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Ich will doch nur, daß ihr mich liebt Peter Trepper (Vitus Zeplichal) é um pedreiro que, quando não está a ajudar os pais (Alexander Allerson e Erni Mangold), está usar o tempo livre para lhes construir uma casa. É que assim Peter sente que pode ganhar alguma da aprovação familiar que sempre lhe parece ter faltado. Só que, como o próprio reconhece, essa aprovação e alegria só irá reinar uns dias após a entrega da casa nova, e depois tudo volta ao mesmo. Peter parte então para Munique com a esposa Erika (Elke Aberle), mais uma vez para impressionar os pais. Mas o emprego paga mal, e para o esconder, Peter vai dar-se a despesas que não pode pagar, contraindo dívidas numa espiral de que não consegue sair.

Análise:

Mais uma vez trabalhando para televisão, Rainer Werner Fassbinder adaptou o livro “Lebenslänglich – Protokolle aus der Haft” (que se pode traduzir como “Uma Vida – Manuscritos de Encarceramento”), da autoria de Klaus Antes, Christiane Ehrhardt e Heinrich Hannover, publicado em 1972, e baseado numa história real. Filmado em apenas 25 dias, o filme conformava a via recente de Fassbinder no caminho de um melodrama mais convencional, onde o tema da fragilidade humana continuava a ser central

Contado em flashback, já que nos é dada a ver uma entrevista a uma psicóloga feita na prisão, acompanhamos, na primeira pessoa, a história de Peter Trepper (Vitus Zeplichal). Já adulto e trabalhando no café dos pais (Alexander Allerson e Erni Mangold), Peter ocupa o tempo livre a construir uma casa para eles, fruto da necessidade de lhes agradar. Logo após a casa estar completa, Peter casa com a vizinha de longa data Erika (Elke Aberle), e sentido que os pais, já esquecidos da oferta da casa, o continuam a olhar de cima, inventa planos de subida na vida e propõe mudar-se para Munique. Aí, Peter vai trabalhar na construção civil, alugando um pequeno apartamento, e fazendo das tripas coração para poupar dinheiro para poder mandar Erika vir ter consigo. A sua necessidade de agradar e o sentimento de culpa por não poder dar mais a Erika, fazem com que ele esteja sempre a contrair despesas que não pode suportar, seja em saídas caras à noite ou em compras para Erika, disfarçando o facto de não terem dinheiro com mais e mais dívidas. Não só os supostos aumentos nunca chegam, como Peter acaba por ser despedido. O desespero leva a melhor sobre si, e Peter, um dia, no café por baixo da casa da avó de Erika (Johanna Hofer), que constantemente os ajudava, tem um momento de alienação, e mata o dono do café (János Gönczöl), imaginando que este é o seu pai.

Com mais uma relação familiar no centro de um seu filme, Fassbinder parece contar, capítulos após capítulos do modo como as famílias podem ser destruidoras, focando-se em personagens frágeis, a necessitar de aprovação, confundindo facilmente amor com dependência. Foi assim, por exemplo, em “O Direito do Mais Forte à Liberdade (Faustrecht der Freiheit, 1975), cujo protagonista, interpretado pelo próprio Fassbinder, se deixava arrastar por pessoas que o usavam, sem que ele o percebesse. Simples nas suas avaliações e motivações é também Peter Trepper, o protagonista de “I Only Want You to Love Me” que, como o título do filme aponta, vai fazer tudo para que reparem nele e o acarinhem, mesmo que confunda amor com trocas de favores, e não saiba mais que tentar justificar materialmente o amor que procura.

É que Peter habituou-se, de pequeno, a ser menosprezado pelos pais, e já adulto, confessa que só sentiu apreciação da parte destes, durante poucos dias depois de lhes ter dado uma casa nova, e depois disso tudo voltou ao mesmo. Com uma esposa que o ama, Peter não sabe o que fazer a esse amor genuíno, e comporta-se como com os pais, comprando o amor que a esposa lhe dá, com prendas, festas, jantares caros, que ele nunca vai poder pagar, e sobre os quais mente, para não receber a reprovação dela. A submissão constante de Peter (por exemplo ao nunca pedir um aumento) é tal que Fassbinder a sublinha no episódio em que Erika lhe dá como diminutivo o nome de um cão.

Graças ao modo retrospectivo de contar a história, com Peter encarcerado, narrando os factos com um distanciamento frio de quem já não consegue sentir ou desejar nada, Fassbinder coloca o tom imediatamente na tragédia anunciada. E aí, Vitus Zeplichal compõe, com sobriedade, um Peter completamente verosímil, tímido, submisso, patético até, mas ainda assim próximo de nós, que facilmente lhe reconhecemos as fragilidades.

Com uma composição cuidada, mesmo que algo austera, onde os cenários contribuem como modo de subjugação, Fassbinder pinta uma tragédia em tom lento, frio e triste, como uma inevitabilidade que nos faz pensar se não temos todos um pouco de Peter, ou não conhecemos alguém assim, em relações onde a separação entre igualdade e submissão é, por vezes, uma linha difícil de definir.

Vitus Zeplichal em "I Only Want You to Love Me" (Ich will doch nur, daß ihr mich liebt, 1976), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Ich will doch nur, daß ihr mich liebt; Produção: Westdeutscher Rundfunk (WDR), Bavaria Atelier; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1976; Duração: 106 minutos; Estreia: 23 de Março de 1976 (WDR, RFA).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Peter Märthesheimer; Argumento: Rainer Werner Fassbinder [a partir do livro de Klaus Antes, Christiane Ehrhardt e Heinrich Hannover]; Música: Peer Raben; Fotografia: Michael Ballhaus; Montagem: Liesgret Schmitt-Klink; Design de Produção: Kurt Raab; Direcção de Produção: Dixie Sensburg.

Elenco:

Vitus Zeplichal (Peter Trepper), Elke Aberle (Erika), Alexander Allerson (Pai, Ernst Trepper), Erni Mangold (Mãe, Edith Trepper), Johanna Hofer (Avó de Erika), Wolfgang Hess (Capataz de Construção), Armin Meier (Gerente da Companhia de Construção), Erika Runge (Psicóloga, Dr. Erika Runge), Ellen Eckelmann (Empregada Olga), Ulrich Radke (Albert, Pai de Erika), Annemarie Wendl (Lis, Mãe de Erika), János Gönczöl (Dono do Café), Edith Volkmann (Mulher do Dono do Café), Robert Naegele (Gerente dos Apartamentos), Axel Ganz (Zelador), Inge Schulz (Senhora Emmerich), Peer Raben (Vendedor de Móveis), Helga Bender (Vendedora na Boutique), Sonja Neudorfer (Joalheira), Ingrid Caven (Vendedora de Máquina de Costura), Hannes Kaetner (Construtor), Adi Gruber (Empregado dos Correios), Lilo Pempeit (Senhora no Posto dos Correios).

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