Etiquetas

, , , , , , , , , , , ,

Gallipoli Archy Hamilton (Mark Lee) é um jovem rancheiro, que nos tempos livre treina sob as instruções do seu tio Jack (Bill Kerr) para se tornar o maior velocista do país. Pelo seu lado, Frank Dunne (Mel Gibson) é outro apaixonado por corridas, que trabalha nos caminhos-de-ferro, mas se despede no dia que os seus amigos Bill (Robert Grubb), Barney (Tim McKenzie) e Snowy (David Argue) se decidem alistar no exército. Apostando tudo no prémio de uma corrida, Frank vem a perdê-la para Archy, mas os dois tornam-se grandes amigos, e Archy vai convencer Frank a alistar-se com ele para cumprirem o que ele acha ser o maior dever de um australiano: lutar pelo seu país, na Europa, na Primeira Guerra Mundial.

Análise:

Filme australiano que se debruça sobre um dos mais dolorosos episódios da história daquele país, “Gallipoli” fala da Campanha de Galípoli, na Turquia, que decorreu entre Abril de 1915 e Janeiro de 1916, e que levou ao massacre de grande parte da força ANZAC (Australian and New Zealand Army Corps) pelas tropas do Império Otomano. O filme foi a quinta longa-metragem de Peter Weir, e a quarta de Mel Gibson, então em ascensão após o relativo reconhecimento internacional do recente “Mad Max – As Motos da Morte” (Mad Max, 1979), de George Miller.

A história começa na Austrália rural, onde os jovens Archy Hamilton (Mark Lee) e Frank Dunne (Mel Gibson) se vêm a conhecer. O primeiro trabalha num rancho e é treinado como corredor pelo seu tio Jack (Bill Kerr). O segundo é um ex-empregado dos caminhos-de-ferro, que vê os colegas Bill (Robert Grubb), Barney (Tim McKenzie) e Snowy (David Argue) alistarem-se no exército, mas prefere ganhar dinheiro numa corrida. Quem vence a corrida é Archy, o qual desobedece ao tio, e procura alistar-se, mas é rejeitado pela idade. Travando amizade, os dois viajam para Perth, onde Archy tentará de novo alistar-se, beneficiando do facto de ser um exímio cavaleiro. No decurso da viagem Archy convence Frank a fazer o mesmo, mas, na recruta os dois são separados, com Archy a ser colocado na cavalaria e Frank na infantaria, onde reencontra Bill, Barney e Snowy. Terminada a recruta, as tropas embarcam, e Frank e Archy voltam a encontrar-se no Cairo, onde passam algum tempo esperando ordens. Frank é então aceite na cavalaria, e é já com Archy que chega à Turquia, onde são recebidos sob forte bombardeamento. Ao reencontrar Billy, Frank sabe da morte de Barney e Snowy. Chega o dia do maior assalto dos ANZAC, ordenado pelo Coronel Robinson (John Morris) contra as indicações do Major Barton (Bill Hunter), e Frank é destacado como estafeta entre a frente de batalha e o comando. Uma série de mal-entendidos levam a que ordens sejam mal-interpretadas, e que o apoio da artilharia termine demasiado cedo. Frank decide procurar o General Gardner (Graham Dow), mas as suas ordens chegam demasiado tarde, e Frank não consegue impedir a última investida, na qual morrem o Major Barton e Archy.

De forte pendor pacifista, não se baseasse num evento ainda hoje doloroso para os australianos (o dia 25 de Abril, que marca o início da campanha de Galípoli, é inclusivamente feriado nacional na Austrália), “Gallipoli” começa com uma espécie de retrato de um continente semi-selvagem, mas pacífico, onde os seus habitantes não sabem, talvez, a sorte que têm. Por isso o enredo inicial é de disputas inocentes, como as corridas, vistas pelos olhos do jovem Archy, símbolo de inocência e jovialidade. Por seu lado, o mais cínico Frank sabe o que a guerra significa e procura afastar-se disso, pois, afinal, tem sangue irlandês, e por isso poucos motivos para querer bem aos ingleses. É este distanciamento e visão longínqua (e romantizada) da guerra que vai conduzir os homens, que Archy e Frank representam. De um lado está o romantismo dos feitos heróicos, do outro o desconhecimento do que se passa de facto na Europa.

Aventuras australianas para trás – de corridas de pés descalços, a episódios nos caminhos-de-ferro, e travessias no deserto reminiscentes de “Lawrence da Arábia” (Lawrence of Arabia, 1962), de David Lean – e chegamos ao hemisfério norte, com um interlúdio divertido no Cairo, antes de a guerra amargar já na Turquia. Aqui, Peter Weir repete motivos de outros filmes do género: as mortes estúpidas, o pânico de viver constantemente debaixo de fogo, o stress de combate, a dor da perda, e claro as ordens superiores, cegas e sádicas, que tudo sacrificam desumanamente em prole de vitórias no papel.

Pelo lado das personagens, “Gallipoli” é essencialmente a história de uma amizade. Amizade forjada nas pistas de corrida, numa espécie de código de honra, como linguagem secreta entre atletas, resultando num laço de fraternidade pura entre dois jovens diferentes, mas ambos entusiastas e generosos, cada um à sua maneira. O lado mais tocante do filme talvez seja, por isso, o magnetismo das personagens de Mel Gibson e Mark Lee que nos arrastam para um mundo que podemos detestar, mas onde não os queremos deixar sozinhos.

E é através deles que o tema principal do filme se desenvolve, e este é a perda da inocência (note-se a leitura inicial do tio Jack sobre Mowgli em “O Livro da Selva”, explicando como ele tem de deixar aqueles que o criaram para crescer e ser uma pessoa adulta), no que isso representa num indivíduo, mas também, se quisermos generalizar, é a perda da inocência da Austrália, que formada como uma experiência algo fortuita, se via, finalmente envolta nos cenários internacionais, pagando com isso o maior dos preços, a morte de tantos dos seus jovens, chamada a cumprir um dever (na Commonwealth) como os jovens o são, chamados a alistar-se. Weir dá-nos esse evoluir de modo algo poético, como é exemplo a forma como acaba por comparar a cena final da morte de Frank (imobilizado pela câmara no momento em que o seu corpo pára, cravejado de balas), ao momento do corte da meta nas corridas que víramos inicialmente.

Da grandeza da Austrália – árida, quase terra virgem, mas difícil de domar – à claustrofobia das trincheiras na guerra, Peter Weir (que filmou na Austrália e no Egipto), contou com um generoso orçamento, com o qual conseguiu sempre imprimir o ritmo adequado a cada momento da sua história (solto e alegre no início, confinado e nervoso no final). O seu uso da paisagem é ao mesmo tempo deslumbrante e ameaçador, do mesmo modo que a alegria de uma geração é em simultâneo motivo de esperança e de tristeza, o que se traduz na bem filmada história de dois amigos, cuja amizade nos vai parecer maior que a guerra.

Fortemente aplaudido na Austrália, onde recebeu muitos prémios, o filme de Peter Weir foi elogiado pelas suas recriações cénicas, mas não tanto por algumas liberdades que a história tomou, nomeadamente no que diz respeito à cadeia de comando e ao facto de o Coronel Robinson ser habitualmente tomado por um oficial inglês. A recepção internacional ao filme foi muito mais fria, tendo, no entanto, recebido uma nomeação de Melhor Filme Estrangeiro para os Globos de Ouro e outra de Melhor Filme no Festival de Veneza. O tempo viria a aumentar o estatuto do filme, tornando-se uma referência para muitos filmes de guerra de cariz pacifista que se fizeram posteriormente. Graças a “Gallipoli”, Peter Weir e Mel Gibson veriam o lançamento das suas carreiras internacionais.

Mark Lee e Mel Gibson em "Gallipoli" (1981), de Peter Weir

Produção:

Título original: Gallipoli; Produção: Associated R & R Films Pty Ltd. / The Australian Film Commission; Produtor Executivo: Francis O’Brien; País: Austrália; Ano: 1981; Duração: 108 minutos; Distribuição: Roadshow Film Distributors (Austrália), Cinema International Corporation (CIC) (Reino Unido), Paramount Pictures (EUA); Estreia: 13 de Agosto de 1981 (Austrália), 29 de Abril de 1992 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Peter Weir; Produção: Robert Stigwood, Patricia Lovell; Produtores Associados: Martin Cooper, Ben Gannon; Argumento: David Williamson [a partir de uma história de Peter Weir, baseada no romance “Tell England” de Ernest Raymond]; Música: Brian May; Fotografia: Russell Boyd [filmado em Panavision, cor por Eastmancolor]; Montagem: William M. Anderson; Design de Produção: Wendy Weir; Direcção Artística: Herbert Pinter; Cenários: William Malcolm; Figurinos: ; Caracterização: Judy Lovell; Efeitos Especiais: Chris Murray, Mont Fieguth, David Hardie, Steve Courtley, Bruce Henderson; Efeitos Visuais: Roger Cowland [não creditado]; Direcção de Produção: Su Armstrong, Ahmed Sami (Egipto).

Elenco:

Mel Gibson (Frank Dunne), Mark Lee (Archy Hamilton), Bill Hunter (Major Barton), Robert Grubb (Billy), Bill Kerr (Jack), John Morris (Coronel Robinson), Harold Hopkins (Les McCann), Tim McKenzie (Barney), David Argue (Snowy), Charles Lathalu Yunipingu (Zac), Heath Harris (Stockman), Ron Graham (Wallace Hamilton), Gerda Nicolson (Rose Hamilton), Brian Anderson (Capataz dos Caminhos de Ferro), Reg Evans (Oficial no Atletismo), Jack Giddy (Oficial no Atletismo), Dane Peterson (Anunciante), Paul Linkson (Oficial do Recrutamento), Jenny Lovell (Criada), Steve Dodd (Billy Snakeskin), Harold Baigent (Condutor de Camelo), Robyn Galwey (Mary), Don Quin (Lionel), Phyllis Burford (Laura), Marjorie Irving (Gran), John Murphy (Pai de Frank), Diane Chamberlain (Mrs. Barton), Peter Ford (Tenente Gray), Ian Govett (Médico Militar), Geoff Parry (Sargento Sayers), Clive Bennington (Oficial Inglês), Giles Holland-Martin (Oficial Inglês), Moshe Kedem (Lojista Egípcio), Don Barker (N.C.O. no Baile), Kiwi White (Soldado na Praia), Paul Sonkkila (Franco-atirador), Peter Lawless (Observador), Saltbush Baldock (Sentinela), Les Dayman (Oficial de Artilharia), Stan Green (Sargento Major), Max Wearing (Coronel White), Graham Dow (General Gardner), Peter R. House (Oficial de Rádio).

Anúncios