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Chinesisches RouletteAriane (Margrit Carstensen) e Gerhard Christ (Alexander Allerson), um casal abastado de Munique, preparam-se para deixar a filha inválida, Angela (Andrea Schober), em casa no fim de semana, porque vão viajar para cidades diferentes. Só que é tudo uma mentira, e quer o azar que ambos tenham escolhido ir com os seus amantes – Kolbe (Ulli Lommel) e Irene (Anna Karina), respectivamente – para o mesmo local, encontrando-se os quatro na mansão de campo da família. Se inicialmente o aceitam desportivamente, a chegada da filha Angela, que mostra saber de tudo há muito tempo, traz o conflito surdo a todos os presentes, transformando a estadia num tenso jogo de vontades.

Análise:

Filmado durante sete semanas num castelo em Unterfranken, pertencente a Michael Ballhaus, “Roleta Chinesa” foi uma co-produção franco-alemã, uma novidade para Fassbinder, que em virtude da presença francesa contou, no elenco, com as actrizes Anna Karina e Macha Méril. A estas juntaram-se vários actores habituais em Fassbinder (Castersen, Lommel, Mira, Spengler), bem como Alexander Allerson. Mas a figura marcante seria a da pequena Angela interpretada por Andrea Schober, já antes presente no filme “O Mercador das Quatro Estações” (Händler der vier Jahreszeiten, 1972).

Com um título baseado num jogo apenas existente no universo do filme, “Roleta Chinesa” inicia-se quando Ariane (Margrit Carstensen) e Gerhard Christ (Alexander Allerson) um casal abastado de Munique, com uma filha inválida, Angela (Andrea Schober), se preparam para viajar, cada um para uma cidade. Gerhard diz ir para Oslo, mas no aeroporto espera a sua amante fransesa Irene (Anna Karina). Juntos vão para a mansão de campo da família, para verem, que foram precedidos por Ariane e o seu amante Kolbe (Ulli Lommel). Na mansão gerida por Kast (Birgitte Mira) e o seu filho Gabriel (Volker Spengler), o quarteto aceita desportivamente a realidade, com Ariane e Gerhard sorridentes perante uns Irene e Kolbe pouco à vontade. Tudo piora quando Angela, acompanhada da tutora Traunitz (Macha Méril), chega também, ponto a nu as hipocrisias dos pais. No dia seguinte, e depois de ter visto os seus pais na cama com os respectivos amantes, Angela planeia colocar todos contra todos, através de um jogo de perguntas e respostas abstractas chamado Roleta Chinesa. O resultado acaba em humilhação para Ariane, que descobre ser a ela que as perguntas se referiam, resultando em respostas cruéis. Em desespero, Ariane ameaça matar a filha a tiro, mas no último momento vira a arma e atinge Traunitz no pescoço, apenas superficialmente. Quando todos partem, ouve-se um segundo tiro na escuridão, não sendo certo quem o disparou, nem contra quem.

Com um argumento minimalista, “Roleta Chinesa” decorre como se fosse uma peça de teatro. De facto, exceptuando os instantes iniciais na casa dos Christ, e a viagem de Gerhard até ao aeroporto e casa de campo, todo o filme se resume nos confrontos psicológicos que decorrem na mansão, quase sempre com todos os personagens na mesma sala. Estes são filmados de forma dinâmica, com a câmara de Michael Ballhaus a passear-se entre personagens, e os seus posicionamentos, obedecendo a uma lógica de palco, definindo espaços próprios que fazem uns encarar a câmara enquanto os outros estão de costas para ela (assim podendo-se mudar de ponto de vista quando se roda pela sala), e tudo parece jogar-se, pelo menos na primeira metade do filme, em jogos de olhares, nervosos, inconstantes, e talvez ambíguos.

E esta metade do filme é dominada pela descoberta pacífica da dupla traição, quando os dois cônjuges adúlteros vão, sem saber um do outro, para a mesma casa com o respectivo amante. A descoberta a claro daquilo que já talvez soubesse, mas que o jogo das aparências mantinha como secreto, aliado ao facto de o casamento já há muito não ter emoção, leva a que tudo seja visto como uma brincadeira, a ponto de a dada altura parecer que nem Gerhard nem Ariane saberem já se devem estar com o respectivo amante, ou um com o outro. Nesse ambiente teatral (onde o jantar encenado, seguido de uma leitura, contribui para um ambiente plástico de relações falsas e sem profundidade), Fassbinder satiriza o casamento (como visível na frase que fica no ecrã quando o filme termina), mostrando-o como um jogo oco, e sem sentido.

A tensão agudiza-se com a chegada de Angela, que mostra que sabia de tudo e jogou as suas cartas para tornar este momento possível. Se ao verem o adultério pelos olhos um do outro, Gerhard e Ariane puderam rir, ao vê-lo pelos olhos da sua filha, ficam bastante incomodados. Afinal, como descobrimos na revelação de Angela a Gabriel (pretenso filósofo que tenta convencer Gerhard a arranjar-lhe uma editora), esta crê que a infidelidade dos seus pais está ligada à sua doença (começou a tê-la há 11 anos, quando o pai traiu a mãe pela primeira vez, e foi declarada incurável há 8, quando a mãe traiu o pai pela primeira vez). Mas é essencialmente de falta de afecto que Angela (que chega com um exército perturbador de bonecas de porcelana) se queixa, desprezando aqueles de quem nunca teve mais que frieza, por verem no seu nascimento um fim de liberdade.

O resto do filme é o nominal jogo de Roleta Chinesa, que consiste na formação de dois grupos de quatro pessoas, em que um decide escolher uma pessoa do segundo, e as pessoas desse outro têm nove perguntas abstractas a fazer para que as do primeiro respondam à vez. As perguntas começam inocentemente com «que animal seria essa pessoa», para terminarem com temas mais sinistros como «quem seria essa pessoa no nazismo». A resposta de Angela que a pessoa comandaria um campo de concentração é a gota de água que faz a visada – Ariane – querer matá-la, num momento em que já todos perceberam como Angela dominou todas as questões numa senda de vingança psicológica sobre os pais.

Descrevendo comportamentos frios e, por vezes, a roçar o sadismo, “Roleta Chinesa” acabou por ser criticado por deixar que uma pretensa intelectualidade substituísse as emoções, resultando em personagens e comportamentos afectados. Tal é, claro, a forma de Fassbinder satirizar os comportamentos burgueses, as instituições e os valores que despreza.

Anna Karina e Margrit Carstensen em "Roleta Chinesa" (Chinesisches Roulette, 1976), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Chinesisches Roulette; Produção: Albatros Filmproduktion / Les Films du Losange; País: República Federal Alemã (RFA) / França; Ano: 1976; Duração: 82 minutos; Distribuição: Filmverlag der Autoren (RFA), New Yorker Films (EUA); Estreia: 16 de Novembro de 1976 (RFA).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Michael Fengler, Barbet Schroeder; Produtor Associado: Jean-François Stévenin; Argumento: Rainer Werner Fassbinder; Música: Peer Raben; Fotografia: Michael Ballhaus [cor por Eastmancolor]; Montagem: Ila von Hasperg; Direcção Artística: Peter Müller, Helga Ballhaus, Kurt Raab; Caracterização: Jo Braun; Direcção de Produção: Michael Fengler.

Elenco:

Anna Karina (Irene Cartis), Margit Carstensen (Ariane Christ), Brigitte Mira (Kast), Ulli Lommel (Kolbe), Alexander Allerson (Gerhard Christ), Volker Spengler (Gabriel Kast), Andrea Schober (Angela Christ), Macha Méril (Traunitz), Erik Schumann (dobragem de voz de Alexander Allerson) [não creditado].

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