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Angst vor der Angst Margot (Margrit Carstensen) é uma esposa de classe média, casada com Kurt (Ulrich Faulhaber), mãe da pequena Bibi (Constanze Haas) e grávida de um segundo filho. Mas, por alguma razão, a gravidez provoca em Margot um estado de permanente ansiedade e depressão. A situação não melhora após o parto, com Margot a sentir-se cada vez mais alienada, com um marido que não a tenta compreender, e a família deste a revelar-se opressora e controladora. Resta a Margot tentar escapar da sua rotina, seja com Valium e álcool, ou numa relação ilícita com um conhecido.

Análise:

Com mais uma produção para a televisão alemã, Rainer Werner Fassbinder (sempre com o mesmo elenco de actores, e pela terceira vez com música de Leonard Cohen), seguia as pisadas do seu anterior “A Viagem ao Céu da Mãe Küster” (Mutter Küsters Fahrt zum Himmel, 1975) para nos dar mais uma história a roçar o melodrama, onde o apoio da família, ou a falta dele é fulcral no futuro, felicidade e sanidade de uma mulher.

E esta é Margot (Margrit Carstensen), esposa, grávida e já mãe de uma menina, Bibi (Constanze Haas), que vive com o marido Kurt (Ulrich Faulhaber) num apartamento que pertence à mãe dele (Birgitte Mira), que mora no andar de cima com a outra filha, Lore (Irm Hermann), e o marido desta, Karli (Armin Meier). Num ambiente que considera opressivo pela constante vigília e intromissão da família, e agarrando-se à ideia da histeria da gravidez, Margot vai andando entre a depressão e a esquizofrenia, ganhando medo, sentindo-se só e infeliz sem razão aparente. Sem encontrar conforto ou compreensão, Margot vai ter crises que a levam a ser medicada com Valium. Procurando algo que a liberte de si mesma, ela vai hostilizar cada vez mais a família, parecendo sempre mais ausente, cedendo mesmo a uma relação física com o Dr. Merck (Adrian Hoven), consumindo cada vez mais álcool, e contemplando a ideia de se suicidar. O acumular de episódios preocupantes levam a que seja internada para tratamento, saindo com o diagnóstico de que tudo estará bem se nunca deixar de tomar os seus comprimidos.

Centrando-se numa família de classe média, num apartamento perfeitamente vulgar, e sem nada que se destaque no seu dia a dia, “O Medo Devora a Alma” é um retrato da Alemanha dos anos 1970, cinzenta, sem aspirações que não sejam perpetuar um status quo que as convenções (aqui representadas pela família de Kurt) defendem como «normal». Nessa «prisão», Margot definha, talvez porque já percebeu estar amarrada, observada e manipulada por uma sociedade que é mais forte que a sua vontade. Vemo-la grávida nas primeiras cenas, o que tem o significado desse «bom comportamento» que é construir família, mesmo se, por todo o filme, o marido pareça sempre pouco atento, mesmo que preocupado (sobretudo na parte final). A vida de Margot parece assim um vácuo de afectos – procura o da filha que, como criança mal o percebe; procura o do marido que tem sempre mais em que pensar; e vê a sogra e cunhada como megeras intrometidas sempre prontas a criticar e nunca em compreender ou aceitar.

Há no filme uma clara crítica do papel da família, aqui repressiva, pronta a criticar e julgar (e com a personagem de Irm Hermann a repetir uma obsessão anterior com vegetais e comida saudável). É curioso que, para família, Fassbinder tenha escolhido a mesma estrutura (e actores) de “A Viagem ao Céu da Mãe Küster”: mãe (Birgitte Mira), filha (Irm Hermann) e genro (Armin Meier), novamente com ódio entre cunhadas (no filme anterior Irm Hermann e Ingrid Caven). Destaca-se o cunhado Karli, o único a mostrar alguma simpatia.

Quase sempre centrados no modesto apartamento de Kurt e Margot, deixamo-lo apenas nalgumas idas a médicos, e as saídas sempre observadas pelo estranho senhor Bauer (Kurt Raab) – que nunca chegamos a saber ao que vem, mas talvez personifique o espectro da loucura que está sempre ao virar da esquina). Aí Fassbinder tem oportunidade de brincar com os seus planos entrecortados por portas, panorâmicas que nos levam a reflexões no espelho (desta vez sem Michael Ballhaus), adicionando o efeito ondulatório da imagem, que significava que Margot estaria a ter uma crise. A história de “O Medo Devora a Alma” é, assim, a história da crescente ansiedade e alienação de Margot, e os métodos pouco ortodoxos de lidar com ela, passando pela procura de sensações físicas que a retirem de dentro da sua cabeça, da música a alto volume, ao sexo com o Dr. Merck, passando por um brincar com lâminas, num flirt com o suicídio.

O filme destaca-se pela hipnotizante interpretação de Carstensen, cujo rosto e olhares preenchem tantas vezes o ecrã, transparecendo angústia e fragilidade, guiando-nos quase etereamente, quando a sentimos como uma viajante, sempre a tocar algo que não pode ter, ou a ausentar-se para algum lugar que não existe, e que nunca nos é dada a entender completamente – como não entendemos as causas de Margot estar assim, o que faz o marido dela, ou o porquê da prisão à família que aparentemente nunca a suportou – pois não é de causas que Fassbinder pretende fazer uma história, mas sim de retrato de comportamentos e reacções.

“O Medo Devora a Alma” é, sobretudo, um filme de afectos e falta deles: note-se como nunca há carinho físico no casal (mesmo que Kurt pareça genuinamente interessado pela esposa, não está à vontade com a expressão física) e Margot é criticada por tanto querer tocar e beijar os filhos. Esses afectos talvez sejam a solução de Fassbinder para uma estranha condição da sua protagonista que nenhuma palavra, nenhuma acção, diagnóstico ou tratamento parece evitar que se torne cada vez mais alienante e preocupante, e da qual a personagem louca de Ingrid Caven (num curto cameo final) é uma espécie de premonição.

Margit Carstensen em "O Medo Devora a Alma" (Angst vor der Angst, 1975), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Angst vor der Angst [Título inglês: Fear of Fear]; Produção: Westdeutscher Rundfunk (WDR); Produtores Executivos: ; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1969; Duração: 88 minutos; Distribuição: Arbeitsgemeinschaft der öffentlich-rechtlichen Rundfunkanstalten der Bundesrepublik Deutschland (ARD) (RFA); Estreia: 8 de Julho de 1975 (RFA), 20 de Novembro de 1988 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Peter Märthesheimer; Argumento: Rainer Werner Fassbinder [a partir de uma ideia de Asta Scheib]; Música: Peer Raben; Fotografia: Jürgen Jürges; Montagem: Liesgret Schmitt-Klink, Beate Fischer-Weiskirch; Design de Produção: Kurt Raab; Figurinos: Gisela Röcken; Caracterização: Almut Eggert, Gerd Schuberth; Direcção de Produção: Fred Ilgner.

Elenco:

Margit Carstensen (Margot), Ulrich Faulhaber (Kurt, O Seu Marido), Brigitte Mira (Mãe de Kurt), Irm Hermann (Lore, Irmã de Kurt), Armin Meier (Karli, Marido de Lore), Adrian Hoven (Dr. Merck), Kurt Raab (Senhor Bauer), Ingrid Caven (Edda), Lilo Pempeit (Senhora Schall), Helga Märthesheimer (Dra. von Unruh), Herbert Steinmetz (Dr. Auer), Hark Bohm (Dr. Rozenbaum), Constanze Haas (Bibi, Filha de Margot).

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