido pelo comportamento irascível, Conan despreza os oficiais de carreira e toda a hierarquia militar, que vê como burocratas que não sabem o que é verdadeiramente a guerra. A excepção é o jovem tenente Norbert (Samuel Le Bihan), um sereno ex-professor, que serve de confidente a Conan. Chegado o armistício, as tropas regressam à aliada Bucareste, permanecendo de prevenção dado o clima hostil na fronteira russa. Esse período sem acção nem desmobilização começa a mexer com os soldados, e as insubordinações e delitos crescem. Norbert é então encarregue de tratar de defesa de soldados em tribunal militar, e o seu inesperado sucesso leva a que seja passado à acusação. Ao protestar é-lhe lembrado que o seu amigo Conan – que sucessivamente protege os seus homens, por vezes dando-se como culpado dos crimes destes – poderá estar em maus lençóis caso Norbert não aceda em processar alguns dos soldados. O seu principal caso é encontrar os culpados de um assalto num café que resultou na morte de uma criada francesa. Norbert encontra os soldados culpados, os quais saem com uma pena leve, mas Conan não lhe perdoa ter-se passado para o lado que ele tanto despreza. Entretanto a viúva Erlane (Catherine Rich) chega a Bucareste para interceder pelo filho Jean (Pierre Val), acusado de se ter entregue aos búlgaros. Norbert decide ajudar, e consegue a ajuda de Conan para investigar o terreno e perceber o que se passou. O tribunal acaba por salvar Erlane do fuzilamento, para descontentamento do Tenente De Scève (Bernard Le Coq), seu superior. Voltam os combates, agora na frente russa, e Conan volta a reunir os seus homens, alguns recuperados da prisão militar. Em epílogo vemos, anos depois, Norbert a visitar Conan, agora velho, encolhido numa loja de província.

Olhando a guerra nos olhos, Bertrand Tavernier dá-nos, no seu protagonista Conan, o paradigma do lobo guerreiro, que com o seu bando de inadaptados fazia aquilo que a outros faria virar a cara, o combate corpo a corpo, matando, espetando, degolando, impiedosamente, sem fazer prisioneiros. Outros teriam os louros, mas para Conan, foi ele e 3000 homens como ele que ganharam a guerra. Em contraste, conhecemos Norbert, homem sensível, vendo a guerra como uma negação de tudo em que acredita. Enquanto Norbert lamenta os excessos e pede ordem quando os homens de Conan são soltos na cidade, Conan tudo lhes perdoa, pois sabe o que eles passaram, e acha que merecem toda e qualquer excepção. É esta antítese que constitui o duplo olhar que o filme nos dá sobre a guerra, e afinal, sobre todas as guerras.

Primeiro combatendo na Macedónia, depois em paz em Bucareste, para os homens de Conan tudo é uma guerra, nem que seja perseguir raparigas romenas, ou roubar um carneiro para fazer um assado num quarto de hotel. E é essa incapacidade de adaptação a uma paz que não funciona quando há militares mobilizados a passear por todo o lado, com saudades de casa e sem compreender o que ali fazem, que acompanhamos, e constitui o centro do filme.

Nesse ponto de vista, “Capitão Conan” é um filme de guerra atípico, pois centra-se mais sobre o que acontece nos momentos de paz. Não que os momentos de guerra não sejam importantes no filme. Filmados com mestria, de modo realista, e com a tensão intensificada por longos planos-sequência coreografados magistralmente no campo de batalha, vemos as trincheiras, os bombardeamentos, as mortes, e os raids sangrentos de Conan e dos seus homens. Mas mais do que para trazer espectacularidade ao filme, esses momentos servem para nos descrever os intervenientes. Do comando aos soldados, e entre estes a diferença entre os dois protagonistas. E é principalmente deles que o filme se faz, numa narrativa desgarrada, feita de episódios soltos, como se não se preocupasse em contar uma história. Philippe Torreton é um Conan visceral, cujo desprezo é tão visível que parece desprezar o próprio filme, enquanto Samuel Le Bihan é um dócil Norbert, figura com quem facilmente simpatizamos, espécie de última esperança de um futuro civilizado.

Decididamente lento, algo difuso, e com um tema menos «canónico» do que aquilo que esperamos de um filme de guerra, “Capitão Conan” passou ao lado do circuito internacional, e é hoje pouco conhecido. Foi, no entanto prestigiado nos prémios Césare, com Tavernier a vencer o prémio de Melhor Realizador, e Philippe Torreton o de Melhor Actor, num total de oito nomeações.

Philippe Torreton em "Capitão Conan" (Capitaine Conan, 1996), de Bertrand Tavernier

Produção:

Título original: Capitaine Conan; Produção: Canal+
Les Films Alain Sarde / Little Bear / TF1 Films Production / Studio Images 2; País: França; Ano: 1996; Duração: 127 minutos; Distribuição: Bac Films (França); Estreia: 16 de Outubro de 1996 (França).

Equipa técnica:

Realização: Bertrand Tavernier; Produção: Alain Sarde, Frédéric Bourboulon; Argumento: Jean Cosmos, Bertrand Tavernier [baseado no romance homónimo de Roger Vercel]; Diálogos: Jean Cosmos; Música: Oswald d’Andrea; Fotografia: Alain Choquart [filmado em Super 35]; Montagem: Luce Grunenwaldt; Design de Produção: Guy-Claude François; Cenários: ; Figurinos: Jacqueline Moreau, Agnès Evein; Caracterização: Agnès Tassel; Efeitos Especiais: Mihai Reti; Efeitos Visuais: Antoine Simkine; Direcção de Produção: Yvon Crenn.

Elenco:

Philippe Torreton (Capitão Conan), Samuel Le Bihan (Tenente Norbert), Bernard Le Coq (Tenente De Scève), Catherine Rich (Madeleine Erlane), François Berléand (Comandante Bouvier), Claude Rich (General Pitard de Lauzier), André Falcon (Coronel Voirin), Claude Brosset (Père Dubreuil), Crina Muresan (Ilyana), Cécile Vassort (Georgette), François Levantal (Forgeol), Pierre Val (Jean Erlane), Roger Knobelspiess (Major Cuypene), Frédéric Pierrot (Maquinista do Comboio), Jean-Claude Calon (Funcionário Loisy), Laurent Schilling (Beuillard), Jean-Yves Roan (Rouzic), Philippe Héliès (Grenais), Tonio Descanvelle (Caboulet), Eric Savin (Armurier), Olivier Loustau (Mahut), Jean-Marie Juan (Lethore), Jean-Christophe Chavanon (Sentinela De Scève), Christophe Calmel (Soldado 2 De Scève), J.P. Monaghan (Major Inglês), Laurent Bateau (Soldado Perrin), Tervelt Nikolov (Soldado Búlgaro), Eric Dufay (Tenente Fideli), Philippe Frécon (Cuistot Ménard), Diana Radu (Empregada no Café Sokol), Michel Charvaz (Sargento no Café Sokol), Patrick Delage (Empregado Messinge), Patrick Brossard (Riquiou), Yvon Crenn (Ordenança Floch), Christophe Odent (Cabanel), Franck Jazédé (Havrecourt), Dominique Compagnon (Morel), Pascal Guérin (Soldado Retardatário), Christophe Vandevelde (Soldado Classe II), Maria Pitarresi (Enfermeira no Comboio), Patrice Verdeil (Soldado Quarto de Água), Frédéric Diefenthal (Sargento na Estação de Bucareste), Daniel Langlet (Director do Liceu), Luminita Anghel (Cantora na Taverna), Hubert Ravel (Soldado da Patrulha de Norbert), Philippe Lelièvre (Polícia no Bordel), Bruno Therasse (Polícia no Bordel), Laurent Labasse (Raoul Fourrier), Eric Thannberger (Louberac), Sandrine Desio (Fréhel), Eugen Cristea (Monsieur Loyal do Cabaré), Raluca Penu [como Raluca Penu Tomescu] (Myrta), Juliana Ciugulea (Frida), Dana Medeleanu (Empregada à Caixa), Olivier Cruveiller (Oficial na Estação de Bucareste), Olivier Brunhes (Soldado Anarquista), Jean-Claude Frissung (Polícia Bergeret), Adrian Pintea (Médico em Bucarest), Mircea Stoian (Ajudante-de-Campo de Bouvier), Marian Stan (Sub-oficial na Messe), Claudiu Istodor (Sub-oficial na Messe)
Laurentiu Lazar (Inspector Romesco), Radu Duda (Inspector Stefanesco), David Brécourt (Tenente Bérard), Olga Tudorache (Prostituta), Eugenia Bosânceanu (Mãe Ilyana), Simona Mihaescu Stan (Enfermeira Inglesa), Sorin Cocis (Cabo Moreau), Mircea Anca (Cabo Girard), Patrick Pineau (Sargento Lanzec), Françoise Sage (Empregada no Café Bretagne).